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O medo do dique romper paralisa a vida

28/03/2017

dique

“Tenho medo de ir olhar o que me aconteceu no passado e com isso romper o dique que contém o sofrimento de toda uma vida. Tenho medo de começar a chorar e de nunca mais parar. Acabar literalmente afogada em minha próprias lágrimas e dor.” Foram com essas palavras que minha mãe um dia justificou o fato de nunca ter procurado uma terapia quando volta e meia entrava em mais um processo de depressão.

Quem pode julgá-la? Ninguém. Vítima de vários tipos de abusos na infância e adolescência, minha mãe sofreu a vida inteira de Transtorno Depressivo Maior grave. Criou seis filhos, cinco meninas e um menino, que foi adotado com 2,5 anos, a ‘rapa do tacho’. Uma guerreira que lutou pela própria vida por amor aos seus filhos e marido. Pra mim, uma verdadeira heroína.

Me lembro de em alguns momentos ter sentido também essa espécie de ‘medo de romper o dique da dor’, acreditando que ela iria me devorar. Mas eu fiz terapia, por uma década, e fui percebendo que quando você encara o ‘dragão’, percebe rapidamente que é apenas uma ‘lagartixa’.

Sei agora que o medo, esse sim é o grande vilão. É ele que nos paralisa na ‘fantasia’ de que não poderemos suportar tanto sofrimento. Realmente, não podemos, devemos, se queremos ter uma vida minimamente ética e ‘rica’ de aprendizados, emoções, experiências, com trocas de amor nutritivo.

Somente pode desfrutar do prazer de andar na ‘montanha-russa da vida’, chegando no ponto mais alto enquanto ela sobe e nos deixa ser ar de tanta expectativa e alegria, quem tem o ‘culhão’ de saber que terá que enfrentar também o frio na barriga, e às vezes até a ânsia, durante a descida veloz e implacável. É possível levar uma vidinha ‘controlada’ (dentro das possibilidades, é claro) e estável? Lógico que sim. Porém, eu pergunto: qual é mesmo a graça disso? Alguém logo responderá correndo: “Ah! A graça é que nunca mais sentiremos medo!”. É mesmo?

Quem tem um potencial de vida plena e erótico (termo aqui usado no sentido de prazer e energia criativa inesgotáveis para tudo) e ‘escolhe’ construir um dique, com medo de ficar submerso na transcendente vitalidade – que pode sim nos levar a um outro patamar de autoconhecimento e evolução -, acaba cavando uma depressão maior. E se convence que ela é muito mais segura do que a ‘dor’ de enfrentarmos os nossos próprios dragões.

Só posso dizer: são escolhas. Tive momentos em que escolhi a depressão maior. Mas fico feliz perceber em constatar que, no frigir dos ovos, escolhi, mesmo que inconscientemente, andar na montanha-russa.

 

 

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