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Nascido sob o signo do ‘macho’

10/04/2017

é um menino

Dia desses, em uma conversa informal sobre adolescentes, eis que escuto uma mãe dizer, sem qualquer escrúpulo u consciência: “As mães que segurem suas ‘cabras’ dentro de casa, que o meu ‘bode’ está solto!”. Oi? Como assim? Quer dizer que mais uma vez a culpa mais uma vez é da mulher? Para gente! O machismo é destruidor para ambos os lados: fere a possibilidade de o feminino e o masculino serem saudáveis e nutridores.

Tema bem espinhoso. É difícil escrever sobre algo que entendo tão pouco, o machismo, embora hoje, por ter um filho homem, me seja do maior interessante. O universo masculino me é totalmente incompreensível (e assim deve ser), distante e ameaçador (aí, já acho que poderia ser bem, bem, bem menos…).

Por um lado, escuto mulheres reclamando dos homens: que são infantis, que se comportam como filhos, que são insensíveis para as questões femininas, são pouco cavalheiros, nada heroicos, que colaboram pouco com a rotina doméstica e com a criação dos filhos, e por aí vai… Do outro lado, dos homens, penso eu, não devem também faltar reclamações, porém, tenho pouca intimidade com esse universo e não saberia discriminá-las.

De qualquer maneira, longe de focar a questão do relacionamento amoroso sob o ponto de vista das reclamações, o que me intriga é perceber que esse mesmo homem, do qual ‘ELAS’ falam tão mal, é justamente criado e educado por ‘ELAS’. Ou seja, está clara a necessidade de uma profunda reflexão sobre o papel da mãe na vida do homem, e mais, do ser humano. Não há coerência entre o que se quer, o que se pensa, o que sente e o que se faz.

É claro que sabemos a importância do modelo masculino para os meninos, principalmente a partir dos 5 anos. Porém, a convivência com a mãe, principalmente até esse patamar de idade, é quase que integral e totalmente dependente. Me parece que muito desse tempo com essa mulher, a mãe, determina uma grande parte dessa formação e de como o feminino será encarado no futuro.

Com a menina, a filha, sinto que é igual, mas de forma diferente. Embora, como com o menino, sua experiência com o masculino, o pai, seja extremamente importante na maneira como ela verá e se relacionará com ‘ELE’, avalio que ainda será muito mais determinante a mensagem que a mãe passará sobre a sua visão (nada consciente) e a sua relação na prática com esse masculino (o pai).

Posto isso, entro um pouco mais: o filho nasce carregando a projeção de perfeição gerada pelos pais. Carga pesada, que fica mais pesada ainda quando incorpora a projeção do que seria o masculino perfeito para a mãe, geralmente o que não é encontrado junto ao companheiro ou homens com os quais a mãe se relacionou e se relaciona.

Ouço mães chamando seus filhos de “meu príncipe”, “meu rei”, “meu homenzinho”, “o homenzinho da casa”, “que vai cuidar da mamãe quando crescer”. Expressões que chegam a me arrepiar porque carregam tintas fortes demais.

Para complicar um pouco mais, tudo isso se passa em um mundo paralelo, o da inconsciência, ou seja, não sabemos “conscientemente” qual o nosso real sentido, visão e relação com o sexo oposto, nem quais os desejos “submersos”, cuja energia é similar à de uma bomba nuclear, dirigidos aos nossos filhos (sejam eles homens ou mulheres).

Bom, daí pra frente começa a sair “fumacinha” da minha cabeça porque a questão é complexa. Não tenho a pretensão de achar que não contaminarei o Davi com as minhas projeções e questões com o masculino. Mas, neste espaço, expresso minhas angústias e tento reafirmar e lembrar com a maior frequência possível que tenho importantes lições de casa para fazer, por mim, por meu filho e pelas pessoas que amo e me amam:

1) Aprender a reconhecer as qualidades dos homens e pedir a ajuda ao masculino;

2) Aprender a receber e ser nutrida por essa energia ímpar;

3) Me abrir para o novo e diferente;

4) Aprender a ser passiva e aceitar ser comandada algumas vezes;

5) Reconhecer e mostrar as minhas fragilidades;

6) Compartilhar e dividir;

7) Estabelecer um vínculo amoroso e sexual com o masculino nutridor e vivenciar uma relação madura e calcada na generosidade e tolerância;

“Nada fácil de entender” disse Renato Russo. “Você diz que seu pais não o entendem, mas você não entende seus pais. Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo, são crianças como você. O que você vai ser quando você crescer…”

Redenção à minha adolescente assediada

30/03/2017

assedio

Acreditei que iria morrer sem conseguir ver alguma ‘redenção’ à minha adolescente assediada. Com a divulgação dos mais recentes relatos de casos de assédio sexual, que estão sendo discutidos na imprensa, de forma geral, universidades, escolas e pela sociedade como um todo, retornei aos anos da adolescência e isso mexeu muito comigo. Sem querer me vi me lembrando de todas as situações de alto risco pelas quais passei naquela época sozinha. Assédios sexuais, transas sem verdadeiramente querer, mas sem alternativa ou escape, e até um assédio na empresa em que trabalhei por 17 anos. Quando tentei denunciar a violência, chorando, anda tive que ouvir a chefia rir e dizer eu estava ‘exagerando’, que “eu estava abafando”…

Depois de quase um ano mandaram o ‘tal’ embora. Isso porque uma outra jornalista, com menos sentimento de culpa talvez do que eu, ameaçou ir à delegacia e registrar um B.O. Só assim eles demitiram o cara.

Penso que é incrível como nós, mulheres, sobrevivemos à nossa adolescência tão sozinhas, cada uma nas suas ‘agruras’, sem poder contar com ninguém. Minha alma ‘sangra’ quando me lembro de tudo o que já passei e nunca pude contar, com medo de alguém virar, e, em vez de me apoiar, dar a resposta mais simples e usada como justificativa para a chamada ‘Cultura do Estupro’: “A culpa foi sua, porque estava no lugar errado, vestindo a roupa errada, tomando as decisões erradas, com as pessoas erradas”. Ou seja: quem mandou, né?

Triste pensar que as pessoas, quando sabem de casos de violência sexual, param para discutir e saber se a vítima ‘gostou’ ou não, sem terem conhecimento de que as pessoas que sofre estupro, sejam elas mulheres ou homens, além de terem que viver com todo o trauma, ainda precisam se  ‘perdoar’ por, muitas vezes, seus corpos terem reagido com supostas ‘manifestações físicas de prazer’, quando na verdade estavam literalmente mortas por dentro.

Inacreditável qualquer um questionar esse tipo de coisa. Desumano. A moral ou o comportamento da vítima não está em julgamento. Houve um crime, ponto. O crime está previsto em lei e ela deve ser cumprida rigorosamente, com a apuração dos envolvidos e sua punição efetivada devidamente. Aff! só desabafando… Fico feliz que o assunto esteja sendo levado à discussão pública, mas ele ainda mexe com as minhas feridas… Talvez por isso muitas mulheres se sintam incapazes de se relacionar com o masculino saudável. Porque se sentem acuadas e ameaçadas. Espero que ainda haja tempo pra mim nesta encarnação…