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Aceitar,acolher, abraçar, agradecer: início da mudança

03/02/2020

 

aceitação

Por que é tão difícil aceitar o outro como ele é? Fácil: porque insistimos em não nos aceitarmos como somos. Passamos uma vida buscando maneiras de nos encaixar em modelos, estereótipos, padrões, referências, paradigmas, exemplos, ideais… verdadeiras fôrmas de bolo de uma linha de produção. E em nome do quê? Pois é, justamente, de aceitação. Não uma aceitação qualquer, mas aquela que se traduza em um amor profundo e generoso, um amor que todos nós desejamos existencialmente oferecer a outros e receber deles mesmos.

Ao longo da vida iremos nos deparar com situações diversas, que transitam entre extremamente positivas a extremamente negativas do ponto de vista das emoções e dos sentidos. Mas, pela perspectiva do aprendizado, todas nos trazem ensinamentos, amadurecimento, conhecimento e riquezas vivenciais.

No entanto, muitas vezes, nossa reação inicial ao que chega é de declinar fortemente ao convite proposto. Recusamos de pronto o que não nos agrada à primeira vista.

As oportunidades que nos surgem precisam, inicialmente, ser acolhidas, ou seja, aceitas, abraçadas. E isso deve ocorrer não somente em relação àquilo que podemos mudar, mas muito mais ainda em face ao que não podemos mudar – e, tentar fazê-lo, representará sofrer mais que o necessário. Lutar contra uma situação intransponível, mesmo que momentaneamente, gera desgaste, prejuízos e traumas.

Apenas a partir daquilo que acolho/aceito, posso, então, seguir em frente, aguardando o momento, a possibilidade e uma nova oportunidade de transformação/mudança. Nada na vida é absolutamente estanque. Nem mesmo a morte física encerra a vida. Nada acaba ou finda, como bem constatou o químico francês, Antoine-Laurent de Lavoisier, “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

Aceitar com humildade convida-nos a tolerar determinadas circunstâncias, entendendo que a vida não se traduz somente naquilo que consideramos como ‘bom, belo e agradável’. A vida não acontece em meio a um juízo de valor. Não há dicotomias e nem extremismos. Não somos apenas vítimas ou algozes. A vida naturalmente acontece e precisamos aceitar.

Ao mesmo tempo, somos instados a uma ação, que pode, em muitos casos, trazer um convívio respeitoso com aquela situação, sem que isso impacte em prejuízos físicos e emocionais intoleráveis. Mesmo vivendo em circunstâncias difíceis, que seja possível seguir com energia, interesse e foco em outras áreas e oportunidades, na esperança de que novas portas se abram.

Aceitar é reconhecer a nossa impotência diante de algo. E o que não tem solução, resolvido está, mesmo que momentaneamente. Assim, o melhor é continuar caminhando, pois é caminhando que construímos o caminho.

Colocando em pensamentos, seria algo como: “Diante desta situação, neste momento, não há nada a fazer. Porém, sigo minha vida, aguardando oportunidades para que uma transposição disso seja possível”.

Já a resignação traz mais sofrimento, uma vez que nos colocamos em posição de espera. À espera de que tudo mude magicamente. Não abraçamos o sofrimento que veio para nos ensinar. Em vez disso, ligamos o modo ‘sobrevivência’, imaginando que tudo sumirá quase que por um milagre.

Assumimos o peso de uma âncora, presos à situação, compadecendo-nos e nos sentindo vítimas dela. Como ‘âncora’, ela passa a amarrar iniciativas, bloquear movimentos, escravizando-nos com a crença de uma imutabilidade. Deixo então de buscar outros e novos caminhos. RESIGNO-ME.

É perceptível a diferença de atitude. Quando ACEITAMOS, acolhemos, abraçamos a realidade que chega como mais uma oportunidade de vida e de viver. Continuamos a nossa jornada, e isso nos permite manter um nível de felicidades e de gratidão por novas possibilidades que vão surgindo, sem que, necessariamente, a dificuldade precise ser resolvida antes de aproveitar cada segundo de nossa existência.

Não me bloqueio por isso, não penso que será sempre assim por isso, mas aprendo com essa experiência e continuo o meu caminho. A aceitação é não ir contra a corrente, mas aproveitar as situações para aprender com a vida. Sempre existe a possibilidade de corrigir o nosso rumo.

A aceitação visceral também passa pelo respeito e humildade ao, verdadeiramente, acolher as pessoas como elas são. Desaparece o desejo de mudá-las. Observo até onde posso ir nessa relação e se isso me convém ou não, se estou sendo respeitada

Quanto ao falecimento de uma pessoa amada, aceitar significa superar o luto, sem sentir revolta, dando um rumo à vida e abrindo as portas para o novo, depois de superadas as etapas próprias e naturais de um processo de perda.

A resignação impede a superação natural do luto. Muitos ficam revoltados, não admitem a mudança que esta perda traz e isso faz parte do processo de superação. Porém, esse sentimento se converte em um estado permanente para quem não consegue abraçar a sua própria dor e nem para de buscar culpados.

Do mesmo modo, quando passamos por um grave trauma – independentemente de quem tenha sido responsável, ‘culpado’, por ele -, a aceitação do ocorrido e o entendimento de que cada um responde por seu passivo vivencial nos liberta para que possamos seguir em frente. O filósofo e escritor francês Jean-Paul Sartre bem resume essa postura frente à vida: “Não importa o que fizeram de mim, o que importa é o que eu faço com o que fizeram de mim.”

A aceitação é, sobretudo, uma postura de fé na misericórdia divina. Não faltam frases de sábios que resumem essa escolha. O psiquiatra e psicoterapeuta Carl Gustav Jung também defendia essa ideia: “O que negas te subordina. O que aceitas te transforma”.

A resignação é a submissão à vontade de alguém ou ao destino, quando então o resignado sofre, queixa-se e se lamenta o tempo todo frente à realidade que se apresenta, com o pensamento fixado naquilo que gostaria que fosse. Isso o mantém paralisado, passivo, escravo de um intenso sofrimento cuja chave está nas suas próprias mãos.

Aceitar é indício de lucidez. É a compreensão de que naquele momento, nada mais resta da não ser acolher o que se apresenta, e, a partir desta ação, colocar-se em prontidão para olhar atentamente mais uma vez a situação, agora sem a carga emocional da rejeição. Assim, pode-se ver a realidade de novos ângulos e sob novas perspectivas, abrindo espaço para o surgimento de possíveis soluções. Tudo no universo é puro movimento. Nada é permanente ou imutável.

Aqui é o ‘Nosso Lar’

23/05/2017

reencarnação

Assisti há alguns anos o filme ‘Nosso Lar’, baseado no livro espírita de Chico Xavier, que conta a história do espírito André Luiz. Saí meio escondida, antes das luzes se acenderem, um pouco envergonhada da minha cara inchada de tanto chorar. Pensei que fosse me afogar, tantas lágrimas pululavam dos meu olhos sem controle algum. Sentimentos profundos e intensos me perpassaram durante os 80 minutos da película.

Não especificamente por conta da doutrina de Allan Kardec, que respeito, mas o filme nos lembra o tempo todo do que é importante na vida: vínculos afetivos, nossas mortes psíquicas (muitas vezes um rompimento amoroso ou profissional, ficar gravemente doente, ter um filho, sofrer uma violência) e nossas idas ao umbral (encontro com nosso lado sombrio), nossos mestres espirituais, que pra mim são essas pessoas especiais que passam pela nossa história e fazem toda a diferença, a dor de perder uma pessoa amada, a dificuldade em reconhecer os nossos lados menos heroicos e bonitos e de nos desligarmos das coisas do mundo egóico.

Ele nos fala das verdades simples da vida, que nos esquecemos enquanto nos preocupamos com as contas vencidas, com a promoção na carreira, com coisas que nos ajudam a sobreviver neste mundo, mas que são tão menos importantes…

Chorei principalmente porque o tempo todo somos convidados a nos lembrar que, no final de tudo, quando a ‘morte’, seja ela física ou psíquica, bate à nossa porta, tudo o que importa mesmo são as relações que vivemos, os vínculos afetivos, aquele abraço, aquele beijo, aquele sentimento compartilhado com o outro, o minuto, o segundo, a hora vivida intensamente e sem reservas, sem travas, sem vergonha. Nessa hora, somos todos absolutamente iguais, pecadores, cheios de paixões, desejos, egoísmos, erros, mas também de acertos, amores, generosidades, compaixão…

Chorei pelos momentos de renascimento pelos quais tantas vezes passamos, na maioria deles sem nos darmos conta. Momentos de transcendência, de verdadeiros milagres…

Chorei me lembrando da minha avó que era espírita e fazia as “mesas brancas” em sua casa. Recebia as pessoas, que se sentavam em volta de uma jarra d’água (que seria purificada pelos fluídos dos espíritos de luz), e eles liam e debatiam o Evangelho Espírita. Era, e é, um ritual muito singelo e bonito. Chorei me lembrando dela constantemente empunhando suas mãos sobre nós para oferecer energia amorosa. Éramos crianças e não percebíamos o tamanho e intensidade daquele amor tão incondicional e espiritual…

Mesmo sem acreditar que existe o ‘Nosso Lar’ como o descrito no filme, mas acreditando que ele é o nosso próprio Self, sai da sessão transbordando de gratidão, fé e amor. Queria me prostrar completamente no chão e agradecer a tudo e a todos: meus antepassados, meus parentes e familiares, meus amigos, ‘inimigos’ (ponho entre aspas porque considero o termo muito relativo neste caso), pessoas conhecidas, desconhecidas, animais, plantas, planetas, estrelas, universo… queria beijar o chão e conversar com uma formiga, contar a ela sobre tantas emoções maravilhosas que já tive a benção de sentir… explicar como me sinto tão feliz mesmo quando as coisas parecem absolutamente fora do lugar.

Não indico ‘Nosso Lar’ a ninguém que queria assistir a um ‘bom filme’ do ponto de vista cinematográfico. Não há grandes atuações dos atores envolvidos na película e os efeitos especiais, tão comentados na mídia na época, não surpreendem em nada. Não há grandes revelações e nem tão pouco explicações convincentes. Não se defende nada na história, nem se percebe a pretensão de se convencer alguém sobre a veracidade da doutrina.

Indico esse filme apenas àqueles que podem entrar assistir ao filme sem nada esperar, abertos, prontos para apenas sentir o que a história possa mobilizar por semelhança e por comunhão com o humano.

Como eles dizem constantemente no filme: “Vá em paz irmão…”