A urgência de vocês…

30/12/2019

encontro

Sinto saudades de vocês!

Do olhar profundo e puro

Do tique suave e amoroso

Da voz cálida e compreensiva

Do sorriso discreto e doce

Da proximidade acolhedora e quente

Estou só, mas não sinto solidão

Escolho nos fragmentos da minha memória

Os momentos mais tocantes…

Os preciosos minutos do encontro, do entendimento sem palavras ou explicações

E, assim, percebo-me repleta na urgência dos sentidos da minha alma…

Como é possível sentir solidão, quando me vi no outro, e sei agora que somos um só? Quando partilhei a minha mais profunda dor e pude acolher a dor do outro?

Em mim agora vivem muitos… vocês…

Estou bem, mas sinto a urgência do desafio

Clamo ao inconsciente por mais luz… tenho fome, tenho sede…

Procuro vocês em outros e peço passagem em meus sonhos

A esperança de reencontrá-los em breve acalenta o meu espírito, que anseia em se alimentar de amor…

 

As certezas de Sabino…

30/12/2019

courage

 

De tudo ficaram três coisas…
A certeza de que estamos sempre começando…
A certeza de que é preciso continuar…
A certeza de que podemos ser interrompidos
antes de terminar…
Façamos da interrupção um caminho novo…
Da queda, um passo de dança…
Do medo, uma escada…
Do sonho, uma ponte…
Da procura, um encontro!

Fernando Sabino , O Encontro Marcado.

Todo clamor é ouvido pelo Pai

16/12/2019

Nosso relacionamento com Deus deve ser íntimo e de entrega, com a confiança de que Ele conhece nosso coração e sabe exatamente do que precisamos. Afinal, qual é o Pai que não quer ver o filho bem?

No filme norte-americano “A Volta do Todo Poderoso”, de 2007, há uma passagem tão profunda e interessante, que foi objeto de disseminação de um vídeo com o trecho nas redes sociais. Nela, Deus, personificado pelo ator Morgan Freeman, disfarçado de garçom, se aproxima da mesa de Joan (a atriz Lauren Graham) em uma lanchonete, que na película faz o papel da esposa de um congressista a quem Deus incumbe de construir uma nova arca em pleno século XXI.

Ele então a questiona, observando que parece aborrecida enquanto toma seu café. Joan conta a situação inusitada pela qual passa, alegando não entender o que estava acontecendo com seu marido e pergunta como ela poderia lidar com tudo isso.  Deus então responde: “Parece ser uma oportunidade! Veja só: se alguém rezar pedindo paciência, você acha que Deus dará paciência ou dará a oportunidade para você desenvolver a paciência e ser paciente? Se pedimos coragem, acha que ele dará coragem ou a oportunidade de sermos corajosos? Se alguém quer que sua família viva mais amorosamente, que ele dará mais amor ou a oportunidade de aprenderem a amar mais?”.

Uma argumentação profunda e que exige reflexão sobre nossos desejos e condutas. Há alguns anos, conheci uma mulher, com seus 40 anos, bem-sucedida profissionalmente, mas sem companheiro amoroso e distante da família. Vivia para o trabalho. Ficamos amigas e ela me confidenciou que nos últimos três anos insistia em fazer um pedido a Deus: “Senhor, quero amar mais e melhor”. Isso, porque julgava que seu amor ainda estava em um nível infantil e egóico e desejava evolução e amadurecimento.

Pois bem, naquele mesmo ano foi direcionada a uma situação – não cabe aqui contar toda a incrível história -, na qual adotou uma criança no estado do Maranhão, de poucos dias. Ela era só felicidade. Mudou completamente a sua vida em nome da maternidade e do amor incondicional que agora sentia, e não pediu mais nada a Deus, apenas agradecia.

No entanto, quando a criança fez cinco anos, começou a se comportar de maneira agressiva e socialmente inadequada. A escola a chamava todos os dias, e o menino parecia incontrolável. Foi um baque imenso. Uma saga por clínicas médicas, especialistas, universidade, centros de atendimento. Nenhum diagnóstico concreto e muitos ‘talvez’.

Assim se passaram mais cinco anos: idas a especialistas (psiquiatra, psicóloga, psicopedagoga, neurologista), esportes diversos (lutas, futebol, atletismo) e seis escolas (era convidado a se retirar delas). Bateu o carro algumas vezes, passou por algumas crises de pânico e chegou a ser internada com arritmia cardíaca por estresse. Disse que se sentia ‘injustiçada’ por Deus, mas não compreendia o porquê.

Para culminar, perdeu seu emprego em uma empresa na qual trabalhava há mais de 20 anos, considerada o próprio chão no qual que pisava. Caos, desespero e ansiedade geraram uma depressão profunda e a certeza de que não havia lógica na justiça divina.

Apesar disso, manteve sua rotina, sempre com o filho à tiracolo, nas sessões espíritas de nosso centro, onde também fazia tratamentos espirituais constantes. Chegou a buscar apometria por diversas vezes. Sua vida havia sido ‘destruída’, mas ela, aos poucos, retomou a fé e a esperança, confidenciando-me que não fosse o imenso amor que sentia pelo filho, talvez já tivesse ido embora deste mundo.

As quedas foram muitas, mas ela continuava a se levantar, revendo suas atitudes, buscando aceitar e acolher sua missão e os resgates decorrentes dela. Mudaram-se para outra cidade por dois anos e haviam acabado de retornar quando a reencontrei no centro espírita novamente, junto com o filho, agora com 10 anos.

Voltara a morar na cidade. Estava muito mudada. Tinha perdido aquele olhar inquieto e ansioso. Falava de maneira doce e paciente. O semblante estava sereno e a afetividade que emanava entre ela e o filho era visível e tomava conta das pessoas. Sua aura era pura harmonia e amor.

Quando ficamos a sós, perguntei o que havia acontecido para tamanha transformação. Ela então me olhou emocionada e respondeu: “Deus, na sua infinita misericórdia, deu-me a oportunidade de aprender a amar mais e melhor trazendo meu filho para minha vida. Aprendi muito, tive que destruir todo o muro de controle e de isolamento que havia construído para me defender das outras pessoas. Aprendi a pedir ajuda e a ajudar a quem a pede. Aprendo sempre e sei que jamais deixarei de aprender lições sobre o amor”, respondeu-me.

Perguntei sobre o menino e ela disse que continuava com todos os tratamentos e medicações necessárias. Explicou que percebeu que a sociedade de consumo ‘vende’ modelos de felicidade, que acabamos perseguindo durante uma vida, sem perceber que somos felizes quando aceitamos que a perfeição é uma ilusão e que o sofrimento é inerente ao ser humano. “A oração é um clamor que vai direto ao Senhor. Foi o único tema que Jesus abordou por duas vezes no Sermão da Montanha. A prece tem o poder de mudar as coisas, mas para além disso, mudar o coração e a vida dos homens. Mudou o meu. Passei de uma mulher estéril para uma frutífera. Ele converteu meu pranto em alegria, mansidão e aceitação”, disse-me minha amiga.

Entendi, então, mais plenamente, que o versículo (Mateus 7:7,8): “pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois todo o que pede, recebe; e quem busca, acha; e ao que bate, abrir-se-lhe-á”, proferida por Jesus, expressa que o Pai sempre ouvirá e responderá a nossa oração. No entanto, essa resposta não significa necessariamente a concessão do que pedimos da maneira como idealizamos. Ele sabe do que realmente precisamos, e isso fica claro quando Jesus diz durante o sermão que qualquer pai jamais dará ao seu filho uma pedra em vez de um pão, ou uma serpente em vez de um peixe. Se um pai pecador age dessa forma, por que o Pai Celestial agiria de forma menos amorosa? Deus é um Pai amoroso que dá aos seus filhos “boas dádivas” (Mateus 7:11), ou seja, jamais dará algo prejudicial a seus filhos.

 

Nossa juventude está apática

05/09/2018

apatia

A palavra ‘apatia’ é um substantivo feminino, que, para a filosofia, define um estado de insensibilidade emocional ou esmaecimento de todos os sentimentos, alcançado por meio de uma ampliação da compreensão filosófica. Para a área da saúde mental, mais especificamente para a psicopatologia, é o estado caracterizado pela indiferença, ausência de sentimentos, falta de atividade e de interesse, e, por extensão, falta de energia (física e moral), falta de ânimo; abatimento, indolência, moleza. Mas o que me interessa mesmo é o significado do verbete para o dicionário: estado de alma não suscetível de comoção ou interesse; insensibilidade, indiferença. Vou resumir: apatia hoje é sinônimo da atual ‘juventude’.

Triste demais chegar à essa constatação, assim, de chofre. Ainda mais quando decidi investir na educação de forma holística. Sim, eu sou professora particular e atendo aqueles que podem, além de estudar em um colégio privado caríssimo, pagar por horas/aulas particulares. E o que se vê neles? Total apatia. Total falta de significados e significantes. Uma expressão blasé tão literal que choca, surpreende. O que mais ouço quando pergunto a eles do que mais gostam é: “nada em especial…”. E por aí vai: música? “Não me lembro de nenhuma”. Livro? “Somente os que a escola nos obriga a ler?”. Notícias? “Não tenho interesse”. Poesia? “Detesto, não entendo”. Difícil, viu?

E pensar que eles dispõem de uma das mais potentes e incríveis tecnologias já inventadas pelo homem, a internet. É possível aprender de um tudo pelos tutoriais disponíveis em forma de vídeo ou em texto com imagens. Até mesmo desentupir uma privada. Nem quero entrar no mérito do universo do conhecimento, estudos, música e livros disponíveis e gratuitos… o mundo na ponta dos dedos, mas, para eles, o mundo se resumo ao que os outros pensam deles e como ficar bem na fita das redes sociais.

Ok, é fato que hoje a convivência social de crianças e adolescentes, infelizmente, se resume ao ambiente escolar apenas, somando-se aí as atividades extracurriculares. Não há espaço social para que eles, de fato, possam exercitar as interações humanas e desenvolver competências para “afinar o instrumento, de dentro para fora e de fora para dentro” – ou seja, por meio dos processos interativos, o ser humano se transforma num sujeito social e evolui. A partir de seus relacionamentos e vínculos afetivos aprende e ensina, fazendo de fato diferença no mundo.

Falta sangue, falta curiosidade, falta erotismo, falta paixão por si mesmo e pelo outro. O outro é singular, diferente, único, encantador, complexo, e, sem dúvida nenhuma, apaixonante. Entendo perfeitamente porque o Carl Gustav Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço que fundou a psicologia analítica, apaixonava-se por seus pacientes. Como evitar isso quando olhamos verdadeiramente nos olhos de alguém, ouvimos de fato o que está dizendo, lemos suas reações e nos maravilhamos com a perfeição divina do ser humano e toda a sua complexidade e dualidade? O pior sentimento do homem não é o ódio ou o medo, é a apatia.

“Um ser humano só cumpre o seu dever quando tenta aperfeiçoar os dotes que a natureza lhe deu” – Hermann Hesse

O nosso ‘buraco’ de cada dia

01/02/2018

buraco

Há alguns anos me deparei com um texto poético que atravessou a minha alma e atingiu diretamente o meu centro mais sensível e mais dolorido. Simples, mas extremamente profundo, de autoria de Sogyal Rinpoche, do ‘O Livro Tibetano do Viver e do Morrer’, levou-me a reconhecer e refletir como vivemos nossa vida no ‘modo automático’.

O texto, em primeira pessoa, começa com uma ação simples: andar pela rua. Só que há um ‘buraco’ na calçada, e, distraidamente, caio nele. Fico surpresa, me sinto perdida e sem esperanças, mas acredito que a queda não é minha culpa. Levo uma eternidade para sair dele.

Volto a andar pela mesma rua. O buraco continua lá, mas finjo não vê-lo e, consequentemente, caio nele novamente. Fico com raiva por ter caído novamente, me sinto injustiçada e sem esperanças, mas não é minha culpa e mais uma vez leva um tempão para sair dali.

Volto à rua. Percebo e visualizo o buraco, mas não resisto e caio novamente nele. É um hábito. Desta vez sei onde estou, sei porque caí, reconheço a minha responsabilidade na situação, e, por isso, saio imediatamente.

Ando pela mesma rua. O buraco ainda está lá, mas agora o contorno e entro em uma outra rua, onde talvez haja ou não um novo buraco. Sinto-me mais preparada para cair no próximo buraco…

E assim termina o texto.

A ciência confirma que cerca de 95% de todas as atividades executadas por nossa mente são automáticas, ou seja, são dirigidas pelo inconsciente, também conhecido como subconsciente, enquanto apenas 5% é controlado pela consciência. Assustador, não é?

Claro que isso acontece para não sobrecarregarmos nosso cérebro. Porém, isso faz com que a maior parte de nossas ações sejam transformadas em hábitos, e muito deles pouco saudáveis e nutritivos – assim como a metáfora de cair constantemente no mesmo ‘buraco’. Recondicionar, reprogramar, reescrever e até mesmo abandonar hábitos nocivos são desafios que exigem estratégias e muita determinação.

Voltando à analogia do ‘buraco’, somente à medida em que reconhecemos e nos responsabilizamos pela nossa situação, podemos mudar uma maneira de ser do ‘modo automático’ para o ‘modo consciente’, para o modo: ‘eu assumo minhas escolhas e todas as consequências que elas possam acarretar, acreditando na minha capacidade de transcendê-las’.

Lembrando a encantadora cena do filme Peter Pan: “Sim, eu acredito em fadas, acredito, acredito!”

Transgênero: quem não?

04/09/2017

transgênero

A personagem Ivana, da novela global ‘Força do Querer’, revelou recentemente para sua ‘tradicional’ e ‘bem-estruturada’ família, em um dos capítulos da trama, que não é do gênero feminino, mas sim masculino, ou seja, é um transgênero masculino. Para ela, não há mais dúvidas sobre a sua real identidade/identificação/gênero, a questão agora estava muito além: “Preciso saber se vocês vão me aceitar?”. Cacetada! Minha cabeça fez um looping!

Viajei – confesso – e me questionei sobre quantos de nós também não escondem a ‘verdadeira identidade’ em nome de uma mais ‘aceitável’ socialmente. Quem não é no fundo uma Ivana? É claro que a questão do folhetim é trazer à tona, para debate, os casos transgêneros sob todos os pontos de vista: social, emocional, científico, psicológico, rompendo todas as barreiras do que se conceitua como ‘normalidade’ e ‘padrão’, uma vez que Ivana, que está em processo de se tornar um homem, é apaixonada por um rapaz – isso mesmo, gênero é diferente de orientação sexual – e, para coroar a quebra completa de paradigmas, vai se descobrir grávida de seu ex-namorado nos próximos capítulos.

Cara, partiu para ao anarquismo total! Anarquistas, Graças à Deus! Isto que é um ‘sacode na geral’, com tudo o que se tem direito! O que garante a audiência desse núcleo da novela é, sem dúvida, a questão da aceitação familiar e social, ou seja, aproxima todos nós desse dilema: assumirmos verdadeiramente quem somos e garantirmos que todo o nosso potencial como contribuição para o mundo seja realizado. Sobretudo, pelo fato da autora da novela, Glória Perez, tocar em uma ferida que aproxima a todos nós: a angústia de Ivana é, acima de tudo, uma angústia existencial.

Me encanta esses ares do realmente novo, da transgressão, daquilo que foge das nossas ‘pobres caixinhas’ de conceitos, preconceitos, verdades ‘seguras’, convenções… A questão aqui não é destruir o que se conhece, mas enriquecê-lo, ampliá-lo, aceitar que a liberdade implica em acolher e lidar com o ‘realmente diferente’. A essência do que somos genuinamente vive apertada em nossas molduras sociais, tentando desesperadamente emergir e se realizar. Somos todos Ivanas… A maioria nem sequer tem consciência de suas ‘prisões’, o que dirá ter a coragem e ousadia de lutar para buscar suas realizações, seus propósitos, seus sonhos.

Eu também sou Ivana!

A paz nasce do confronto

11/08/2017

paz1

Durante todos estes anos acreditei que a sensação de paz fosse a ausência completa de conflitos, problemas, dificuldades. Exatamente por conta dessa ideia equivocada, assim que perdi meu emprego de mais de vinte anos (minha falsa ‘ilha de segurança’), me vi forçada pelas circunstâncias a, finalmente, buscar o que classificava com ‘uma vida mais simples e mais pacífica’. Aliás, frase que repetia no divã para minha amada psicóloga analítica e junguiana, ao que ela rebatia, abaixando os óculos: “Carol, a simplicidade está dentro de nós e não nos lugares ou situações. O que torna sua vida uma ‘guerra’ é o seu nível de exigência interno…”. Mas que, entrava por um ouvido e saia pelo outro (porém, na memória ficou graças a Deus!).

Então, se a vida estava muito complicada e bélica como jornalista, autossuficiente financeiramente e emocionalmente (oi?), minha resposta foi me tornar uma manicure, pagar aluguel de um apartamento bem pequeno e ‘mais simples’, e viver uma ‘vida de paz’ (substitua pela palavra escassez), reduzindo ao máximo as possibilidades de conflitos, problemas, caos, exigências.

De casa para o trabalho, do trabalho para casa, de preferência sem carro, comprando em apenas um supermercado, passeando apenas em um parque público. Resumindo: me tornei uma prisioneira do meu próprio conceito de paz e simplicidade.

Meu universo começou a ficar cada vez mais ‘pobre’, desértico e ‘miserável’. É bem verdade que reduzi as chances de ter que enfrentar algum problema a índices invejáveis, mas, definitivamente, estava gastando mais energia do que antes e me encontrava cada vez mais infeliz e exausta.

E foi tomando uma xícara de café com Hades – deus da mitologia grega que domina o reino dos mortos, um lugar onde só impera a tristeza – que percebi o meu engano. Alguma coisa estava muito errada e Hades, que tem o poder de restituir a vida, mas faz isso raras vezes, resolveu interceder por mim, me aconselhando a voltar para tudo aquilo que me era muito importante e havia deixado para trás buscando a tal ‘paz quimérica’.

Empreendi meu retorno às raízes então. E foi em uma aula de Biodanza, há alguns dias, que me deparei com a verdade, quando a minha mestra e amada facilitadora colocou uma música e disse que a consigna era: ‘dançar a paz’. Cara, que viagem! Literalmente ‘A paz invadiu o meu coração (e meu corpo) /De repente, me encheu de paz/Como se o vento de um tufão/Arrancasse meus pés do chão/Onde eu já não me enterro mais…’

A paz não exclui a guerra, o conflito – armado ou não. Ela está presente, nas batalhas diárias, no caos, na crise, nos confrontos. Ela está hoje permanentemente em mim. A paz se manifesta porque estou 100% conectada com a minha essência, meus valores, minha criança interior.

A paz ‘fez um mar da revolução’, ‘invadiu meu destino’. Não há mais sofrimento em relação ao futuro, lamentos em relação ao passado. Vivo o ‘poder do agora’, do que posso ser, sentir e fazer agora. Só a ‘guerra’ nos proporciona a oportunidade de viver o amor e a paz. Obrigadas mestras.

 

Precisamos falar sobre TOD

31/07/2017

DOT

A matéria de capa da ‘Revista Veja’, Edição 2540, de 26 de julho deste ano, ‘O novo mundo do autismo’, de acordo com informações que li, bateu recorde de audiência. A reportagem aborda os avanços científicos que cada vez mais facilitam e agilizam o diagnóstico do transtorno, cuja incidência é altíssima, acometendo uma a cada 68 crianças. O alto interesse é mais do que justificado, ainda mais quando levamos em consideração que estão abordando o futuro de ‘nossas crianças’.

Sim, eu disse ‘nossas crianças’. Sou de um tempo em que as crianças e adolescentes viviam nas ruas e brincavam nas casas dos vizinhos o dia inteiro. Em um tempo que todos, eu disse todos, os adultos agiam como educadores, na melhor acepção da palavra, cuidando dos filhos dos outros da mesma forma que cuidavam dos seus próprios rebentos. Além de almoçarmos, lancharmos e jantarmos na casa dos amiguinhos, às vezes até tomando banho lá, também levávamos broncas e até castigos quando pisávamos na bola. Tempos em que a comunidade se responsabilizava também pela formação de outros seres humanos em formação.

Bem, mas a questão aqui ultrapassa um pouco essa tônica saudosista. Acho fantástico que esse tipo de assunto seja mais do que discutido, seja incorporado e ressignificado, pois nossos filhos também representam nosso legado para a humanidade. Porém, trago uma questão que me aflige: quando as crianças com TOD serão destaque em revistas e programas televisivos com grande alcance? Quando finalmente a sociedade acolherá os seus filhos mais rebeldes e difíceis? Aqueles que demonstram um comportamento totalmente fora do que se classifica como ‘normalidade’ e ‘socialmente aceito’?

Quando li o livro e depois assisti ao filme ‘Precisamos falar sobre Kevin’- que conta a possível história familiar de um garoto norte-americano, de 16 anos, autor de uma chacina que liquidou sete colegas, uma professora e um servente no ginásio de um bom colégio do subúrbio de Nova York -, fiquei dias sob o impacto do trailer psicológico. Não por menos. Tenho um filho diagnosticado com o Transtorno Opositivo-Desafiador, mais conhecido pelas mães e psiquiatras pela sigla TOD.

Para resumir brevemente do que se trata, esse quadro leva a criança ou adolescente a severas dificuldades de tempo e de avaliação para analisar regras e opiniões alheias, uma forte intolerância às frustrações, com reações agressivas, impulsivas e intempestivas, sem qualquer controle emocional. Essas crianças são discriminadas na comunidade, têm dificuldades de convivência familiar e social, criando obstáculos para a formação de vínculos afetivos. Sofrem bullying na escola, são retiradas de eventos sociais e de programações e festas escolares por conta de seu comportamento difícil, cujo limite entre o que é patológico e o que é manipulação, birra ou vontade, está sempre em movimento, deixando aos país e responsáveis a difícil tarefa de decidir, de maneira totalmente empírica, a melhor maneira de ‘manejar’ a situação.

Entre os irmãos, são preteridos, mal falados e considerados verdadeiras ‘ovelhas negras’ da família, diferentes e ‘fora do potinho’. Muitos pais evitam sair ou passear com essas crianças e adolescentes, e raramente conseguem deixá-las com alguém, seja babá ou mesmos parentes. Muitas mães inclusive não conseguem trabalhar, uma vez que cumprem uma longa rotina com psicólogos, psiquiatras, pediatras, fonoaudiólogos, atividades físicas como esportes, atividades artísticas e culturais, além da diária correria até o colégio onde estudam, seja particular ou público, para ‘apagar’ os incêndios que acontecem diariamente, com episódios de agressão física e verbal e descontroles emocionais que beiram a histeria. A maioria faz tratamento para patologias como depressão, síndrome do pânico, fobias, TOC, entre outros…

Esse transtorno é praticamente desconhecido pela sociedade, principalmente no que se refere à população mais carente de informações. Muitos acreditam que se trata apenas de uma questão de autoridade e disciplina, mas estão enganados. A questão é bem mais complexa  e a ciência do comportamento ainda está ‘engatinhando’ tanto no diagnóstico preciso desse transtorno, quanto em um tratamento  realmente eficaz e remissivo. Precisamos urgentemente falar, debater, discutir, estudar e aprender como conviveremos com os TODs. Eles estão por aí, em toda parte…

 

Essa é a hora de mudar seu mindset!

24/07/2017

perfeição

Agora, à beira dos 50 anos, é que, efetivamente, estou conseguindo mudar meu mindset. E isso tem sido tão maravilhoso, que tenho vontade de me prostrar no chão em posição de reverência e agradecimento ao universo (Divino) o tempo todo por essa verdadeira graça.

Mindset… ou seja, mind = mente e set = configuração, chegando a configuração da mente. Ainda não está ligando o nome à pessoa? Eu explico.

A palavra de origem inglesa pode ter várias traduções. Entre elas: crença, atitude, paradigma, mentalidade, forma de pensar, processo mental, modelo mental, entre outras. A expressão é muito usada nas psicologias cognitiva, positivista e na Programação Neurolinguística (PNL). Ela se refere a um conjunto de pensamentos subconscientes (ou seja, não temos consciência de sua atuação quando são acionados) que governam outros pensamentos no momento em que interpretamos estímulos e situações externas.

Por se manter abaixo da linha de consciência, esse modelo mental impacta sobremaneira a nossa vida e a sua modificação, transformação ou minimização traz profundos efeitos à nossa atual realidade, principalmente no que se refere a reconhecer e trabalhar nosso talentos, potenciais e capacidades.

Mas acredito que para entender claramente do que se trata, nada como uma história pessoal. Fui criada em uma família com seis irmãos, com diferença de um ano e meio no máximo entre cada gestação. A disputada pela mínima atenção dos pais era voraz e cada um se virava, ou tentava se sobressair, da maneira que podia.

Com base nas minhas observações dentro do universo infantil, decidi que o melhor caminho seria ser a filha ‘perfeita’: a mais educada, a mais disciplinada, a mais estudiosa, a mais cordata, a que menos exigia algo para si. Conclusão: toda vez que apresentava um resultado excepcional (na minha visão…), como um boletim repleto de notas dez, meu pai olhava firmemente nos meus olhos e dizia: “O que você espera de mim? Palmas?  Parabéns? Você não fez isso pra mim, você fez para você mesma. Não fez mais do que a sua obrigação!”.

Ok. Raciocínio coerente para um adulto, mas inócuo para uma criança que buscava aprovação e afetividade. Inócuo não, ele se provou ao longos dos anos muito pernicioso. Bem, aqui não cabe críticas, julgamentos e nem censura. Os pais, como costumo dizer, são os mais humanos dos seres humanos. Isso diz tudo…

Enfim, essa frase se tornou uma crença que ecoa dentro de mim em qualquer situação na qual que tenha talentos ou virtudes merecidamente reconhecidos. Nunca – eu disse nunca – consegui entrar na sala de qualquer chefia e reivindicar um aumento, promoção ou vantagem pelo meu trabalho, afinal: ‘não fiz mais do que a minha obrigação!’. Quando alguém me elogia espontaneamente, primeiro olho para os lados para ter certeza de ela está falando de mim, depois escuto ‘a voz’ interna: “Como assim? Essa pessoa não percebe que não faço mais do que a minha obrigação?”. E assim caminhei por toda uma vida.

Mas chegando próximo ao meu cinquentenário (estou com 49), me deparo com uma grande virada de vida, que me levou a me formar como coach e a finalmente a reconhecer e estabelecer um diálogo com essa ‘voz interna’, com essa crença, com esse mindset. Mudar completamente acho difícil, até porque essas crenças também apresentam um lado altamente positivo. Quer ver?

Buscar ser ‘perfeita por obrigação’ me fez mais disciplinada, mais ética, mais determinada, menos palco e mais plateia, mais formiga e menos cigarra, qualidades que me trouxeram onde estou hoje: verdadeiramente feliz e centrada, na minha essência. O segredo? A reformulação das crenças que me limitavam. Uma delas agora ficou assim: “Tenho que ser perfeita, mas sou humana e tenho meus limites”. Outra: “Não fiz mais do que a obrigação, mas reconheço todas as minhas virtudes e talentos para alcançar esse resultado. Finalmente a grilhão se rompeu…

‘The Walking Dead’ tupiniquim

03/07/2017

zumbis

Quando assisti ao filme ‘A Volta dos Mortos-Vivos’, em meados da década de 1980, tinha 19 anos e era aficionada, assim como a minha mãe, por películas de terror. Fiquei impressionada. Afinal, o roteiro era bizarro, completamente absurdo, contando a história de uma cidade que, graças a um vazamento de uma substância estranha, vê seus antepassados literalmente saindo das tumbas dos cemitérios para o pânico geral dos moradores – especialmente de um grupinho de jovens que uma escola local, da qual fazia parte até uma punk de cabelo vermelho que adorava andar pelada (que por coincidência se chamava ‘Trash’). Os zumbis tinham até ‘grito de guerra’, saindo pelas ruas enlouquecidos e gritando “MIOLOS!!! MIOLOS!!!”. Isso porque eles precisavam se alimentar de cérebros humanos.

O motivo? Bem, daí é preciso assistir ao filme pra saber. Ou nem tanto…

Reportagem especial da TV Record, no domingão do dia 2 de julho deste ano, me arrepiou inteira e me garantiu que a série norte-americana ‘The Walking Dead’ pode ser fictícia nos EUA, mas aqui no Brasil é oura realidade. Com a narração da atriz Beth Goulart, a matéria mostrou o que não se pode ver pelos noticiários sobre o cotidiano da Cracolândia, em São Paulo, maior ponto de uso de drogas a céu aberto do mundo. Pessoas totalmente destruídas física, psíquica e emocionalmente pelo consumo da droga.

Essa horda de viciados em crack cresce a uma velocidade surpreendente. E eles são iguais aos mortos-vivos do filme que assisti: parece que não têm alma, sentimentos, capacidade de raciocínio, quaisquer parâmetros que os torne ou os defina como humanos. Se movem como cadáveres apodrecidos em busca do ‘alívio para aa dor da existência’ por meio das drogas.

Não é só deprimente, é apavorante como em um filme de terror. Para eles, que claro, também são vítimas, qualquer violência é justificável para se conseguir o que precisam para acabar com a fissura. Nesse momento, nenhum amor sobra, nenhum vínculo sobrevive, nenhuma recordação ou lembrança coexiste com as drogas, aliás, nada coexiste com as drogas.

No final do filme que vi há tantos anos, o governo norte-americano, impotente diante da situação de descontrole na cidade povoada pelos zumbis, decide pela saída mais fácil: dizimar tudo com uma megabomba. Assim também eu me sinto diante do insustentável domínio das drogas na sociedade: impotente.

Não sei quando estarei frente a frente com um morto-vivo batendo no vidro do meu carro, com olhos parados e mortos, iguais aos dos peixes, olhando algo além de mim, gritando: “Dinheiro!! Dinheiro!!”, em vez de: “Miolos!!, Miolos!!”, e muito menos qual será o resultado desse encontro. Me pergunto em qual momento a sociedade e seus governantes se darão conta da gravidade desse real ‘filme de terror’ e quais decisões serão tomadas para que, de fato, esses seres humanos sejam resgatados de volta à vida… Quando tinha 19 anos, acreditava que o filme era apenas ficção. Hoje, sei que ficções muitas vezes são janelas do futuro.