Archive for the ‘Textos’ Category

Transgênero: quem não?

04/09/2017

transgênero

A personagem Ivana, da novela global ‘Força do Querer’, revelou recentemente para sua ‘tradicional’ e ‘bem-estruturada’ família, em um dos capítulos da trama, que não é do gênero feminino, mas sim masculino, ou seja, é um transgênero masculino. Para ela, não há mais dúvidas sobre a sua real identidade/identificação/gênero, a questão agora estava muito além: “Preciso saber se vocês vão me aceitar?”. Cacetada! Minha cabeça fez um looping!

Viajei – confesso – e me questionei sobre quantos de nós também não escondem a ‘verdadeira identidade’ em nome de uma mais ‘aceitável’ socialmente. Quem não é no fundo uma Ivana? É claro que a questão do folhetim é trazer à tona, para debate, os casos transgêneros sob todos os pontos de vista: social, emocional, científico, psicológico, rompendo todas as barreiras do que se conceitua como ‘normalidade’ e ‘padrão’, uma vez que Ivana, que está em processo de se tornar um homem, é apaixonada por um rapaz – isso mesmo, gênero é diferente de orientação sexual – e, para coroar a quebra completa de paradigmas, vai se descobrir grávida de seu ex-namorado nos próximos capítulos.

Cara, partiu para ao anarquismo total! Anarquistas, Graças à Deus! Isto que é um ‘sacode na geral’, com tudo o que se tem direito! O que garante a audiência desse núcleo da novela é, sem dúvida, a questão da aceitação familiar e social, ou seja, aproxima todos nós desse dilema: assumirmos verdadeiramente quem somos e garantirmos que todo o nosso potencial como contribuição para o mundo seja realizado. Sobretudo, pelo fato da autora da novela, Glória Perez, tocar em uma ferida que aproxima a todos nós: a angústia de Ivana é, acima de tudo, uma angústia existencial.

Me encanta esses ares do realmente novo, da transgressão, daquilo que foge das nossas ‘pobres caixinhas’ de conceitos, preconceitos, verdades ‘seguras’, convenções… A questão aqui não é destruir o que se conhece, mas enriquecê-lo, ampliá-lo, aceitar que a liberdade implica em acolher e lidar com o ‘realmente diferente’. A essência do que somos genuinamente vive apertada em nossas molduras sociais, tentando desesperadamente emergir e se realizar. Somos todos Ivanas… A maioria nem sequer tem consciência de suas ‘prisões’, o que dirá ter a coragem e ousadia de lutar para buscar suas realizações, seus propósitos, seus sonhos.

Eu também sou Ivana!

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A paz nasce do confronto

11/08/2017

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Durante todos estes anos acreditei que a sensação de paz fosse a ausência completa de conflitos, problemas, dificuldades. Exatamente por conta dessa ideia equivocada, assim que perdi meu emprego de mais de vinte anos (minha falsa ‘ilha de segurança’), me vi forçada pelas circunstâncias a, finalmente, buscar o que classificava com ‘uma vida mais simples e mais pacífica’. Aliás, frase que repetia no divã para minha amada psicóloga analítica e junguiana, ao que ela rebatia, abaixando os óculos: “Carol, a simplicidade está dentro de nós e não nos lugares ou situações. O que torna sua vida uma ‘guerra’ é o seu nível de exigência interno…”. Mas que, entrava por um ouvido e saia pelo outro (porém, na memória ficou graças a Deus!).

Então, se a vida estava muito complicada e bélica como jornalista, autossuficiente financeiramente e emocionalmente (oi?), minha resposta foi me tornar uma manicure, pagar aluguel de um apartamento bem pequeno e ‘mais simples’, e viver uma ‘vida de paz’ (substitua pela palavra escassez), reduzindo ao máximo as possibilidades de conflitos, problemas, caos, exigências.

De casa para o trabalho, do trabalho para casa, de preferência sem carro, comprando em apenas um supermercado, passeando apenas em um parque público. Resumindo: me tornei uma prisioneira do meu próprio conceito de paz e simplicidade.

Meu universo começou a ficar cada vez mais ‘pobre’, desértico e ‘miserável’. É bem verdade que reduzi as chances de ter que enfrentar algum problema a índices invejáveis, mas, definitivamente, estava gastando mais energia do que antes e me encontrava cada vez mais infeliz e exausta.

E foi tomando uma xícara de café com Hades – deus da mitologia grega que domina o reino dos mortos, um lugar onde só impera a tristeza – que percebi o meu engano. Alguma coisa estava muito errada e Hades, que tem o poder de restituir a vida, mas faz isso raras vezes, resolveu interceder por mim, me aconselhando a voltar para tudo aquilo que me era muito importante e havia deixado para trás buscando a tal ‘paz quimérica’.

Empreendi meu retorno às raízes então. E foi em uma aula de Biodanza, há alguns dias, que me deparei com a verdade, quando a minha mestra e amada facilitadora colocou uma música e disse que a consigna era: ‘dançar a paz’. Cara, que viagem! Literalmente ‘A paz invadiu o meu coração (e meu corpo) /De repente, me encheu de paz/Como se o vento de um tufão/Arrancasse meus pés do chão/Onde eu já não me enterro mais…’

A paz não exclui a guerra, o conflito – armado ou não. Ela está presente, nas batalhas diárias, no caos, na crise, nos confrontos. Ela está hoje permanentemente em mim. A paz se manifesta porque estou 100% conectada com a minha essência, meus valores, minha criança interior.

A paz ‘fez um mar da revolução’, ‘invadiu meu destino’. Não há mais sofrimento em relação ao futuro, lamentos em relação ao passado. Vivo o ‘poder do agora’, do que posso ser, sentir e fazer agora. Só a ‘guerra’ nos proporciona a oportunidade de viver o amor e a paz. Obrigadas mestras.

 

Precisamos falar sobre TOD

31/07/2017

DOT

A matéria de capa da ‘Revista Veja’, Edição 2540, de 26 de julho deste ano, ‘O novo mundo do autismo’, de acordo com informações que li, bateu recorde de audiência. A reportagem aborda os avanços científicos que cada vez mais facilitam e agilizam o diagnóstico do transtorno, cuja incidência é altíssima, acometendo uma a cada 68 crianças. O alto interesse é mais do que justificado, ainda mais quando levamos em consideração que estão abordando o futuro de ‘nossas crianças’.

Sim, eu disse ‘nossas crianças’. Sou de um tempo em que as crianças e adolescentes viviam nas ruas e brincavam nas casas dos vizinhos o dia inteiro. Em um tempo que todos, eu disse todos, os adultos agiam como educadores, na melhor acepção da palavra, cuidando dos filhos dos outros da mesma forma que cuidavam dos seus próprios rebentos. Além de almoçarmos, lancharmos e jantarmos na casa dos amiguinhos, às vezes até tomando banho lá, também levávamos broncas e até castigos quando pisávamos na bola. Tempos em que a comunidade se responsabilizava também pela formação de outros seres humanos em formação.

Bem, mas a questão aqui ultrapassa um pouco essa tônica saudosista. Acho fantástico que esse tipo de assunto seja mais do que discutido, seja incorporado e ressignificado, pois nossos filhos também representam nosso legado para a humanidade. Porém, trago uma questão que me aflige: quando as crianças com TOD serão destaque em revistas e programas televisivos com grande alcance? Quando finalmente a sociedade acolherá os seus filhos mais rebeldes e difíceis? Aqueles que demonstram um comportamento totalmente fora do que se classifica como ‘normalidade’ e ‘socialmente aceito’?

Quando li o livro e depois assisti ao filme ‘Precisamos falar sobre Kevin’- que conta a possível história familiar de um garoto norte-americano, de 16 anos, autor de uma chacina que liquidou sete colegas, uma professora e um servente no ginásio de um bom colégio do subúrbio de Nova York -, fiquei dias sob o impacto do trailer psicológico. Não por menos. Tenho um filho diagnosticado com o Transtorno Opositivo-Desafiador, mais conhecido pelas mães e psiquiatras pela sigla TOD.

Para resumir brevemente do que se trata, esse quadro leva a criança ou adolescente a severas dificuldades de tempo e de avaliação para analisar regras e opiniões alheias, uma forte intolerância às frustrações, com reações agressivas, impulsivas e intempestivas, sem qualquer controle emocional. Essas crianças são discriminadas na comunidade, têm dificuldades de convivência familiar e social, criando obstáculos para a formação de vínculos afetivos. Sofrem bullying na escola, são retiradas de eventos sociais e de programações e festas escolares por conta de seu comportamento difícil, cujo limite entre o que é patológico e o que é manipulação, birra ou vontade, está sempre em movimento, deixando aos país e responsáveis a difícil tarefa de decidir, de maneira totalmente empírica, a melhor maneira de ‘manejar’ a situação.

Entre os irmãos, são preteridos, mal falados e considerados verdadeiras ‘ovelhas negras’ da família, diferentes e ‘fora do potinho’. Muitos pais evitam sair ou passear com essas crianças e adolescentes, e raramente conseguem deixá-las com alguém, seja babá ou mesmos parentes. Muitas mães inclusive não conseguem trabalhar, uma vez que cumprem uma longa rotina com psicólogos, psiquiatras, pediatras, fonoaudiólogos, atividades físicas como esportes, atividades artísticas e culturais, além da diária correria até o colégio onde estudam, seja particular ou público, para ‘apagar’ os incêndios que acontecem diariamente, com episódios de agressão física e verbal e descontroles emocionais que beiram a histeria. A maioria faz tratamento para patologias como depressão, síndrome do pânico, fobias, TOC, entre outros…

Esse transtorno é praticamente desconhecido pela sociedade, principalmente no que se refere à população mais carente de informações. Muitos acreditam que se trata apenas de uma questão de autoridade e disciplina, mas estão enganados. A questão é bem mais complexa  e a ciência do comportamento ainda está ‘engatinhando’ tanto no diagnóstico preciso desse transtorno, quanto em um tratamento  realmente eficaz e remissivo. Precisamos urgentemente falar, debater, discutir, estudar e aprender como conviveremos com os TODs. Eles estão por aí, em toda parte…

 

Essa é a hora de mudar seu mindset!

24/07/2017

perfeição

Agora, à beira dos 50 anos, é que, efetivamente, estou conseguindo mudar meu mindset. E isso tem sido tão maravilhoso, que tenho vontade de me prostrar no chão em posição de reverência e agradecimento ao universo (Divino) o tempo todo por essa verdadeira graça.

Mindset… ou seja, mind = mente e set = configuração, chegando a configuração da mente. Ainda não está ligando o nome à pessoa? Eu explico.

A palavra de origem inglesa pode ter várias traduções. Entre elas: crença, atitude, paradigma, mentalidade, forma de pensar, processo mental, modelo mental, entre outras. A expressão é muito usada nas psicologias cognitiva, positivista e na Programação Neurolinguística (PNL). Ela se refere a um conjunto de pensamentos subconscientes (ou seja, não temos consciência de sua atuação quando são acionados) que governam outros pensamentos no momento em que interpretamos estímulos e situações externas.

Por se manter abaixo da linha de consciência, esse modelo mental impacta sobremaneira a nossa vida e a sua modificação, transformação ou minimização traz profundos efeitos à nossa atual realidade, principalmente no que se refere a reconhecer e trabalhar nosso talentos, potenciais e capacidades.

Mas acredito que para entender claramente do que se trata, nada como uma história pessoal. Fui criada em uma família com seis irmãos, com diferença de um ano e meio no máximo entre cada gestação. A disputada pela mínima atenção dos pais era voraz e cada um se virava, ou tentava se sobressair, da maneira que podia.

Com base nas minhas observações dentro do universo infantil, decidi que o melhor caminho seria ser a filha ‘perfeita’: a mais educada, a mais disciplinada, a mais estudiosa, a mais cordata, a que menos exigia algo para si. Conclusão: toda vez que apresentava um resultado excepcional (na minha visão…), como um boletim repleto de notas dez, meu pai olhava firmemente nos meus olhos e dizia: “O que você espera de mim? Palmas?  Parabéns? Você não fez isso pra mim, você fez para você mesma. Não fez mais do que a sua obrigação!”.

Ok. Raciocínio coerente para um adulto, mas inócuo para uma criança que buscava aprovação e afetividade. Inócuo não, ele se provou ao longos dos anos muito pernicioso. Bem, aqui não cabe críticas, julgamentos e nem censura. Os pais, como costumo dizer, são os mais humanos dos seres humanos. Isso diz tudo…

Enfim, essa frase se tornou uma crença que ecoa dentro de mim em qualquer situação na qual que tenha talentos ou virtudes merecidamente reconhecidos. Nunca – eu disse nunca – consegui entrar na sala de qualquer chefia e reivindicar um aumento, promoção ou vantagem pelo meu trabalho, afinal: ‘não fiz mais do que a minha obrigação!’. Quando alguém me elogia espontaneamente, primeiro olho para os lados para ter certeza de ela está falando de mim, depois escuto ‘a voz’ interna: “Como assim? Essa pessoa não percebe que não faço mais do que a minha obrigação?”. E assim caminhei por toda uma vida.

Mas chegando próximo ao meu cinquentenário (estou com 49), me deparo com uma grande virada de vida, que me levou a me formar como coach e a finalmente a reconhecer e estabelecer um diálogo com essa ‘voz interna’, com essa crença, com esse mindset. Mudar completamente acho difícil, até porque essas crenças também apresentam um lado altamente positivo. Quer ver?

Buscar ser ‘perfeita por obrigação’ me fez mais disciplinada, mais ética, mais determinada, menos palco e mais plateia, mais formiga e menos cigarra, qualidades que me trouxeram onde estou hoje: verdadeiramente feliz e centrada, na minha essência. O segredo? A reformulação das crenças que me limitavam. Uma delas agora ficou assim: “Tenho que ser perfeita, mas sou humana e tenho meus limites”. Outra: “Não fiz mais do que a obrigação, mas reconheço todas as minhas virtudes e talentos para alcançar esse resultado. Finalmente a grilhão se rompeu…

Construindo os seus horizontes

05/06/2017

construindo os horizontes

Eu nunca fui muito de acreditar e reconhecer a força inspiradora e realizadora de ações ritualísticas. E chamo que ações ritualísticas quase tudo o que fazemos na vida, até mesmo escovar os dentes, desde que o ato esteja revestido dessas energias que nos impulsionam para a concretização e algo. Escrever, por exemplo, é extremamente ritualístico.  Todo jornalista ou escritor cumpre um ritual antes, durante e depois de buscar organizar e expressar suas idéias. E acredite, a coisa tem uma força que muitas vezes é subestimada pelo nosso pensamento lógico e cortical.

Todo esse preâmbulo aí em cima é para falar sobre a força de concretização de um planejamento, seja ele, pessoal, familiar, de lazer ou profissional. O simples ato de colocar no papel, em uma ordem coerente com os seus desejos já aciona energias e potenciais que caminham para a sua concretização. Tive provas indiscutíveis desse poder há alguns anos, quando o processo de coaching no Brasil estava ‘nascendo’.

Na época, fazia terapia e minha terapeuta, percebendo a minha insatisfação em algumas áreas da vida (para não dizer todas…), sugeriu que eu tentasse responder a um questionário para identificar os pontos negativos e traçar um plano de metas para um autodesenvolvimento.

Olhei aquele papel com um misto de desprezo, preguiça e descrença, mas queria agradar a minha querida mentora, então, enfiei o documento debaixo do braço e fui-me embora. Só depois de uns cinco dias é que procurei ler com alguma atenção o roteiro à minha frente.

As perguntas, que começavam com uma definição sobre mim mesma (qualidade e defeitos) e da minha missão de vida eram complicadas e deram um ‘nó’ na minha cabeça. O desafio estava lançado e a minha simples determinação em responder de cabo a rabo o questionário despertou um envolvimento e uma consciência, que me surpreenderam e me mostraram a força do ritual. E olhe que demorou meses para concluir o trabalho.

Tudo começou com delineamento das minhas reais capacidades e condições atuais. Depois, saber de uma forma espiritual o que queria da vida, como definiria a minha missão nesta existência (e essa questão me tomou dias…). Parti então para enumerar não os meus defeitos, mas sim no que gostaria de melhorar. Passada essa primeira etapa, entrei no segundo ‘round’, tão difícil quanto o primeiro.

O desafio agora era enumerar, de uma a cinco, metas a serem atingidas em cada âmbito da minha vida (pessoal, lazer, saúde, profissional, espiritual, intelectual, social e financeiro) em prazos pré-determinados de 1, 5 e 10 anos. Tipo: construindo os meus horizontes.

Rapaz! Não fui econômica. Listei sonhos, viagens, bens materiais, bens espirituais. Fui mais, e pedi um amor e até mesmo coloquei uma meta para melhorar as minhas relações familiares.

Veja o que é energia potencial: daquilo que listei como objetivos a serem alcançados em um ano, alcancei todos antes daquele prazo. Os que listei para cinco, acredite se quiser, foram cumpridos em 50% muito antes do prazo, e para os definidos para dez anos… Me assustei e resolvi esperar um pouco, porque deu até medo!

Quando parei para tentar entender o que aconteceu, percebi que realmente e ritualisticamente ‘construí meus horizontes’. É claro que a vida não está totalmente sob nosso controle e muitas coisas podem acontecer eventos no caminho entre o que você quer e o que você pode. Porém, é imprescindível enxergar na frente para se poder caminhar até lá.

Essa é a força da palavra escrita e do ritual de se sentar, pegar uma caneta ou lápis e descrever, em um papel em branco (representando metaforicamente o nosso futuro) o que queremos. Pincelada por pincelada, ilustramos e assumimos a responsabilidade por nossos desejos e sonhos, e assim, conseguimos ver de forma clara um caminho a ser trilhado.

Estou feliz com a paisagem que criei e com o que consegui concretizar. Outras metas substituem àquelas e novos desafios se apresentam na minha vida. Se você deseja e quer chegar a algum lugar, aconselho que pare e trace um plano de metas e seja o autor do seu próprio destino.

Aqui é o ‘Nosso Lar’

23/05/2017

reencarnação

Assisti há alguns anos o filme ‘Nosso Lar’, baseado no livro espírita de Chico Xavier, que conta a história do espírito André Luiz. Saí meio escondida, antes das luzes se acenderem, um pouco envergonhada da minha cara inchada de tanto chorar. Pensei que fosse me afogar, tantas lágrimas pululavam dos meu olhos sem controle algum. Sentimentos profundos e intensos me perpassaram durante os 80 minutos da película.

Não especificamente por conta da doutrina de Allan Kardec, que respeito, mas o filme nos lembra o tempo todo do que é importante na vida: vínculos afetivos, nossas mortes psíquicas (muitas vezes um rompimento amoroso ou profissional, ficar gravemente doente, ter um filho, sofrer uma violência) e nossas idas ao umbral (encontro com nosso lado sombrio), nossos mestres espirituais, que pra mim são essas pessoas especiais que passam pela nossa história e fazem toda a diferença, a dor de perder uma pessoa amada, a dificuldade em reconhecer os nossos lados menos heroicos e bonitos e de nos desligarmos das coisas do mundo egóico.

Ele nos fala das verdades simples da vida, que nos esquecemos enquanto nos preocupamos com as contas vencidas, com a promoção na carreira, com coisas que nos ajudam a sobreviver neste mundo, mas que são tão menos importantes…

Chorei principalmente porque o tempo todo somos convidados a nos lembrar que, no final de tudo, quando a ‘morte’, seja ela física ou psíquica, bate à nossa porta, tudo o que importa mesmo são as relações que vivemos, os vínculos afetivos, aquele abraço, aquele beijo, aquele sentimento compartilhado com o outro, o minuto, o segundo, a hora vivida intensamente e sem reservas, sem travas, sem vergonha. Nessa hora, somos todos absolutamente iguais, pecadores, cheios de paixões, desejos, egoísmos, erros, mas também de acertos, amores, generosidades, compaixão…

Chorei pelos momentos de renascimento pelos quais tantas vezes passamos, na maioria deles sem nos darmos conta. Momentos de transcendência, de verdadeiros milagres…

Chorei me lembrando da minha avó que era espírita e fazia as “mesas brancas” em sua casa. Recebia as pessoas, que se sentavam em volta de uma jarra d’água (que seria purificada pelos fluídos dos espíritos de luz), e eles liam e debatiam o Evangelho Espírita. Era, e é, um ritual muito singelo e bonito. Chorei me lembrando dela constantemente empunhando suas mãos sobre nós para oferecer energia amorosa. Éramos crianças e não percebíamos o tamanho e intensidade daquele amor tão incondicional e espiritual…

Mesmo sem acreditar que existe o ‘Nosso Lar’ como o descrito no filme, mas acreditando que ele é o nosso próprio Self, sai da sessão transbordando de gratidão, fé e amor. Queria me prostrar completamente no chão e agradecer a tudo e a todos: meus antepassados, meus parentes e familiares, meus amigos, ‘inimigos’ (ponho entre aspas porque considero o termo muito relativo neste caso), pessoas conhecidas, desconhecidas, animais, plantas, planetas, estrelas, universo… queria beijar o chão e conversar com uma formiga, contar a ela sobre tantas emoções maravilhosas que já tive a benção de sentir… explicar como me sinto tão feliz mesmo quando as coisas parecem absolutamente fora do lugar.

Não indico ‘Nosso Lar’ a ninguém que queria assistir a um ‘bom filme’ do ponto de vista cinematográfico. Não há grandes atuações dos atores envolvidos na película e os efeitos especiais, tão comentados na mídia na época, não surpreendem em nada. Não há grandes revelações e nem tão pouco explicações convincentes. Não se defende nada na história, nem se percebe a pretensão de se convencer alguém sobre a veracidade da doutrina.

Indico esse filme apenas àqueles que podem entrar assistir ao filme sem nada esperar, abertos, prontos para apenas sentir o que a história possa mobilizar por semelhança e por comunhão com o humano.

Como eles dizem constantemente no filme: “Vá em paz irmão…”

Jonas e a Baleia: mito da imortalidade

15/05/2017

jonas e a baleia

A vida costuma nos mandar avisos: às vezes um leve roçar na pele, outras vezes um tapa mais consistente e de outras ainda, nos derruba no chão com um soco ou nos dá uma rasteira. Tenho muito medo de não estar atenta a esses avisos, porque, geralmente, eles vão ficando mais fortes à medida em que não nos conscientizamos daquilo que precisa ser transformado e revisto. Tenho acompanhado pessoas passando por situações traumáticas e limite, muitas delas próximas da morte física, sem que qualquer consideração ou conscientização seja feita. Não há perguntas e, portanto, não há respostas. Se volta àquela vidinha que se levava antes, sem qualquer modificação.

É aterrador pensar nisso…

Há alguns anos sofri “desproporcionalmente” por conta de um financiamento imobiliário que me obrigou a ir morar, temporariamente (três meses), em uma quitinete horrível, na Rua Dr. Quirino, aqui em Campinas. Minhas coisas todas amontoadas naquele espaço sem luz, sem ventilação e úmido. O banheiro tinha vazamento, o chuveiro não esquentava e o apartamento, literalmente, fedia. Entrei em crise e depressão. Chorava à toa e me deixei mergulhar em um mar de desesperança e pessimismo. Meu mundinho concreto e real estava ameaçado e não tinha escoras espirituais para me segurar (fé).

Quando digo ‘desproporcional’, me refiro ao fato de que o processo de financiamento, embora lento, por conta do aparecimento de um homônimo na transação, estava devidamente encaminhado e com toda a perspectiva das coisas terminarem bem. Não teria problemas com multas e nem com despesas extras. Estava tudo devidamente equacionado. Minhas contas estavam pagas, estava empregada, trabalhando e com boa saúde. Em suma: havia problemas, mas sem uma gravidade que provocasse os sentimentos e as reações emocionais e físicas como aquelas. As horas, dias e semanas passavam mais lentamente do que eu gostaria…

Então, um dia, na análise (psicoterapia), ‘chorando’ os meus dramas diários, minha analista virou e me saiu com essa: “Carol, eu espero que a vida não tenha que lhe mandar uma situação mais grave para que você possa perceber que as coisas que estão acontecendo são apenas obstáculos comuns e normais da vida. Coisas que são gerenciáveis e administráveis. De verdade, nada de grave está acontecendo…”.

Me calei. Refleti e percebi o quanto suas palavras tinham sabedoria. Foi como se um ‘tijolo’ tivesse caído na minha cabeça. Me senti como uma pessoa em crise histérica que leva um tapa na cara.

Retomei o controle da situação e exercitei a paciência, a aceitação e a passividade – não do ponto de vista negativo, de quem não toma providências, mas de quem as tomou e agora aguarda a contrapartida. Encontrei uma nesga de fé, me agarrei à ela e passei a acreditar que o universo me responderia. E ele respondeu prontamente.

As coisas ocorreram como o previsto e na data calculada me mudei para o novo apartamento.

Sabe, com a maturidade e a tomada de consciência percebo que tudo tem um porquê e uma mensagem encerrada. Costumo dizer que hoje até a extração de um dente pode trazer oportunidade de reflexões e possibilidades de transcendência. Mas não para todo mundo. Acredito que a vida nos envie conflitos sobre temas que precisam de revisão e crescimento. Alguns recebem um aviso, depois um grito e, se continuam sem reagir, levam um coice da vida. Ai, que medo!

Vejo situações e experiências tão incríveis que me pergunto se é possível alguém passar por elas sem ser transformado. Lembro do mito de Jonas e a baleia.

Jean Yves Leloup, em seu livro ‘Caminhos da Realização’, analisa como a história contada no Antigo Testamento da Bíblia pode nos ensinar sobre os medos e resistências, com os quais nos deparamos na busca de nosso sonho.

No mito, Deus dá uma ordem a Jonas, mas ele o desobedece e toma um barco para o lado oposto ao que deveria ir. Sobrevém uma forte tempestade. O capitão decide então procurar Jonas, que havia descido para o porão, e é encontrado deitado, dormindo um sono profundo. Jonas confessa ter desobedecido a Deus e pede que lhe joguem ao mar. A tempestade então cessa. Ao ser lançado nas águas, é engolido por uma baleia, dentro da qual passa três dias, até se arrepender e pedir a Deus que lhe desse uma segunda chance. Assim, ele é expelido da baleia e finalmente segue para o seu destino.

“Portanto Jonas, num primeiro momento, é o arquétipo do homem deitado, adormecido, do homem que não quer se levantar e não quer cumprir missão alguma. É o arquétipo do homem que foge, que foge da sua identidade, que foge da sua palavra interior, que foge dessa presença do Self no interior do Eu. Essa fuga de sua voz interior vai provocar um certo número de problemas no exterior dele mesmo”. Continua Leloup: “Há momentos que não podemos mais nos mentir, nos contarmos estórias. Nós somos obrigados a ser autênticos, não podemos mais fugir. O arquétipo de Jonas é também um convite para que mergulhemos na profundeza de nosso inconsciente, para passarmos através destas sombras, para mergulharmos na nossa própria experiência da morte, aceitarmos que nosso ser é mortal, para descobrirmos, em nós, o que não morre”.

Uma ligação universal!

13/05/2017

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Quando tinha uns dois anos, numa madrugada fria, meu filho, Davi, me chamou: “Mamaê!”. Fui até o quarto e ele estava em pé no berço: “Cóio!”. Peguei ele pelos braços e forcei delicadamente que se deitasse de novo. “Filho, você dorme no bercinho e mamãe na cama. Durma meu filho”. Ele levantou de novo e disse: “Mamaê, cóio!”. Foi aí que o peguei no colo e percebi que estava encharcado de xixi, tadinho… com as pernas geladas. Levei ele para a minha cama, troquei a fralda, a roupa e dei mamadeira. Logo ele estava dormindo novamente. Poderia tê-lo levado de volta ao berço, mas não quis. Eram 4h30 e logo estaríamos acordados. Deitei na escuridão total e percebi sua mãozinha procurando a minha…

Fui remetida imediatamente à minha infância. Quando menina me sentia muito insegura afetivamente e tinha períodos longos de terror noturno. Ficava horas com insônia, com medo de dormir e ao mesmo tempo com medo de ficar acordada e ouvir alguma coisa inexplicável. Saía de fininho do meu quarto e entrava pé ante pé no quarto dos meus pais, carregando apenas um travesseiro. Deitava embaixo da cama deles. Ficava ali, quietinha, ouvindo-os roncarem. O som, que poderia incomodar a princípio, me deixava calma e com senso de realidade naquela escuridão. Aí, eu dormia.

Logo cedo, antes que eles se levantassem, deixava, de mansinho, o local e voltava para o meu quarto.

Outro lugar disputado por mim e pelas minhas irmãs para uma soneca era o bumbum da minha mãe. A coitada acordava cedo e não parava um minuto na cozinha, arrumando as coisas e fazendo as tarefas domésticas, enquanto nós brincávamos e também brigávamos, desfazendo toda a arrumação. Depois da cozinha do almoço arrumada, ela avisava: “Agora eu vou assistir televisão e dar um cochilo. Não quero um pio…”, ameaçava. Pegando um chinelinho na mão, tipo “pronta para dar umas palmadas”, deita-se no sofá, que era comprido.

Ah! A primeira que chegava encostava a cabeça no bumbum da mamãe, e as outras, encostavam as cabecinhas no bumbum umas das outras. Ficávamos todas encaixadas, ressonando por pelo menos uns 40 minutos, quando então minha mãe levantava e retomava a batalha do dia a dia. Essa é uma das melhores lembranças que tenho da minha infância.

Todas queriam ter o privilégio de dormir encostadinho na mamãe. Era uma sensação de segurança e aconchego plena naquele bumbum macio, quentinho e com cheiro de coisa conhecida, parecendo uma extensão do corpo da gente.

Nós disputávamos a tapa o lugar. Acho que é aquele tal ‘desejo existencial’ relatado pelos especialistas da volta ao útero materno. A vontade de se unir ao corpo da mãe novamente e sentir a sensação de plenitude e bem-estar da gravidez.

Quando vi a mãozinha de Davi me procurando no escuro naquela noite, mesmo ele estando sonolento, me lembrei com clareza e nitidez dessa experiência com minha mãe. Percebi claramente que meu filho relaxou quando me “achou” e se entregou ao sono, em segurança.

Geralmente, meu filho dorme em seu quarto. Mas gosto de pensar que essas exceções, que nos aproximam afetivamente e instintivamente, vão perdurar como delicadas lembranças de bem-estar, aconchego, amor. Como momentos especiais, em que a ligação universal é reatada, refeita, mesmo que ele não tenha saído, de fato, do meu útero…

Chronos, o ‘devorador’!

01/05/2017

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Deus da mitologia grega, Chronos, que personifica o ‘Senhor do Tempo’, é comumente conhecido como aquele que tudo devora, ainda que também ‘gere’ tempo. Ele é ‘O Devorador’. Não sem motivos. Ele representa o nosso tempo terreno, aferido pelos segundos, minutos, horas, dias, meses, anos, décadas, e assim por diante. É implacável, um ancião que não admite negociação e nem postergação. Do seu nome se originou a palavra cronômetro.

É com ele que nos digladiamos no esforço de cumprir todas as tarefas planejadas a cada dia e de entregar tudo o que foi proposto e prometido por nós, e que, automaticamente, também nos será cobrado.

Na outra ponta, temos outra divindade grega relacionada com o tempo: Kairós (em grego: καιρός, ‘o momento oportuno’, ‘certo’ ou ‘supremo’), que, ao contrário de Chronos, faz sua própria contagem e passagem de tempo. Ele é ilustrado como um jovem nu, alado, que somente pode ser pego, agarrado, em sua passagem por nós no ‘agora’, no presente, já. Depois, impossível alcançá-lo.

Kairós tem em uma das mãos uma balança, simbolizando o equilíbrio e a justiça. Embora veloz, não ultrapassa a medida. Para muitos, ele também representa o nosso tempo interno, do amadurecimento, das emoções, das fases da vida.

O embate entre esses extremos é diário no dia a dia e impacta sobremaneira o nível de produtividade das pessoas em qualquer âmbito, seja profissional, social ou pessoal.  Por uma série de ideias e crenças limitantes, acabamos muitas vezes nos tornando um procrastinador, adiando todo tipo de ação, atividade e decisão. Não por preguiça ou escolha, mas por desconhecer os prejuízos de deixar pra mais tarde compromissos e postergar ações que podem ser realizadas agora. Outras questões também pesam, o medo, a ansiedade, insegurança, não gostar da tarefa, entre outras.

Protelar, tardar, atrasar, pospor, demorar, espaçar, prolongar, prorrogar, delongar, retardar, protrair, diferir… Ufa! Esses são apenas alguns sinônimos para a procrastinação.

Claro que este também é um comportamento normal e humano, porém, o hábito constante de procrastinar impede o funcionamento equilibrado de rotinas e prolonga problemas e questões que tentamos evitar de resolver e eles acabam voltando à tona, gerando mais mal-estar e rejeição.

É de suma importância tomar consciência do quanto esse modus operandus de ‘deixar as coisas pra depois’ afeta a nossa produtividade e evolução, ‘devora’ nosso tempo, além de atrapalhar todo o esforço de organização para ‘gerar tempo livre’ para fazer outras atividades. É preciso planejar, estabelecer metas e cumpri-las com fidelidade. Existem várias técnicas e exercícios que podem ser aplicados para acabar de vez com a procrastinação.

Se a procrastinação está atrapalhando sua produtividade e tirando o seu sossego, reflita sobre algumas dicas e tente aplicá-las na sua rotina.

O primeiro passo é o admitir esse comportamento e compreender que é imprescindível mudar de atitude, comportamento e sentimentos. Isso vai exigir esforço, determinação e comprometimento.

Liste em um papel tudo aquilo que tem deixado para resolver ou fazer depois. Desde e-mails sem respostas, cursos que gostaria de fazer, mudanças de comportamento como começar uma dieta alimentar mais saudável ou frequentar uma academia, ou ainda aprender/aperfeiçoar o inglês. Não se assuste com a lista, tudo pode ser feito com ponderação e calma, sem ansiedade, no tempo de Kairós.

O segundo passo é priorizar entre essas ações qual a mais emergente. Achou! Ok! Comece por ela. Decida, se organize, coloque uma meta real, que possa cumprir e então, cumpra. Bem assim! Planejar a atividade e colocar uma meta nos incentiva a cumpri-la no prazo. Nessa fase inicial de troca de hábito, um ‘time’ é fundamental.

Não deixe que as redes sociais e notificações do celular atrasem e distraiam o seu ritmo. Acredite, as pessoas viviam sem celulares há trinta anos.

Por outro lado, alguns aplicativos podem ajudar. O Toggl, disponível para Android e IPhone,  realiza o cálculo do tempo de cada tarefa e quanto tempo foi dedicado a cada projeto.

Existem também vários vídeos no YouTube de especialistas nesse assunto que poderão ensinar técnicas e instrumentá-lo para tornar as coisas mais fáceis, ensinando a administrar melhor o tempo e a mudar o sentimento em relação a esse hábito, principalmente nesse início. Vai valer a pena!

Se o planejamento do seu dia não foi o que imaginou, persevere. Coloque na cabeça que amanhã conseguirá cumprir tudo da melhor maneira possível e saia de casa com essa certeza e fé. Foque nos seus objetivos e se mantenha motivado. Todo dia é uma oportunidade de recomeçar! Tudo pode acontecer e nos surpreender na próxima vez, acredite! Seja você o vitorioso no embate entre Chronos e Kairós! A cada questão resolvida, não se esqueça de se parabenizar e reconhecer o seu valor nesta batalha.

A procura de um pescador inuit

24/04/2017

mulher esqueleto

Fiquei em choque quando li, há muitos anos, “A mulher-esqueleto”, uma das 19 lendas e histórias imemoriais do livro ‘Mulheres Que Correm Com Os Lobos’, escrito por Clarissa Pinkola Estés. A beleza e delicadeza daqueles personagens, assim como a ‘verdade’ que eles expressam estão imortalizados dentro de mim. Metaforicamente, a história fala sobre o processo de reconstrução do outro por meio do acolhimento e aceitação.

Resumidamente, uma mulher inuit (nação indígena esquimó que habita as regiões árticas do Canadá, do Alasca e da Groenlândia), depois de fazer algo condenável pelo patriarcado, foi jogada do penhasco pelo próprio pai. Sozinha, no fundo do mar, rolando de um lado para o outro, sendo comida pelos peixes, tornou-se um esqueleto.

Um pescador, desavisado do ocorrido naquele mar amaldiçoado, lançou sua rede nas águas. A rede ficou presa nas costelas da mulher inuit, e, quando o pescador a puxou, ela saiu das águas do mar como se fosse uma aparição irreal. Horrorizado, o pescador saiu correndo e, como a rede trazia o esqueleto, o mesmo parecia correr atrás dele.

Desesperado, entrou em seu iglu de supetão e junto com ele, a mulher-esqueleto. Quando acendeu sua lamparina de óleo, deu de cara com o esqueleto todo desarrumado ao seu lado. Seja por conta da luz tênue da vela, seja porque seu coração aos poucos foi voltando ao normal, o fato é que o homem, solitário, começou sutilmente a ‘arrumar’ os ossos da mulher-esqueleto, soltando-a das linhas da rede. Depois, colocou peles sobre ela para aquecê-la. Com sono, se arrumou para dormir, tendo ao lado a inusitada companheira.

Durante seu sono, o pescador deixou escapar uma lágrima e a mulher-esqueleto, vendo-a, sentiu uma imensa sede. Se aproximou e colocou a boca junto à lágrima. Foi como se tivesse bebido um rio. Aquela única lágrima saciou sua sede de anos.

Então, estendeu a mão e retirou o coração do pescador e começou a batucá-lo, cantando baixinho: ‘carne, carne, carne’. Quanto mais cantava, mais seu esqueleto se revestia de carne, cabelos, olhos saudáveis, mãos, pés, seios, pernas e vagina. Quando se recuperou completamente como ser humano, a mulher ‘cantou’ para despir o pescador e devolver seu coração, se agarrou a ele e dormiram pele com pele, ‘enredados’.

As pessoas se lembram que o casal foi embora, mas sempre foi alimentado pelas criaturas com as quais ela viveu debaixo d’água

Pra mim, a lenda fala sobre o poder de reconstrução do feminino pelo masculino nutridor. Mesmo que ‘ela’ esteja já um ‘esqueleto’ pela rigidez e pancadas do patriarcado, é a humanidade e a fragilidade do masculino que a cura e a reconstituem para vivenciar um nível de amor homem-mulher que frutifica e floresce.

Eu, aqui do meu lado, busco meu pescador inuit. Não sem antes ter passado pelas profundezas do meu próprio mar e pela tragédia gerada pelas leis patriarcais. A dor, realmente, nos enobrece, nos faz melhores, mais evoluídos, mais humildes diante do outro. Nos fragiliza e derruba os ‘muros’, possibilitando que possamos ver a ‘beleza’ onde, até então, só víamos horror.