Construindo os seus horizontes

05/06/2017

construindo os horizontes

Eu nunca fui muito de acreditar e reconhecer a força inspiradora e realizadora de ações ritualísticas. E chamo que ações ritualísticas quase tudo o que fazemos na vida, até mesmo escovar os dentes, desde que o ato esteja revestido dessas energias que nos impulsionam para a concretização e algo. Escrever, por exemplo, é extremamente ritualístico.  Todo jornalista ou escritor cumpre um ritual antes, durante e depois de buscar organizar e expressar suas idéias. E acredite, a coisa tem uma força que muitas vezes é subestimada pelo nosso pensamento lógico e cortical.

Todo esse preâmbulo aí em cima é para falar sobre a força de concretização de um planejamento, seja ele, pessoal, familiar, de lazer ou profissional. O simples ato de colocar no papel, em uma ordem coerente com os seus desejos já aciona energias e potenciais que caminham para a sua concretização. Tive provas indiscutíveis desse poder há alguns anos, quando o processo de coaching no Brasil estava ‘nascendo’.

Na época, fazia terapia e minha terapeuta, percebendo a minha insatisfação em algumas áreas da vida (para não dizer todas…), sugeriu que eu tentasse responder a um questionário para identificar os pontos negativos e traçar um plano de metas para um autodesenvolvimento.

Olhei aquele papel com um misto de desprezo, preguiça e descrença, mas queria agradar a minha querida mentora, então, enfiei o documento debaixo do braço e fui-me embora. Só depois de uns cinco dias é que procurei ler com alguma atenção o roteiro à minha frente.

As perguntas, que começavam com uma definição sobre mim mesma (qualidade e defeitos) e da minha missão de vida eram complicadas e deram um ‘nó’ na minha cabeça. O desafio estava lançado e a minha simples determinação em responder de cabo a rabo o questionário despertou um envolvimento e uma consciência, que me surpreenderam e me mostraram a força do ritual. E olhe que demorou meses para concluir o trabalho.

Tudo começou com delineamento das minhas reais capacidades e condições atuais. Depois, saber de uma forma espiritual o que queria da vida, como definiria a minha missão nesta existência (e essa questão me tomou dias…). Parti então para enumerar não os meus defeitos, mas sim no que gostaria de melhorar. Passada essa primeira etapa, entrei no segundo ‘round’, tão difícil quanto o primeiro.

O desafio agora era enumerar, de uma a cinco, metas a serem atingidas em cada âmbito da minha vida (pessoal, lazer, saúde, profissional, espiritual, intelectual, social e financeiro) em prazos pré-determinados de 1, 5 e 10 anos. Tipo: construindo os meus horizontes.

Rapaz! Não fui econômica. Listei sonhos, viagens, bens materiais, bens espirituais. Fui mais, e pedi um amor e até mesmo coloquei uma meta para melhorar as minhas relações familiares.

Veja o que é energia potencial: daquilo que listei como objetivos a serem alcançados em um ano, alcancei todos antes daquele prazo. Os que listei para cinco, acredite se quiser, foram cumpridos em 50% muito antes do prazo, e para os definidos para dez anos… Me assustei e resolvi esperar um pouco, porque deu até medo!

Quando parei para tentar entender o que aconteceu, percebi que realmente e ritualisticamente ‘construí meus horizontes’. É claro que a vida não está totalmente sob nosso controle e muitas coisas podem acontecer eventos no caminho entre o que você quer e o que você pode. Porém, é imprescindível enxergar na frente para se poder caminhar até lá.

Essa é a força da palavra escrita e do ritual de se sentar, pegar uma caneta ou lápis e descrever, em um papel em branco (representando metaforicamente o nosso futuro) o que queremos. Pincelada por pincelada, ilustramos e assumimos a responsabilidade por nossos desejos e sonhos, e assim, conseguimos ver de forma clara um caminho a ser trilhado.

Estou feliz com a paisagem que criei e com o que consegui concretizar. Outras metas substituem àquelas e novos desafios se apresentam na minha vida. Se você deseja e quer chegar a algum lugar, aconselho que pare e trace um plano de metas e seja o autor do seu próprio destino.

Aqui é o ‘Nosso Lar’

23/05/2017

reencarnação

Assisti há alguns anos o filme ‘Nosso Lar’, baseado no livro espírita de Chico Xavier, que conta a história do espírito André Luiz. Saí meio escondida, antes das luzes se acenderem, um pouco envergonhada da minha cara inchada de tanto chorar. Pensei que fosse me afogar, tantas lágrimas pululavam dos meu olhos sem controle algum. Sentimentos profundos e intensos me perpassaram durante os 80 minutos da película.

Não especificamente por conta da doutrina de Allan Kardec, que respeito, mas o filme nos lembra o tempo todo do que é importante na vida: vínculos afetivos, nossas mortes psíquicas (muitas vezes um rompimento amoroso ou profissional, ficar gravemente doente, ter um filho, sofrer uma violência) e nossas idas ao umbral (encontro com nosso lado sombrio), nossos mestres espirituais, que pra mim são essas pessoas especiais que passam pela nossa história e fazem toda a diferença, a dor de perder uma pessoa amada, a dificuldade em reconhecer os nossos lados menos heroicos e bonitos e de nos desligarmos das coisas do mundo egóico.

Ele nos fala das verdades simples da vida, que nos esquecemos enquanto nos preocupamos com as contas vencidas, com a promoção na carreira, com coisas que nos ajudam a sobreviver neste mundo, mas que são tão menos importantes…

Chorei principalmente porque o tempo todo somos convidados a nos lembrar que, no final de tudo, quando a ‘morte’, seja ela física ou psíquica, bate à nossa porta, tudo o que importa mesmo são as relações que vivemos, os vínculos afetivos, aquele abraço, aquele beijo, aquele sentimento compartilhado com o outro, o minuto, o segundo, a hora vivida intensamente e sem reservas, sem travas, sem vergonha. Nessa hora, somos todos absolutamente iguais, pecadores, cheios de paixões, desejos, egoísmos, erros, mas também de acertos, amores, generosidades, compaixão…

Chorei pelos momentos de renascimento pelos quais tantas vezes passamos, na maioria deles sem nos darmos conta. Momentos de transcendência, de verdadeiros milagres…

Chorei me lembrando da minha avó que era espírita e fazia as “mesas brancas” em sua casa. Recebia as pessoas, que se sentavam em volta de uma jarra d’água (que seria purificada pelos fluídos dos espíritos de luz), e eles liam e debatiam o Evangelho Espírita. Era, e é, um ritual muito singelo e bonito. Chorei me lembrando dela constantemente empunhando suas mãos sobre nós para oferecer energia amorosa. Éramos crianças e não percebíamos o tamanho e intensidade daquele amor tão incondicional e espiritual…

Mesmo sem acreditar que existe o ‘Nosso Lar’ como o descrito no filme, mas acreditando que ele é o nosso próprio Self, sai da sessão transbordando de gratidão, fé e amor. Queria me prostrar completamente no chão e agradecer a tudo e a todos: meus antepassados, meus parentes e familiares, meus amigos, ‘inimigos’ (ponho entre aspas porque considero o termo muito relativo neste caso), pessoas conhecidas, desconhecidas, animais, plantas, planetas, estrelas, universo… queria beijar o chão e conversar com uma formiga, contar a ela sobre tantas emoções maravilhosas que já tive a benção de sentir… explicar como me sinto tão feliz mesmo quando as coisas parecem absolutamente fora do lugar.

Não indico ‘Nosso Lar’ a ninguém que queria assistir a um ‘bom filme’ do ponto de vista cinematográfico. Não há grandes atuações dos atores envolvidos na película e os efeitos especiais, tão comentados na mídia na época, não surpreendem em nada. Não há grandes revelações e nem tão pouco explicações convincentes. Não se defende nada na história, nem se percebe a pretensão de se convencer alguém sobre a veracidade da doutrina.

Indico esse filme apenas àqueles que podem entrar assistir ao filme sem nada esperar, abertos, prontos para apenas sentir o que a história possa mobilizar por semelhança e por comunhão com o humano.

Como eles dizem constantemente no filme: “Vá em paz irmão…”

Jonas e a Baleia: mito da imortalidade

15/05/2017

jonas e a baleia

A vida costuma nos mandar avisos: às vezes um leve roçar na pele, outras vezes um tapa mais consistente e de outras ainda, nos derruba no chão com um soco ou nos dá uma rasteira. Tenho muito medo de não estar atenta a esses avisos, porque, geralmente, eles vão ficando mais fortes à medida em que não nos conscientizamos daquilo que precisa ser transformado e revisto. Tenho acompanhado pessoas passando por situações traumáticas e limite, muitas delas próximas da morte física, sem que qualquer consideração ou conscientização seja feita. Não há perguntas e, portanto, não há respostas. Se volta àquela vidinha que se levava antes, sem qualquer modificação.

É aterrador pensar nisso…

Há alguns anos sofri “desproporcionalmente” por conta de um financiamento imobiliário que me obrigou a ir morar, temporariamente (três meses), em uma quitinete horrível, na Rua Dr. Quirino, aqui em Campinas. Minhas coisas todas amontoadas naquele espaço sem luz, sem ventilação e úmido. O banheiro tinha vazamento, o chuveiro não esquentava e o apartamento, literalmente, fedia. Entrei em crise e depressão. Chorava à toa e me deixei mergulhar em um mar de desesperança e pessimismo. Meu mundinho concreto e real estava ameaçado e não tinha escoras espirituais para me segurar (fé).

Quando digo ‘desproporcional’, me refiro ao fato de que o processo de financiamento, embora lento, por conta do aparecimento de um homônimo na transação, estava devidamente encaminhado e com toda a perspectiva das coisas terminarem bem. Não teria problemas com multas e nem com despesas extras. Estava tudo devidamente equacionado. Minhas contas estavam pagas, estava empregada, trabalhando e com boa saúde. Em suma: havia problemas, mas sem uma gravidade que provocasse os sentimentos e as reações emocionais e físicas como aquelas. As horas, dias e semanas passavam mais lentamente do que eu gostaria…

Então, um dia, na análise (psicoterapia), ‘chorando’ os meus dramas diários, minha analista virou e me saiu com essa: “Carol, eu espero que a vida não tenha que lhe mandar uma situação mais grave para que você possa perceber que as coisas que estão acontecendo são apenas obstáculos comuns e normais da vida. Coisas que são gerenciáveis e administráveis. De verdade, nada de grave está acontecendo…”.

Me calei. Refleti e percebi o quanto suas palavras tinham sabedoria. Foi como se um ‘tijolo’ tivesse caído na minha cabeça. Me senti como uma pessoa em crise histérica que leva um tapa na cara.

Retomei o controle da situação e exercitei a paciência, a aceitação e a passividade – não do ponto de vista negativo, de quem não toma providências, mas de quem as tomou e agora aguarda a contrapartida. Encontrei uma nesga de fé, me agarrei à ela e passei a acreditar que o universo me responderia. E ele respondeu prontamente.

As coisas ocorreram como o previsto e na data calculada me mudei para o novo apartamento.

Sabe, com a maturidade e a tomada de consciência percebo que tudo tem um porquê e uma mensagem encerrada. Costumo dizer que hoje até a extração de um dente pode trazer oportunidade de reflexões e possibilidades de transcendência. Mas não para todo mundo. Acredito que a vida nos envie conflitos sobre temas que precisam de revisão e crescimento. Alguns recebem um aviso, depois um grito e, se continuam sem reagir, levam um coice da vida. Ai, que medo!

Vejo situações e experiências tão incríveis que me pergunto se é possível alguém passar por elas sem ser transformado. Lembro do mito de Jonas e a baleia.

Jean Yves Leloup, em seu livro ‘Caminhos da Realização’, analisa como a história contada no Antigo Testamento da Bíblia pode nos ensinar sobre os medos e resistências, com os quais nos deparamos na busca de nosso sonho.

No mito, Deus dá uma ordem a Jonas, mas ele o desobedece e toma um barco para o lado oposto ao que deveria ir. Sobrevém uma forte tempestade. O capitão decide então procurar Jonas, que havia descido para o porão, e é encontrado deitado, dormindo um sono profundo. Jonas confessa ter desobedecido a Deus e pede que lhe joguem ao mar. A tempestade então cessa. Ao ser lançado nas águas, é engolido por uma baleia, dentro da qual passa três dias, até se arrepender e pedir a Deus que lhe desse uma segunda chance. Assim, ele é expelido da baleia e finalmente segue para o seu destino.

“Portanto Jonas, num primeiro momento, é o arquétipo do homem deitado, adormecido, do homem que não quer se levantar e não quer cumprir missão alguma. É o arquétipo do homem que foge, que foge da sua identidade, que foge da sua palavra interior, que foge dessa presença do Self no interior do Eu. Essa fuga de sua voz interior vai provocar um certo número de problemas no exterior dele mesmo”. Continua Leloup: “Há momentos que não podemos mais nos mentir, nos contarmos estórias. Nós somos obrigados a ser autênticos, não podemos mais fugir. O arquétipo de Jonas é também um convite para que mergulhemos na profundeza de nosso inconsciente, para passarmos através destas sombras, para mergulharmos na nossa própria experiência da morte, aceitarmos que nosso ser é mortal, para descobrirmos, em nós, o que não morre”.

Uma ligação universal!

13/05/2017

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Quando tinha uns dois anos, numa madrugada fria, meu filho, Davi, me chamou: “Mamaê!”. Fui até o quarto e ele estava em pé no berço: “Cóio!”. Peguei ele pelos braços e forcei delicadamente que se deitasse de novo. “Filho, você dorme no bercinho e mamãe na cama. Durma meu filho”. Ele levantou de novo e disse: “Mamaê, cóio!”. Foi aí que o peguei no colo e percebi que estava encharcado de xixi, tadinho… com as pernas geladas. Levei ele para a minha cama, troquei a fralda, a roupa e dei mamadeira. Logo ele estava dormindo novamente. Poderia tê-lo levado de volta ao berço, mas não quis. Eram 4h30 e logo estaríamos acordados. Deitei na escuridão total e percebi sua mãozinha procurando a minha…

Fui remetida imediatamente à minha infância. Quando menina me sentia muito insegura afetivamente e tinha períodos longos de terror noturno. Ficava horas com insônia, com medo de dormir e ao mesmo tempo com medo de ficar acordada e ouvir alguma coisa inexplicável. Saía de fininho do meu quarto e entrava pé ante pé no quarto dos meus pais, carregando apenas um travesseiro. Deitava embaixo da cama deles. Ficava ali, quietinha, ouvindo-os roncarem. O som, que poderia incomodar a princípio, me deixava calma e com senso de realidade naquela escuridão. Aí, eu dormia.

Logo cedo, antes que eles se levantassem, deixava, de mansinho, o local e voltava para o meu quarto.

Outro lugar disputado por mim e pelas minhas irmãs para uma soneca era o bumbum da minha mãe. A coitada acordava cedo e não parava um minuto na cozinha, arrumando as coisas e fazendo as tarefas domésticas, enquanto nós brincávamos e também brigávamos, desfazendo toda a arrumação. Depois da cozinha do almoço arrumada, ela avisava: “Agora eu vou assistir televisão e dar um cochilo. Não quero um pio…”, ameaçava. Pegando um chinelinho na mão, tipo “pronta para dar umas palmadas”, deita-se no sofá, que era comprido.

Ah! A primeira que chegava encostava a cabeça no bumbum da mamãe, e as outras, encostavam as cabecinhas no bumbum umas das outras. Ficávamos todas encaixadas, ressonando por pelo menos uns 40 minutos, quando então minha mãe levantava e retomava a batalha do dia a dia. Essa é uma das melhores lembranças que tenho da minha infância.

Todas queriam ter o privilégio de dormir encostadinho na mamãe. Era uma sensação de segurança e aconchego plena naquele bumbum macio, quentinho e com cheiro de coisa conhecida, parecendo uma extensão do corpo da gente.

Nós disputávamos a tapa o lugar. Acho que é aquele tal ‘desejo existencial’ relatado pelos especialistas da volta ao útero materno. A vontade de se unir ao corpo da mãe novamente e sentir a sensação de plenitude e bem-estar da gravidez.

Quando vi a mãozinha de Davi me procurando no escuro naquela noite, mesmo ele estando sonolento, me lembrei com clareza e nitidez dessa experiência com minha mãe. Percebi claramente que meu filho relaxou quando me “achou” e se entregou ao sono, em segurança.

Geralmente, meu filho dorme em seu quarto. Mas gosto de pensar que essas exceções, que nos aproximam afetivamente e instintivamente, vão perdurar como delicadas lembranças de bem-estar, aconchego, amor. Como momentos especiais, em que a ligação universal é reatada, refeita, mesmo que ele não tenha saído, de fato, do meu útero…

Chronos, o ‘devorador’!

01/05/2017

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Deus da mitologia grega, Chronos, que personifica o ‘Senhor do Tempo’, é comumente conhecido como aquele que tudo devora, ainda que também ‘gere’ tempo. Ele é ‘O Devorador’. Não sem motivos. Ele representa o nosso tempo terreno, aferido pelos segundos, minutos, horas, dias, meses, anos, décadas, e assim por diante. É implacável, um ancião que não admite negociação e nem postergação. Do seu nome se originou a palavra cronômetro.

É com ele que nos digladiamos no esforço de cumprir todas as tarefas planejadas a cada dia e de entregar tudo o que foi proposto e prometido por nós, e que, automaticamente, também nos será cobrado.

Na outra ponta, temos outra divindade grega relacionada com o tempo: Kairós (em grego: καιρός, ‘o momento oportuno’, ‘certo’ ou ‘supremo’), que, ao contrário de Chronos, faz sua própria contagem e passagem de tempo. Ele é ilustrado como um jovem nu, alado, que somente pode ser pego, agarrado, em sua passagem por nós no ‘agora’, no presente, já. Depois, impossível alcançá-lo.

Kairós tem em uma das mãos uma balança, simbolizando o equilíbrio e a justiça. Embora veloz, não ultrapassa a medida. Para muitos, ele também representa o nosso tempo interno, do amadurecimento, das emoções, das fases da vida.

O embate entre esses extremos é diário no dia a dia e impacta sobremaneira o nível de produtividade das pessoas em qualquer âmbito, seja profissional, social ou pessoal.  Por uma série de ideias e crenças limitantes, acabamos muitas vezes nos tornando um procrastinador, adiando todo tipo de ação, atividade e decisão. Não por preguiça ou escolha, mas por desconhecer os prejuízos de deixar pra mais tarde compromissos e postergar ações que podem ser realizadas agora. Outras questões também pesam, o medo, a ansiedade, insegurança, não gostar da tarefa, entre outras.

Protelar, tardar, atrasar, pospor, demorar, espaçar, prolongar, prorrogar, delongar, retardar, protrair, diferir… Ufa! Esses são apenas alguns sinônimos para a procrastinação.

Claro que este também é um comportamento normal e humano, porém, o hábito constante de procrastinar impede o funcionamento equilibrado de rotinas e prolonga problemas e questões que tentamos evitar de resolver e eles acabam voltando à tona, gerando mais mal-estar e rejeição.

É de suma importância tomar consciência do quanto esse modus operandus de ‘deixar as coisas pra depois’ afeta a nossa produtividade e evolução, ‘devora’ nosso tempo, além de atrapalhar todo o esforço de organização para ‘gerar tempo livre’ para fazer outras atividades. É preciso planejar, estabelecer metas e cumpri-las com fidelidade. Existem várias técnicas e exercícios que podem ser aplicados para acabar de vez com a procrastinação.

Se a procrastinação está atrapalhando sua produtividade e tirando o seu sossego, reflita sobre algumas dicas e tente aplicá-las na sua rotina.

O primeiro passo é o admitir esse comportamento e compreender que é imprescindível mudar de atitude, comportamento e sentimentos. Isso vai exigir esforço, determinação e comprometimento.

Liste em um papel tudo aquilo que tem deixado para resolver ou fazer depois. Desde e-mails sem respostas, cursos que gostaria de fazer, mudanças de comportamento como começar uma dieta alimentar mais saudável ou frequentar uma academia, ou ainda aprender/aperfeiçoar o inglês. Não se assuste com a lista, tudo pode ser feito com ponderação e calma, sem ansiedade, no tempo de Kairós.

O segundo passo é priorizar entre essas ações qual a mais emergente. Achou! Ok! Comece por ela. Decida, se organize, coloque uma meta real, que possa cumprir e então, cumpra. Bem assim! Planejar a atividade e colocar uma meta nos incentiva a cumpri-la no prazo. Nessa fase inicial de troca de hábito, um ‘time’ é fundamental.

Não deixe que as redes sociais e notificações do celular atrasem e distraiam o seu ritmo. Acredite, as pessoas viviam sem celulares há trinta anos.

Por outro lado, alguns aplicativos podem ajudar. O Toggl, disponível para Android e IPhone,  realiza o cálculo do tempo de cada tarefa e quanto tempo foi dedicado a cada projeto.

Existem também vários vídeos no YouTube de especialistas nesse assunto que poderão ensinar técnicas e instrumentá-lo para tornar as coisas mais fáceis, ensinando a administrar melhor o tempo e a mudar o sentimento em relação a esse hábito, principalmente nesse início. Vai valer a pena!

Se o planejamento do seu dia não foi o que imaginou, persevere. Coloque na cabeça que amanhã conseguirá cumprir tudo da melhor maneira possível e saia de casa com essa certeza e fé. Foque nos seus objetivos e se mantenha motivado. Todo dia é uma oportunidade de recomeçar! Tudo pode acontecer e nos surpreender na próxima vez, acredite! Seja você o vitorioso no embate entre Chronos e Kairós! A cada questão resolvida, não se esqueça de se parabenizar e reconhecer o seu valor nesta batalha.

A procura de um pescador inuit

24/04/2017

mulher esqueleto

Fiquei em choque quando li, há muitos anos, “A mulher-esqueleto”, uma das 19 lendas e histórias imemoriais do livro ‘Mulheres Que Correm Com Os Lobos’, escrito por Clarissa Pinkola Estés. A beleza e delicadeza daqueles personagens, assim como a ‘verdade’ que eles expressam estão imortalizados dentro de mim. Metaforicamente, a história fala sobre o processo de reconstrução do outro por meio do acolhimento e aceitação.

Resumidamente, uma mulher inuit (nação indígena esquimó que habita as regiões árticas do Canadá, do Alasca e da Groenlândia), depois de fazer algo condenável pelo patriarcado, foi jogada do penhasco pelo próprio pai. Sozinha, no fundo do mar, rolando de um lado para o outro, sendo comida pelos peixes, tornou-se um esqueleto.

Um pescador, desavisado do ocorrido naquele mar amaldiçoado, lançou sua rede nas águas. A rede ficou presa nas costelas da mulher inuit, e, quando o pescador a puxou, ela saiu das águas do mar como se fosse uma aparição irreal. Horrorizado, o pescador saiu correndo e, como a rede trazia o esqueleto, o mesmo parecia correr atrás dele.

Desesperado, entrou em seu iglu de supetão e junto com ele, a mulher-esqueleto. Quando acendeu sua lamparina de óleo, deu de cara com o esqueleto todo desarrumado ao seu lado. Seja por conta da luz tênue da vela, seja porque seu coração aos poucos foi voltando ao normal, o fato é que o homem, solitário, começou sutilmente a ‘arrumar’ os ossos da mulher-esqueleto, soltando-a das linhas da rede. Depois, colocou peles sobre ela para aquecê-la. Com sono, se arrumou para dormir, tendo ao lado a inusitada companheira.

Durante seu sono, o pescador deixou escapar uma lágrima e a mulher-esqueleto, vendo-a, sentiu uma imensa sede. Se aproximou e colocou a boca junto à lágrima. Foi como se tivesse bebido um rio. Aquela única lágrima saciou sua sede de anos.

Então, estendeu a mão e retirou o coração do pescador e começou a batucá-lo, cantando baixinho: ‘carne, carne, carne’. Quanto mais cantava, mais seu esqueleto se revestia de carne, cabelos, olhos saudáveis, mãos, pés, seios, pernas e vagina. Quando se recuperou completamente como ser humano, a mulher ‘cantou’ para despir o pescador e devolver seu coração, se agarrou a ele e dormiram pele com pele, ‘enredados’.

As pessoas se lembram que o casal foi embora, mas sempre foi alimentado pelas criaturas com as quais ela viveu debaixo d’água

Pra mim, a lenda fala sobre o poder de reconstrução do feminino pelo masculino nutridor. Mesmo que ‘ela’ esteja já um ‘esqueleto’ pela rigidez e pancadas do patriarcado, é a humanidade e a fragilidade do masculino que a cura e a reconstituem para vivenciar um nível de amor homem-mulher que frutifica e floresce.

Eu, aqui do meu lado, busco meu pescador inuit. Não sem antes ter passado pelas profundezas do meu próprio mar e pela tragédia gerada pelas leis patriarcais. A dor, realmente, nos enobrece, nos faz melhores, mais evoluídos, mais humildes diante do outro. Nos fragiliza e derruba os ‘muros’, possibilitando que possamos ver a ‘beleza’ onde, até então, só víamos horror.

Vida online pode atrofiar o cérebro!

11/04/2017

cerebro atrofia

Estava eu assistindo a um programa na TV Cultura, sobre essa geração que vive 24 horas online, quando o entrevistado ‘disparou à queima roupa’ a seguinte informação: que esta geração corre o risco de ver seu cérebro atrofiar mais rapidamente do que imagina. A jornalista que o questionava, surpresa (tanto quanto eu) com a declaração, perguntou: “Como assim por exemplo?”. Ele explicou então que, para ficar forte, o cérebro precisa de exercícios mentais diários. Ele precisa sair das ações, processos e pensamentos ‘automáticos’ e realizar coisas que exijam mais atenção e concentração.

E o que isso tem a ver com a geração on-line? Tudo. Já reparou que quando usamos os apps, como o WAZE, dirigimos de forma automática, segundo apenas as instruções? Agora, veja só: antes do GPS, quando tínhamos que achar algum endereço, precisávamos estudar o caminho, fazer links e pontes com ruas conhecidas, planejar e estimar o horário para não haver atraso, parar e perguntar para outras pessoas e, decorar mais ou menos o caminho para poder voltar no percurso mais rápido possível.

Hoje, os apps de GPS nos levam ao endereço pelo caminho mais rápido, ou você ode optar pelo mais seguro, pelo que tem menor chance de congestionamento, além, de oferecer um horário estimado (geralmente correto). Nem precisamos nos preocupar com as placas de velocidade máxima (informadas pelo GPS), e ainda com os radares de velocidade e lombadas avisados com minutos de antecedência. Né? Trabalho para o cérebro: zero.

E isso pode ser estendido a outras questões. Tudo é instantâneo. O entrevistado deu o exemplo da compra de um terno. Antes, era preciso pesquisar, perguntar para outras pessoas sobre a qualidade e o preço, pegar o endereço, localizar corretamente a loja e planejar como chegar lá, seja de transporte público, seja de carro particular. Já na loja física, conversávamos com a balconista ou atendente, víamos outras opções, discutíamos o valor e a maneira de pagar, e, por fim, íamos embora pra casa felizes (ou não) com a aquisição.

Hoje, apenas alguns cliques e todo esse processo a alguns segundos de atenção. Você recebe em casa, paga via internet, e se não gostar ou não servir, a empresa manda buscar no seu endereço e troca. Ou seja, trabalho para o cérebro: uns 5%, quiçá!

E no smartphone então? Com o tempo, o aparelho reúne as palavras mais usadas por você no dia a dia, e, quando você começa a teclar/digitar, a palavra aparece inteira e correta, é só clicar. Assustador! O mesmo acontece nos buscadores como o Google e o Yahoo. Nem a pergunta temos mais que redigir. Basta colocar o assunto e já aparecem dezenas de questões que já foram realizadas com mais frequência no buscador. Medo!

Já não é de hoje que os cientistas constataram que o cérebro se atrofia quando praticamos os mesmos caminhos para resolver e solucionar problemas. O segredo é praticar pelo menos três exercícios mentais diferentes diariamente, que exercitem as áreas menos usadas, criando novas possibilidades. É a chamada plasticidade cerebral, capacidade que o cérebro tem em se remodelar em função das experiências do sujeito, reformulando as suas conexões em consonância com as necessidades e dos fatores do meio ambiente.

E não pense que fazer palavras-cruzadas é suficiente, pois, geralmente, têm suas resoluções repetidas em quase todos os exercícios e, após algum tempo, a resposta chega pela memória, ou seja, de forma ‘automática’. É assustador caminhar sem saber para onde se está indo…

Nascido sob o signo do ‘macho’

10/04/2017

é um menino

Dia desses, em uma conversa informal sobre adolescentes, eis que escuto uma mãe dizer, sem qualquer escrúpulo u consciência: “As mães que segurem suas ‘cabras’ dentro de casa, que o meu ‘bode’ está solto!”. Oi? Como assim? Quer dizer que mais uma vez a culpa mais uma vez é da mulher? Para gente! O machismo é destruidor para ambos os lados: fere a possibilidade de o feminino e o masculino serem saudáveis e nutridores.

Tema bem espinhoso. É difícil escrever sobre algo que entendo tão pouco, o machismo, embora hoje, por ter um filho homem, me seja do maior interessante. O universo masculino me é totalmente incompreensível (e assim deve ser), distante e ameaçador (aí, já acho que poderia ser bem, bem, bem menos…).

Por um lado, escuto mulheres reclamando dos homens: que são infantis, que se comportam como filhos, que são insensíveis para as questões femininas, são pouco cavalheiros, nada heroicos, que colaboram pouco com a rotina doméstica e com a criação dos filhos, e por aí vai… Do outro lado, dos homens, penso eu, não devem também faltar reclamações, porém, tenho pouca intimidade com esse universo e não saberia discriminá-las.

De qualquer maneira, longe de focar a questão do relacionamento amoroso sob o ponto de vista das reclamações, o que me intriga é perceber que esse mesmo homem, do qual ‘ELAS’ falam tão mal, é justamente criado e educado por ‘ELAS’. Ou seja, está clara a necessidade de uma profunda reflexão sobre o papel da mãe na vida do homem, e mais, do ser humano. Não há coerência entre o que se quer, o que se pensa, o que sente e o que se faz.

É claro que sabemos a importância do modelo masculino para os meninos, principalmente a partir dos 5 anos. Porém, a convivência com a mãe, principalmente até esse patamar de idade, é quase que integral e totalmente dependente. Me parece que muito desse tempo com essa mulher, a mãe, determina uma grande parte dessa formação e de como o feminino será encarado no futuro.

Com a menina, a filha, sinto que é igual, mas de forma diferente. Embora, como com o menino, sua experiência com o masculino, o pai, seja extremamente importante na maneira como ela verá e se relacionará com ‘ELE’, avalio que ainda será muito mais determinante a mensagem que a mãe passará sobre a sua visão (nada consciente) e a sua relação na prática com esse masculino (o pai).

Posto isso, entro um pouco mais: o filho nasce carregando a projeção de perfeição gerada pelos pais. Carga pesada, que fica mais pesada ainda quando incorpora a projeção do que seria o masculino perfeito para a mãe, geralmente o que não é encontrado junto ao companheiro ou homens com os quais a mãe se relacionou e se relaciona.

Ouço mães chamando seus filhos de “meu príncipe”, “meu rei”, “meu homenzinho”, “o homenzinho da casa”, “que vai cuidar da mamãe quando crescer”. Expressões que chegam a me arrepiar porque carregam tintas fortes demais.

Para complicar um pouco mais, tudo isso se passa em um mundo paralelo, o da inconsciência, ou seja, não sabemos “conscientemente” qual o nosso real sentido, visão e relação com o sexo oposto, nem quais os desejos “submersos”, cuja energia é similar à de uma bomba nuclear, dirigidos aos nossos filhos (sejam eles homens ou mulheres).

Bom, daí pra frente começa a sair “fumacinha” da minha cabeça porque a questão é complexa. Não tenho a pretensão de achar que não contaminarei o Davi com as minhas projeções e questões com o masculino. Mas, neste espaço, expresso minhas angústias e tento reafirmar e lembrar com a maior frequência possível que tenho importantes lições de casa para fazer, por mim, por meu filho e pelas pessoas que amo e me amam:

1) Aprender a reconhecer as qualidades dos homens e pedir a ajuda ao masculino;

2) Aprender a receber e ser nutrida por essa energia ímpar;

3) Me abrir para o novo e diferente;

4) Aprender a ser passiva e aceitar ser comandada algumas vezes;

5) Reconhecer e mostrar as minhas fragilidades;

6) Compartilhar e dividir;

7) Estabelecer um vínculo amoroso e sexual com o masculino nutridor e vivenciar uma relação madura e calcada na generosidade e tolerância;

“Nada fácil de entender” disse Renato Russo. “Você diz que seu pais não o entendem, mas você não entende seus pais. Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo, são crianças como você. O que você vai ser quando você crescer…”

Quando ‘Eu’ sou o ‘Outro’

06/04/2017

CNV

A empatia pode ser explicada, simplificadamente, como: ‘a capacidade de estar no lugar do outro’. Eu já acho que a coisa é bem mais complexa, assim como o segundo mandamento mais importante do Cristianismo: “Amai ao próximo como a ti mesmo”. Enfim, não é sobre religião que quero falar hoje e sim de uma ‘nova’ técnica de comunicação com o outro: a comunicação não violenta (CNV).

Basicamente, se trata de um processo científico contínuo desenvolvido pelo psicólogo norte-americano Marshall Rosenberg, com uma equipe internacional de colegas, que defende a prática de relações de parceria e cooperação, nas quais a predominância seja a comunicação eficaz e empática, enfatizando importância de aproximação dos valores comuns entre o emissor e o receptor da mensagem.

Um dos fundamentos-chave da CNV é a capacidade de se expressar sem usar julgamentos (“bom” ou “mau”, “certo” ou “errado”). A ênfase é dada na revelação dos sentimentos e necessidades de cada um. Em outras palavras, você pode falar o que quiser com o outro, desde que use o caminho do respeito e da afetividade. Desde que se coloque no lugar do outro e fale da mesma maneira como gostaria que o outro falasse com você sobre aquele mesmo assunto. Tenho a impressão que Jesus já entendia completamente esse conceito quando formulou o seu segundo mandamento…

Canso de ver pessoas baterem no peito com orgulho ao declararem que “falo mesmo o que penso para qualquer um”. É, deve ser bem mais fácil ‘vomitar’ tudo o que se pensa como se fosse a única verdade absoluta. ‘Tratorar’ o outro não exige ‘lapidação humana’, o sistema é bruto, e pronto.

Minha experiência me provou que, muitas vezes, ficar em silêncio ante uma afirmação é um ato de amor. Mesmo que a gente saiba e veja o outro dando com a ‘cabeça na parede’ e sangrando, é preciso amor, solidariedade e, principalmente, sensibilidade para perceber se o outro pode ouvir o que temos a dizer, mesmo que a nossa intenção seja a melhor possível. Às vezes, não é o outro que precisa ouvir naquele momento. Somos nós que não conseguimos ficar com aquilo que nos incomoda no outro. O que o outro nos espelha.

Sabe, às vezes, somente podemos pegar na mão de quem sofre e rezar em silêncio para que ele possa se fortalecer minimamente para que possamos ajudá-lo. Não é o ouvido que escuta. É a alma. E não conseguimos avaliar o quanto ela muitas vezes está fragilizada e ferida.  A que se ter compaixão do outro. Assim como gostaríamos que tivessem conosco.

Redenção à minha adolescente assediada

30/03/2017

assedio

Acreditei que iria morrer sem conseguir ver alguma ‘redenção’ à minha adolescente assediada. Com a divulgação dos mais recentes relatos de casos de assédio sexual, que estão sendo discutidos na imprensa, de forma geral, universidades, escolas e pela sociedade como um todo, retornei aos anos da adolescência e isso mexeu muito comigo. Sem querer me vi me lembrando de todas as situações de alto risco pelas quais passei naquela época sozinha. Assédios sexuais, transas sem verdadeiramente querer, mas sem alternativa ou escape, e até um assédio na empresa em que trabalhei por 17 anos. Quando tentei denunciar a violência, chorando, anda tive que ouvir a chefia rir e dizer eu estava ‘exagerando’, que “eu estava abafando”…

Depois de quase um ano mandaram o ‘tal’ embora. Isso porque uma outra jornalista, com menos sentimento de culpa talvez do que eu, ameaçou ir à delegacia e registrar um B.O. Só assim eles demitiram o cara.

Penso que é incrível como nós, mulheres, sobrevivemos à nossa adolescência tão sozinhas, cada uma nas suas ‘agruras’, sem poder contar com ninguém. Minha alma ‘sangra’ quando me lembro de tudo o que já passei e nunca pude contar, com medo de alguém virar, e, em vez de me apoiar, dar a resposta mais simples e usada como justificativa para a chamada ‘Cultura do Estupro’: “A culpa foi sua, porque estava no lugar errado, vestindo a roupa errada, tomando as decisões erradas, com as pessoas erradas”. Ou seja: quem mandou, né?

Triste pensar que as pessoas, quando sabem de casos de violência sexual, param para discutir e saber se a vítima ‘gostou’ ou não, sem terem conhecimento de que as pessoas que sofre estupro, sejam elas mulheres ou homens, além de terem que viver com todo o trauma, ainda precisam se  ‘perdoar’ por, muitas vezes, seus corpos terem reagido com supostas ‘manifestações físicas de prazer’, quando na verdade estavam literalmente mortas por dentro.

Inacreditável qualquer um questionar esse tipo de coisa. Desumano. A moral ou o comportamento da vítima não está em julgamento. Houve um crime, ponto. O crime está previsto em lei e ela deve ser cumprida rigorosamente, com a apuração dos envolvidos e sua punição efetivada devidamente. Aff! só desabafando… Fico feliz que o assunto esteja sendo levado à discussão pública, mas ele ainda mexe com as minhas feridas… Talvez por isso muitas mulheres se sintam incapazes de se relacionar com o masculino saudável. Porque se sentem acuadas e ameaçadas. Espero que ainda haja tempo pra mim nesta encarnação…

O medo do dique romper paralisa a vida

28/03/2017

dique

“Tenho medo de ir olhar o que me aconteceu no passado e com isso romper o dique que contém o sofrimento de toda uma vida. Tenho medo de começar a chorar e de nunca mais parar. Acabar literalmente afogada em minha próprias lágrimas e dor.” Foram com essas palavras que minha mãe um dia justificou o fato de nunca ter procurado uma terapia quando volta e meia entrava em mais um processo de depressão.

Quem pode julgá-la? Ninguém. Vítima de vários tipos de abusos na infância e adolescência, minha mãe sofreu a vida inteira de Transtorno Depressivo Maior grave. Criou seis filhos, cinco meninas e um menino, que foi adotado com 2,5 anos, a ‘rapa do tacho’. Uma guerreira que lutou pela própria vida por amor aos seus filhos e marido. Pra mim, uma verdadeira heroína.

Me lembro de em alguns momentos ter sentido também essa espécie de ‘medo de romper o dique da dor’, acreditando que ela iria me devorar. Mas eu fiz terapia, por uma década, e fui percebendo que quando você encara o ‘dragão’, percebe rapidamente que é apenas uma ‘lagartixa’.

Sei agora que o medo, esse sim é o grande vilão. É ele que nos paralisa na ‘fantasia’ de que não poderemos suportar tanto sofrimento. Realmente, não podemos, devemos, se queremos ter uma vida minimamente ética e ‘rica’ de aprendizados, emoções, experiências, com trocas de amor nutritivo.

Somente pode desfrutar do prazer de andar na ‘montanha-russa da vida’, chegando no ponto mais alto enquanto ela sobe e nos deixa ser ar de tanta expectativa e alegria, quem tem o ‘culhão’ de saber que terá que enfrentar também o frio na barriga, e às vezes até a ânsia, durante a descida veloz e implacável. É possível levar uma vidinha ‘controlada’ (dentro das possibilidades, é claro) e estável? Lógico que sim. Porém, eu pergunto: qual é mesmo a graça disso? Alguém logo responderá correndo: “Ah! A graça é que nunca mais sentiremos medo!”. É mesmo?

Quem tem um potencial de vida plena e erótico (termo aqui usado no sentido de prazer e energia criativa inesgotáveis para tudo) e ‘escolhe’ construir um dique, com medo de ficar submerso na transcendente vitalidade – que pode sim nos levar a um outro patamar de autoconhecimento e evolução -, acaba cavando uma depressão maior. E se convence que ela é muito mais segura do que a ‘dor’ de enfrentarmos os nossos próprios dragões.

Só posso dizer: são escolhas. Tive momentos em que escolhi a depressão maior. Mas fico feliz perceber em constatar que, no frigir dos ovos, escolhi, mesmo que inconscientemente, andar na montanha-russa.

 

 

Quando as perdas se tornam insuportáveis

25/03/2017

vendedor de sonhos

Um dia desses, me lembrei de padre católico Marcelo, quando, pele e osso, deu uma entrevista da televisão, na qual ‘confessava’ que achava que depressão era coisa de gente sem fé, ‘frescura’, e defendia que quem sentia compaixão e ajudava ao outro não tinha tempo para ficar deprimido. Bem, isso até ele mesmo ser acometido pela doença…

Eu também já subestimei o ‘mal do século’. Acreditava que o agravamento da depressão era o resultado da falta de força de vontade do paciente em buscar ajuda. Diferentemente do que muitos pensam, a doença atinge várias áreas químicas do cérebro, como os neurotransmissores. Dois elementos identificam esse mal: uma tristeza patológica, que não tem fim, e a absoluta incapacidade de sentir prazer.

Como aprendi sobre isso? Da pior maneira: sentindo na pele – da mesma forma que o padre Marcelo.  Graças a Deus não durou mais do que três meses com a ajuda de medicamentos, exercícios físicos e, principalmente, o acolhimento da família e dos amigos. Mas o que quero mesmo apontar é que a dor existencial é tamanha quando somos acometidos pela doença, em sua face mais grave, que os atos de respirar e abrir os olhos pela manhã se tornam absolutamente insuportáveis.

O tema é extenso, e só mesmo quem esteve nesse limiar sabe exatamente sobre o que estou falando.  Hoje, na biblioteca do Sesc-Campinas, resolvi pegar um livro de Augusto Cury, com o título “Nunca desista dos seus sonhos”, que teve também um filme em cartaz recentemente no cinema nacional: “O vendedor de sonhos”. Deparei-me com palavras que me tocaram por descrever o resultado de quem ‘se perde’ e ‘perde seus sonhos’:

“Sem sonhos, as perdas se tornam insuportáveis. As pedras do caminho se tornam montanhas. Os fracassos se transformam em golpes fatais. Mas, se você tiver grandes sonhos… seus desafios produzirão oportunidades e seus medos, coragem. Nunca desista de seus sonhos”.

O mar, a onda e a marola…

25/03/2017

mar profundo

 

Eu sou o mar,

Mas me comporto com uma onda

quando não me coloco no lugar do outro,

quando finjo não enxergar a mim mesma sendo refletida em alguém

que espelha, sem saber, dores imemoriais, próprias da humanidade..

Eu sou o mar, mas me comporto como uma onda

quando me precipito sobre os meus sentimentos,

quando ignoro o grito do meu Self, da minha alma

que pede acolhimento, compreensão e amor.

Eu sou o mar, mas me comporto como uma marola

quando me calo frente às injustiças

quando escolho me omitir para evitar conflitos

quando me esborracho na terra firme, por não ter a humildade de reconhecer que preciso de ajuda

Eu sou o mar, mas me comporto como uma marola

quando uso situações e pessoas como desculpas para não fazer o que preciso

quando reluto em aceitar os meus limites,

Quando super avalio até onde posso ir,

Quando me deixo adoecer por querer ser autossuficiente

Eu sou o mar, mas me comporto como uma marola

quando permito que o outro me desqualifique,

quando não busco os desafios, com medo de não ser suficiente

quando deixo que a ‘perfeição’ me escravize sem ter, em nenhum momento,

a possibilidade de entrar no oásis da compaixão

Eu sou o mar, mas me comporto como uma onda

quando esqueço que sou una e integrada ao universo,

quando busco a divindade e o sagrado fora de mim,

quando deixo de agradecer por estar viva todos os dias.

Mas eu sou o mar.

Profundo, misterioso, inesgotável.

Basta apenas que eu tenha coragem para mergulhar nas minhas águas

e de lá trazer todas as riquezas e diversidades que me tornam uma pessoa única em bilhões

Não quero ser onda e nem marola toda uma vida…

Busco assumir a minha extensão, mesmo entendendo que,

assim como não sei quase nada sobre o mar,

também não sei o suficiente sobre todo o meu potencial.

E me surpreendo comigo mesma a cada subida para puxar o ar,

para então novamente buscar as minhas profundezas.

Sou o mar quando me deixo levar pelas águas,ora tranquilas, ora violentas, entendendo que tudo faz parte desta trajetória divina e sagrada chamada VIDA.

Poema de Viviane Mosé

03/05/2017

No divã com Carol

Amo muito essa poesia… É uma obra de arte… certas poesias que leio calam tão dentro de mim, que perguntar carece, como não fui eu quem fiz…

TEMPO

quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele
soprando sulcos na pele
soprando sulcos?
o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina
sem raiva e nem rancor
o tempo riscou o meu rosto
com calma
(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)
acho que a vida anda passando a mão em mim
a vida anda passando a mão em mim
acho que a vida anda passando
a vida anda passando
acho que a vida anda
a vida anda em mim
acho que há vida em mim
a vida em mim anda passando
acho que a vida anda passando a mão em mim
e por falar em sexo, quem anda me…

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