Nascido sob o signo do ‘macho’

10/04/2017

é um menino

Dia desses, em uma conversa informal sobre adolescentes, eis que escuto uma mãe dizer, sem qualquer escrúpulo u consciência: “As mães que segurem suas ‘cabras’ dentro de casa, que o meu ‘bode’ está solto!”. Oi? Como assim? Quer dizer que mais uma vez a culpa mais uma vez é da mulher? Para gente! O machismo é destruidor para ambos os lados: fere a possibilidade de o feminino e o masculino serem saudáveis e nutridores.

Tema bem espinhoso. É difícil escrever sobre algo que entendo tão pouco, o machismo, embora hoje, por ter um filho homem, me seja do maior interessante. O universo masculino me é totalmente incompreensível (e assim deve ser), distante e ameaçador (aí, já acho que poderia ser bem, bem, bem menos…).

Por um lado, escuto mulheres reclamando dos homens: que são infantis, que se comportam como filhos, que são insensíveis para as questões femininas, são pouco cavalheiros, nada heroicos, que colaboram pouco com a rotina doméstica e com a criação dos filhos, e por aí vai… Do outro lado, dos homens, penso eu, não devem também faltar reclamações, porém, tenho pouca intimidade com esse universo e não saberia discriminá-las.

De qualquer maneira, longe de focar a questão do relacionamento amoroso sob o ponto de vista das reclamações, o que me intriga é perceber que esse mesmo homem, do qual ‘ELAS’ falam tão mal, é justamente criado e educado por ‘ELAS’. Ou seja, está clara a necessidade de uma profunda reflexão sobre o papel da mãe na vida do homem, e mais, do ser humano. Não há coerência entre o que se quer, o que se pensa, o que sente e o que se faz.

É claro que sabemos a importância do modelo masculino para os meninos, principalmente a partir dos 5 anos. Porém, a convivência com a mãe, principalmente até esse patamar de idade, é quase que integral e totalmente dependente. Me parece que muito desse tempo com essa mulher, a mãe, determina uma grande parte dessa formação e de como o feminino será encarado no futuro.

Com a menina, a filha, sinto que é igual, mas de forma diferente. Embora, como com o menino, sua experiência com o masculino, o pai, seja extremamente importante na maneira como ela verá e se relacionará com ‘ELE’, avalio que ainda será muito mais determinante a mensagem que a mãe passará sobre a sua visão (nada consciente) e a sua relação na prática com esse masculino (o pai).

Posto isso, entro um pouco mais: o filho nasce carregando a projeção de perfeição gerada pelos pais. Carga pesada, que fica mais pesada ainda quando incorpora a projeção do que seria o masculino perfeito para a mãe, geralmente o que não é encontrado junto ao companheiro ou homens com os quais a mãe se relacionou e se relaciona.

Ouço mães chamando seus filhos de “meu príncipe”, “meu rei”, “meu homenzinho”, “o homenzinho da casa”, “que vai cuidar da mamãe quando crescer”. Expressões que chegam a me arrepiar porque carregam tintas fortes demais.

Para complicar um pouco mais, tudo isso se passa em um mundo paralelo, o da inconsciência, ou seja, não sabemos “conscientemente” qual o nosso real sentido, visão e relação com o sexo oposto, nem quais os desejos “submersos”, cuja energia é similar à de uma bomba nuclear, dirigidos aos nossos filhos (sejam eles homens ou mulheres).

Bom, daí pra frente começa a sair “fumacinha” da minha cabeça porque a questão é complexa. Não tenho a pretensão de achar que não contaminarei o Davi com as minhas projeções e questões com o masculino. Mas, neste espaço, expresso minhas angústias e tento reafirmar e lembrar com a maior frequência possível que tenho importantes lições de casa para fazer, por mim, por meu filho e pelas pessoas que amo e me amam:

1) Aprender a reconhecer as qualidades dos homens e pedir a ajuda ao masculino;

2) Aprender a receber e ser nutrida por essa energia ímpar;

3) Me abrir para o novo e diferente;

4) Aprender a ser passiva e aceitar ser comandada algumas vezes;

5) Reconhecer e mostrar as minhas fragilidades;

6) Compartilhar e dividir;

7) Estabelecer um vínculo amoroso e sexual com o masculino nutridor e vivenciar uma relação madura e calcada na generosidade e tolerância;

“Nada fácil de entender” disse Renato Russo. “Você diz que seu pais não o entendem, mas você não entende seus pais. Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo, são crianças como você. O que você vai ser quando você crescer…”

Quando ‘Eu’ sou o ‘Outro’

06/04/2017

CNV

A empatia pode ser explicada, simplificadamente, como: ‘a capacidade de estar no lugar do outro’. Eu já acho que a coisa é bem mais complexa, assim como o segundo mandamento mais importante do Cristianismo: “Amai ao próximo como a ti mesmo”. Enfim, não é sobre religião que quero falar hoje e sim de uma ‘nova’ técnica de comunicação com o outro: a comunicação não violenta (CNV).

Basicamente, se trata de um processo científico contínuo desenvolvido pelo psicólogo norte-americano Marshall Rosenberg, com uma equipe internacional de colegas, que defende a prática de relações de parceria e cooperação, nas quais a predominância seja a comunicação eficaz e empática, enfatizando importância de aproximação dos valores comuns entre o emissor e o receptor da mensagem.

Um dos fundamentos-chave da CNV é a capacidade de se expressar sem usar julgamentos (“bom” ou “mau”, “certo” ou “errado”). A ênfase é dada na revelação dos sentimentos e necessidades de cada um. Em outras palavras, você pode falar o que quiser com o outro, desde que use o caminho do respeito e da afetividade. Desde que se coloque no lugar do outro e fale da mesma maneira como gostaria que o outro falasse com você sobre aquele mesmo assunto. Tenho a impressão que Jesus já entendia completamente esse conceito quando formulou o seu segundo mandamento…

Canso de ver pessoas baterem no peito com orgulho ao declararem que “falo mesmo o que penso para qualquer um”. É, deve ser bem mais fácil ‘vomitar’ tudo o que se pensa como se fosse a única verdade absoluta. ‘Tratorar’ o outro não exige ‘lapidação humana’, o sistema é bruto, e pronto.

Minha experiência me provou que, muitas vezes, ficar em silêncio ante uma afirmação é um ato de amor. Mesmo que a gente saiba e veja o outro dando com a ‘cabeça na parede’ e sangrando, é preciso amor, solidariedade e, principalmente, sensibilidade para perceber se o outro pode ouvir o que temos a dizer, mesmo que a nossa intenção seja a melhor possível. Às vezes, não é o outro que precisa ouvir naquele momento. Somos nós que não conseguimos ficar com aquilo que nos incomoda no outro. O que o outro nos espelha.

Sabe, às vezes, somente podemos pegar na mão de quem sofre e rezar em silêncio para que ele possa se fortalecer minimamente para que possamos ajudá-lo. Não é o ouvido que escuta. É a alma. E não conseguimos avaliar o quanto ela muitas vezes está fragilizada e ferida.  A que se ter compaixão do outro. Assim como gostaríamos que tivessem conosco.

Redenção à minha adolescente assediada

30/03/2017

assedio

Acreditei que iria morrer sem conseguir ver alguma ‘redenção’ à minha adolescente assediada. Com a divulgação dos mais recentes relatos de casos de assédio sexual, que estão sendo discutidos na imprensa, de forma geral, universidades, escolas e pela sociedade como um todo, retornei aos anos da adolescência e isso mexeu muito comigo. Sem querer me vi me lembrando de todas as situações de alto risco pelas quais passei naquela época sozinha. Assédios sexuais, transas sem verdadeiramente querer, mas sem alternativa ou escape, e até um assédio na empresa em que trabalhei por 17 anos. Quando tentei denunciar a violência, chorando, anda tive que ouvir a chefia rir e dizer eu estava ‘exagerando’, que “eu estava abafando”…

Depois de quase um ano mandaram o ‘tal’ embora. Isso porque uma outra jornalista, com menos sentimento de culpa talvez do que eu, ameaçou ir à delegacia e registrar um B.O. Só assim eles demitiram o cara.

Penso que é incrível como nós, mulheres, sobrevivemos à nossa adolescência tão sozinhas, cada uma nas suas ‘agruras’, sem poder contar com ninguém. Minha alma ‘sangra’ quando me lembro de tudo o que já passei e nunca pude contar, com medo de alguém virar, e, em vez de me apoiar, dar a resposta mais simples e usada como justificativa para a chamada ‘Cultura do Estupro’: “A culpa foi sua, porque estava no lugar errado, vestindo a roupa errada, tomando as decisões erradas, com as pessoas erradas”. Ou seja: quem mandou, né?

Triste pensar que as pessoas, quando sabem de casos de violência sexual, param para discutir e saber se a vítima ‘gostou’ ou não, sem terem conhecimento de que as pessoas que sofre estupro, sejam elas mulheres ou homens, além de terem que viver com todo o trauma, ainda precisam se  ‘perdoar’ por, muitas vezes, seus corpos terem reagido com supostas ‘manifestações físicas de prazer’, quando na verdade estavam literalmente mortas por dentro.

Inacreditável qualquer um questionar esse tipo de coisa. Desumano. A moral ou o comportamento da vítima não está em julgamento. Houve um crime, ponto. O crime está previsto em lei e ela deve ser cumprida rigorosamente, com a apuração dos envolvidos e sua punição efetivada devidamente. Aff! só desabafando… Fico feliz que o assunto esteja sendo levado à discussão pública, mas ele ainda mexe com as minhas feridas… Talvez por isso muitas mulheres se sintam incapazes de se relacionar com o masculino saudável. Porque se sentem acuadas e ameaçadas. Espero que ainda haja tempo pra mim nesta encarnação…

O medo do dique romper paralisa a vida

28/03/2017

dique

“Tenho medo de ir olhar o que me aconteceu no passado e com isso romper o dique que contém o sofrimento de toda uma vida. Tenho medo de começar a chorar e de nunca mais parar. Acabar literalmente afogada em minha próprias lágrimas e dor.” Foram com essas palavras que minha mãe um dia justificou o fato de nunca ter procurado uma terapia quando volta e meia entrava em mais um processo de depressão.

Quem pode julgá-la? Ninguém. Vítima de vários tipos de abusos na infância e adolescência, minha mãe sofreu a vida inteira de Transtorno Depressivo Maior grave. Criou seis filhos, cinco meninas e um menino, que foi adotado com 2,5 anos, a ‘rapa do tacho’. Uma guerreira que lutou pela própria vida por amor aos seus filhos e marido. Pra mim, uma verdadeira heroína.

Me lembro de em alguns momentos ter sentido também essa espécie de ‘medo de romper o dique da dor’, acreditando que ela iria me devorar. Mas eu fiz terapia, por uma década, e fui percebendo que quando você encara o ‘dragão’, percebe rapidamente que é apenas uma ‘lagartixa’.

Sei agora que o medo, esse sim é o grande vilão. É ele que nos paralisa na ‘fantasia’ de que não poderemos suportar tanto sofrimento. Realmente, não podemos, devemos, se queremos ter uma vida minimamente ética e ‘rica’ de aprendizados, emoções, experiências, com trocas de amor nutritivo.

Somente pode desfrutar do prazer de andar na ‘montanha-russa da vida’, chegando no ponto mais alto enquanto ela sobe e nos deixa ser ar de tanta expectativa e alegria, quem tem o ‘culhão’ de saber que terá que enfrentar também o frio na barriga, e às vezes até a ânsia, durante a descida veloz e implacável. É possível levar uma vidinha ‘controlada’ (dentro das possibilidades, é claro) e estável? Lógico que sim. Porém, eu pergunto: qual é mesmo a graça disso? Alguém logo responderá correndo: “Ah! A graça é que nunca mais sentiremos medo!”. É mesmo?

Quem tem um potencial de vida plena e erótico (termo aqui usado no sentido de prazer e energia criativa inesgotáveis para tudo) e ‘escolhe’ construir um dique, com medo de ficar submerso na transcendente vitalidade – que pode sim nos levar a um outro patamar de autoconhecimento e evolução -, acaba cavando uma depressão maior. E se convence que ela é muito mais segura do que a ‘dor’ de enfrentarmos os nossos próprios dragões.

Só posso dizer: são escolhas. Tive momentos em que escolhi a depressão maior. Mas fico feliz perceber em constatar que, no frigir dos ovos, escolhi, mesmo que inconscientemente, andar na montanha-russa.

 

 

Quando as perdas se tornam insuportáveis

25/03/2017

vendedor de sonhos

Um dia desses, me lembrei de padre católico Marcelo, quando, pele e osso, deu uma entrevista da televisão, na qual ‘confessava’ que achava que depressão era coisa de gente sem fé, ‘frescura’, e defendia que quem sentia compaixão e ajudava ao outro não tinha tempo para ficar deprimido. Bem, isso até ele mesmo ser acometido pela doença…

Eu também já subestimei o ‘mal do século’. Acreditava que o agravamento da depressão era o resultado da falta de força de vontade do paciente em buscar ajuda. Diferentemente do que muitos pensam, a doença atinge várias áreas químicas do cérebro, como os neurotransmissores. Dois elementos identificam esse mal: uma tristeza patológica, que não tem fim, e a absoluta incapacidade de sentir prazer.

Como aprendi sobre isso? Da pior maneira: sentindo na pele – da mesma forma que o padre Marcelo.  Graças a Deus não durou mais do que três meses com a ajuda de medicamentos, exercícios físicos e, principalmente, o acolhimento da família e dos amigos. Mas o que quero mesmo apontar é que a dor existencial é tamanha quando somos acometidos pela doença, em sua face mais grave, que os atos de respirar e abrir os olhos pela manhã se tornam absolutamente insuportáveis.

O tema é extenso, e só mesmo quem esteve nesse limiar sabe exatamente sobre o que estou falando.  Hoje, na biblioteca do Sesc-Campinas, resolvi pegar um livro de Augusto Cury, com o título “Nunca desista dos seus sonhos”, que teve também um filme em cartaz recentemente no cinema nacional: “O vendedor de sonhos”. Deparei-me com palavras que me tocaram por descrever o resultado de quem ‘se perde’ e ‘perde seus sonhos’:

“Sem sonhos, as perdas se tornam insuportáveis. As pedras do caminho se tornam montanhas. Os fracassos se transformam em golpes fatais. Mas, se você tiver grandes sonhos… seus desafios produzirão oportunidades e seus medos, coragem. Nunca desista de seus sonhos”.

O mar, a onda e a marola…

25/03/2017

mar profundo

 

Eu sou o mar,

Mas me comporto com uma onda

quando não me coloco no lugar do outro,

quando finjo não enxergar a mim mesma sendo refletida em alguém

que espelha, sem saber, dores imemoriais, próprias da humanidade..

Eu sou o mar, mas me comporto como uma onda

quando me precipito sobre os meus sentimentos,

quando ignoro o grito do meu Self, da minha alma

que pede acolhimento, compreensão e amor.

Eu sou o mar, mas me comporto como uma marola

quando me calo frente às injustiças

quando escolho me omitir para evitar conflitos

quando me esborracho na terra firme, por não ter a humildade de reconhecer que preciso de ajuda

Eu sou o mar, mas me comporto como uma marola

quando uso situações e pessoas como desculpas para não fazer o que preciso

quando reluto em aceitar os meus limites,

Quando super avalio até onde posso ir,

Quando me deixo adoecer por querer ser autossuficiente

Eu sou o mar, mas me comporto como uma marola

quando permito que o outro me desqualifique,

quando não busco os desafios, com medo de não ser suficiente

quando deixo que a ‘perfeição’ me escravize sem ter, em nenhum momento,

a possibilidade de entrar no oásis da compaixão

Eu sou o mar, mas me comporto como uma onda

quando esqueço que sou una e integrada ao universo,

quando busco a divindade e o sagrado fora de mim,

quando deixo de agradecer por estar viva todos os dias.

Mas eu sou o mar.

Profundo, misterioso, inesgotável.

Basta apenas que eu tenha coragem para mergulhar nas minhas águas

e de lá trazer todas as riquezas e diversidades que me tornam uma pessoa única em bilhões

Não quero ser onda e nem marola toda uma vida…

Busco assumir a minha extensão, mesmo entendendo que,

assim como não sei quase nada sobre o mar,

também não sei o suficiente sobre todo o meu potencial.

E me surpreendo comigo mesma a cada subida para puxar o ar,

para então novamente buscar as minhas profundezas.

Sou o mar quando me deixo levar pelas águas,ora tranquilas, ora violentas, entendendo que tudo faz parte desta trajetória divina e sagrada chamada VIDA.

DESAFIO: libertar o filho

18/08/2011

Libertar um filho é o maior desafio de uma mãe. Uma missão que exige fé incondicional , entrega e abandono nas mãos do Mistério. Sinto até ânsia e um friozinho na barriga… Libertar um filho é acreditar que a vida dará generosamente o que for necessário a ele. Acreditar que quando ele sentir frio, o universo se encarregará de aquecê-lo. Quando sentir sede, alguém lhe dará um copo d’água. Quando sentir dor, será consolado com tanto amor e dedicação como se fosse a própria mãe. Libertar um filho é acreditar que, embora você queira ser até mesmo o ar que ele respira, não é. Que ele pode ser feliz e realizado plenamente mesmo que você não esteja lá para ver e compartilhar disso. Libertar um filho, antes de tudo, é também se libertar dos aspectos negativos da maternidade. Dar espaço para encontrar o vazio, para depois preenchê-lo com outros sentidos e agredecer com fervor por ter passado tanto tempo sendo alimentada e abençoada pela nutrição do amor materno. Maternidade é estado de graça. É divindade.
Em algum momento no futuro que se desenha e se concretiza me encontrarei novamente com a Ana Carolina mais íntegra, mais inteira, não mais a fortemente materna. Desse encontro acharei as minhas repostas e me depararei com os meus vazios a serem preenchidos. Sobre o meu filho, restará a esperança e fé de tê-lo instrumentalizado o suficiente para que siga em frente, independentemente da minha existência e interferência, em contato estreito com o Universo. Que ele peça e seja prontamente atendido. AMÉM!

A volta dos mortos-vivos

17/06/2011


Quando assisti o filme “A Volta dos Mortos-Vivos”, em meados da década de 1980, tinha 19 anos e era aficionada, assim como a minha mãe, por películas de terror. Fiquei impressionada. Afinal, o roteiro era bizarro, completamente absurdo, contando a história de uma cidade que, graças a um vazamento de uma substância estranha, vê seus antepassados literalmente saindo das tumbas dos cemitérios para o terror geral dos moradores – especialmente de um grupinho de jovens que uma escola local da qual fazia parte até uma punk de cabelo vermelho, que adorava andar pelada (que por coincidência se chama “Trash”). Os zumbis tinham até “grito de guerra”, saindo pelas ruas enlouquecidos e gritando “MIOLOS!!!!!! MIOLOS!!!!!”. Isso porque eles precisavam se alimentar de cérebros humanos.
O motivo disso? Bem, daí é preciso assistir ao filme pra saber. Ou nem tanto…
Não é que estava parada no semáforo aqui na Vila Industrial, a caminho de buscar o Davi na escolinha, e praticamente revivi cenas do filme em plena luz do dia? Um “morto-vivo” viciado em crack ou oxi (vai saber…) batia desesperadamente nos vidros dos carros e, ao invés de gritar “miolos!”, gritava “dinheiro!”, o que obviamente seria usado para comprar mais droga.
A lembrança forte do filme me surgiu quando ele chegou próximo ao meu vidro (que estava fechado… ai, que medo…) e pude olhar bem para o seu rosto. Descalço e com pouca roupa para aquele frio, parecia não sentir nada. Estava completamente anestesiado. Não havia qualquer traço de vida ou de humanidade. Olhos parados e mortos, iguais aos dos peixes. Ele não me via. Olhava algo além. Ficou parado, juro, igualzinho aos zumbis do filme, gritando “Dinheiro! Dinheiro!”. Sinceramente, me deu até desespero.
Essa horda de viciados em crack e oxi cresce em velocidade surpreendente. E eles ficam como os mortos-vivos: não têm alma, sentimentos, capacidade de raciocínio, quaisquer parâmetros que os torne ou os defina como humanos. Se movem como cadáveres apodrecidos em busca do “alívio para a existência” por meio das drogas. Não é só deprimente, é apavorante, como em um filme de terror. Para eles, que claro, também são vítimas, qualquer violência é justificável para se conseguir o que se precisa. São este mortos-vivos que hoje matam indiscriminadamente, com alto nível de banalização. Nada escapa: mãe, pai, filho, mulher, nenhum amor sobra, nenhum vínculo sobrevive, nenhuma recordação ou lembrança co-existe com as drogas, aliás, nada co-existe com as drogas.
No final do filme, o governo norte-americano, impotente diante da situação de descontrole na cidade povoada pelos zumbis, decide pela saída mais fácil: dizimar tudo com uma megabomba. Assim também eu me sinto diante do insustentável domínio das drogas na sociedade: impotente. Não sei quando estarei frente a frente de novo com um morto-vivo, e menos ainda qual será o resultado desse encontro. Me pergunto em quê momento a sociedade e seus governantes se darão conta da gravidade deste filme de terror e quais decisões serão tomadas…Quando tinha 19 anos, acreditava que o filme era apenas ficção. Hoje, sei que ficções muitas vezes são janelas do futuro.

Aplausos silenciosos…

26/05/2011

Acordar hoje e fazer exatamente as mesmas tarefas de todo o dia não poderia ter tornado meu aniversário mais especial. Acordei com uma agradável sensação de realização e plenitude. Sabe aquele vídeo que anda rodando por aí, de uma moça que pega uma garrafa pet no chão e joga no lixo e todos se levantam para bater palmas para ela e ela fica olhando surpresa, como quem diz: “palmas por fazer alguma coisa por prazer e não por dever?”? Pois é, me senti o dia inteiro como essa moça. Como se o mundo se levantasse e batesse palmas pra mim também. Aos 43 anos acredito que fiz alguma coisa da minha vida. Acredito que fiz do outro alguma coisa na minha vida. Sinto que fiz e faço a diferença neste mundo todos os dias. Uma boa sensação de quem acredita na construção e na trajetória que fez até agora. E é claro, tem Davi. O maior presente que o universo poderia ter me dado. Se não bastasse tudo isso, recebi muitos abraços gostosos e votos de todo o tipo dos meus amados: amigos e família. A todos e a tudo: MUITO OBRIGADA!

A segregação dos “trouxas”

13/05/2011

Os “trouxas” (ou muggles, na tradução inglesa), conceito usado na série de livros de ficção Harry Potter, são personagens que não possuem poderes mágicos, não são bruxos e nem magos. São apenas pessoas comuns. A autora afirmou que sua intenção foi usar a palavra “trouxa” na conotação de fool, gíria usada por minorias para se referir a pessoas de fora. Aqui no nosso mundinho real também temos os “trouxas”, tribo da qual sou integrante. Nasci de família de trouxas, vivo como trouxa e crio meu filho como um futuro trouxa.
Só que aqui, no nosso mundinho, trouxa é todo aquele que acredita e vivencia a ética, a lei e leva em conta o direito do outro, muitas vezes, acima mesmo dos seus próprios direitos e interesses. Na adolescência, cheguei a ter raiva de ser trouxa. Acabava sendo deixada de lado, rotulada como “certinha”, “ajuizada demais”, “chata” e claro “trouxa”. O problema é que não conseguia ser “esperta” como outros jovens com quais convivia. Não sabia dar um jeitinho… Só de pensar em fazer alguma coisa fora dos meus parâmetros de valores, tinha dor de barriga e ficava com a mão gelada e suada.
Uma vez, por volta dos 12 anos, fui com colegas de classe ao supermercado e as meninas resolveram “pegar” uns batons sem pagar. Quando ouvi isso fiquei paralisada e logo fui dizendo que de jeito nenhum faria isso. Elas nem ligara, me chamaram de “covarde” e saíram do local com os batons escondidos dos bolsos. Eu fiquei morta de vergonha por elas e me distanciei. É claro que depois disso a amizade não foi a mesma.
É como andar com a “turminha da maconha” sem gostar de fumar maconha. No começo é divertido. Gente diferente, assuntos diferentes… Só que com o passar do tempo, você percebe que é um “peixe fora do aquário”. Não há um compartilhar, uma vez que não existe afinidades. Os assuntos começam a se repetir. Lembro que comecei a achar aquele povo muito chato e sem sentido. Fumavam e ficavam “viajandão”, falando coisas desconexas, rindo à toa. E eu ali, totalmente lúcida, escutando aquele monte de “m****”. Depois de um tempo, saí fora. Fui procurar uma tribo mais parecida comigo.
Lembro que fiquei horrorizada em ver as minhas “amigas|” roubando os batons… Na minha cabeça, vinha a frase que meu pai repetia para nós constantemente: “quem rouba um grampo rouba um milhão. Nos dois casos, o autor é ladrão.” Só de pensar que eu poderia ser pega fazendo uma coisa assim ficava com taquicardia e a certeza de que infartaria e morreria. E se isso de fato não acontecesse, meu pai trataria de me mandar para o “outro mundo” apenas com o olhar. Sou do tempo em que pai fulminava filho só com o olhar.
Até chegar aos quarenta anos, fui trouxa respondendo antes de tudo à essa voz interna do Pai, do censurador interno que todos nós construímos na nossa psiquê, com base nos exemplos de mestres, professores, pais e vínculos afetivos importantes. Mas, com a maturidade, percebi que sou mesmo “trouxa” por que quero e acredito nisso. Mesmo entendendo que muitas vezes “perco” sendo “trouxa”, me encontro em um seleto grupo que sabe realmente o valor, peso e a representatividade das palavras ética e dignidade na vida.
Não tenho varinha de condão, nem pó do pirlimpimpim. Quando preciso ir ao banco, entro na fila e espero. Quando não há vaga no estacionamento, ou desisto, ou pago uma particular ou vou à pé. Quando tenho meu cartão de banco clonado, fico horas ao telefone e faço via crucis nas agências bancárias até conseguir resolver o problema.Quando bato levemente o carro, deixo um cartão com o meu telefone para reparar o prejuízo, mesmo quando tantos lascaram meu carro inteiro e nunca se identificaram… O que fazer, eu sou mesmo uma “trouxa”…