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Precisamos falar sobre TOD

31/07/2017

DOT

A matéria de capa da ‘Revista Veja’, Edição 2540, de 26 de julho deste ano, ‘O novo mundo do autismo’, de acordo com informações que li, bateu recorde de audiência. A reportagem aborda os avanços científicos que cada vez mais facilitam e agilizam o diagnóstico do transtorno, cuja incidência é altíssima, acometendo uma a cada 68 crianças. O alto interesse é mais do que justificado, ainda mais quando levamos em consideração que estão abordando o futuro de ‘nossas crianças’.

Sim, eu disse ‘nossas crianças’. Sou de um tempo em que as crianças e adolescentes viviam nas ruas e brincavam nas casas dos vizinhos o dia inteiro. Em um tempo que todos, eu disse todos, os adultos agiam como educadores, na melhor acepção da palavra, cuidando dos filhos dos outros da mesma forma que cuidavam dos seus próprios rebentos. Além de almoçarmos, lancharmos e jantarmos na casa dos amiguinhos, às vezes até tomando banho lá, também levávamos broncas e até castigos quando pisávamos na bola. Tempos em que a comunidade se responsabilizava também pela formação de outros seres humanos em formação.

Bem, mas a questão aqui ultrapassa um pouco essa tônica saudosista. Acho fantástico que esse tipo de assunto seja mais do que discutido, seja incorporado e ressignificado, pois nossos filhos também representam nosso legado para a humanidade. Porém, trago uma questão que me aflige: quando as crianças com TOD serão destaque em revistas e programas televisivos com grande alcance? Quando finalmente a sociedade acolherá os seus filhos mais rebeldes e difíceis? Aqueles que demonstram um comportamento totalmente fora do que se classifica como ‘normalidade’ e ‘socialmente aceito’?

Quando li o livro e depois assisti ao filme ‘Precisamos falar sobre Kevin’- que conta a possível história familiar de um garoto norte-americano, de 16 anos, autor de uma chacina que liquidou sete colegas, uma professora e um servente no ginásio de um bom colégio do subúrbio de Nova York -, fiquei dias sob o impacto do trailer psicológico. Não por menos. Tenho um filho diagnosticado com o Transtorno Opositivo-Desafiador, mais conhecido pelas mães e psiquiatras pela sigla TOD.

Para resumir brevemente do que se trata, esse quadro leva a criança ou adolescente a severas dificuldades de tempo e de avaliação para analisar regras e opiniões alheias, uma forte intolerância às frustrações, com reações agressivas, impulsivas e intempestivas, sem qualquer controle emocional. Essas crianças são discriminadas na comunidade, têm dificuldades de convivência familiar e social, criando obstáculos para a formação de vínculos afetivos. Sofrem bullying na escola, são retiradas de eventos sociais e de programações e festas escolares por conta de seu comportamento difícil, cujo limite entre o que é patológico e o que é manipulação, birra ou vontade, está sempre em movimento, deixando aos país e responsáveis a difícil tarefa de decidir, de maneira totalmente empírica, a melhor maneira de ‘manejar’ a situação.

Entre os irmãos, são preteridos, mal falados e considerados verdadeiras ‘ovelhas negras’ da família, diferentes e ‘fora do potinho’. Muitos pais evitam sair ou passear com essas crianças e adolescentes, e raramente conseguem deixá-las com alguém, seja babá ou mesmos parentes. Muitas mães inclusive não conseguem trabalhar, uma vez que cumprem uma longa rotina com psicólogos, psiquiatras, pediatras, fonoaudiólogos, atividades físicas como esportes, atividades artísticas e culturais, além da diária correria até o colégio onde estudam, seja particular ou público, para ‘apagar’ os incêndios que acontecem diariamente, com episódios de agressão física e verbal e descontroles emocionais que beiram a histeria. A maioria faz tratamento para patologias como depressão, síndrome do pânico, fobias, TOC, entre outros…

Esse transtorno é praticamente desconhecido pela sociedade, principalmente no que se refere à população mais carente de informações. Muitos acreditam que se trata apenas de uma questão de autoridade e disciplina, mas estão enganados. A questão é bem mais complexa  e a ciência do comportamento ainda está ‘engatinhando’ tanto no diagnóstico preciso desse transtorno, quanto em um tratamento  realmente eficaz e remissivo. Precisamos urgentemente falar, debater, discutir, estudar e aprender como conviveremos com os TODs. Eles estão por aí, em toda parte…

 

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