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A procura de um pescador inuit

24/04/2017

mulher esqueleto

Fiquei em choque quando li, há muitos anos, “A mulher-esqueleto”, uma das 19 lendas e histórias imemoriais do livro ‘Mulheres Que Correm Com Os Lobos’, escrito por Clarissa Pinkola Estés. A beleza e delicadeza daqueles personagens, assim como a ‘verdade’ que eles expressam estão imortalizados dentro de mim. Metaforicamente, a história fala sobre o processo de reconstrução do outro por meio do acolhimento e aceitação.

Resumidamente, uma mulher inuit (nação indígena esquimó que habita as regiões árticas do Canadá, do Alasca e da Groenlândia), depois de fazer algo condenável pelo patriarcado, foi jogada do penhasco pelo próprio pai. Sozinha, no fundo do mar, rolando de um lado para o outro, sendo comida pelos peixes, tornou-se um esqueleto.

Um pescador, desavisado do ocorrido naquele mar amaldiçoado, lançou sua rede nas águas. A rede ficou presa nas costelas da mulher inuit, e, quando o pescador a puxou, ela saiu das águas do mar como se fosse uma aparição irreal. Horrorizado, o pescador saiu correndo e, como a rede trazia o esqueleto, o mesmo parecia correr atrás dele.

Desesperado, entrou em seu iglu de supetão e junto com ele, a mulher-esqueleto. Quando acendeu sua lamparina de óleo, deu de cara com o esqueleto todo desarrumado ao seu lado. Seja por conta da luz tênue da vela, seja porque seu coração aos poucos foi voltando ao normal, o fato é que o homem, solitário, começou sutilmente a ‘arrumar’ os ossos da mulher-esqueleto, soltando-a das linhas da rede. Depois, colocou peles sobre ela para aquecê-la. Com sono, se arrumou para dormir, tendo ao lado a inusitada companheira.

Durante seu sono, o pescador deixou escapar uma lágrima e a mulher-esqueleto, vendo-a, sentiu uma imensa sede. Se aproximou e colocou a boca junto à lágrima. Foi como se tivesse bebido um rio. Aquela única lágrima saciou sua sede de anos.

Então, estendeu a mão e retirou o coração do pescador e começou a batucá-lo, cantando baixinho: ‘carne, carne, carne’. Quanto mais cantava, mais seu esqueleto se revestia de carne, cabelos, olhos saudáveis, mãos, pés, seios, pernas e vagina. Quando se recuperou completamente como ser humano, a mulher ‘cantou’ para despir o pescador e devolver seu coração, se agarrou a ele e dormiram pele com pele, ‘enredados’.

As pessoas se lembram que o casal foi embora, mas sempre foi alimentado pelas criaturas com as quais ela viveu debaixo d’água

Pra mim, a lenda fala sobre o poder de reconstrução do feminino pelo masculino nutridor. Mesmo que ‘ela’ esteja já um ‘esqueleto’ pela rigidez e pancadas do patriarcado, é a humanidade e a fragilidade do masculino que a cura e a reconstituem para vivenciar um nível de amor homem-mulher que frutifica e floresce.

Eu, aqui do meu lado, busco meu pescador inuit. Não sem antes ter passado pelas profundezas do meu próprio mar e pela tragédia gerada pelas leis patriarcais. A dor, realmente, nos enobrece, nos faz melhores, mais evoluídos, mais humildes diante do outro. Nos fragiliza e derruba os ‘muros’, possibilitando que possamos ver a ‘beleza’ onde, até então, só víamos horror.

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