Chronos, o ‘devorador’!

01/05/2017

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Deus da mitologia grega, Chronos, que personifica o ‘Senhor do Tempo’, é comumente conhecido como aquele que tudo devora, ainda que também ‘gere’ tempo. Ele é ‘O Devorador’. Não sem motivos. Ele representa o nosso tempo terreno, aferido pelos segundos, minutos, horas, dias, meses, anos, décadas, e assim por diante. É implacável, um ancião que não admite negociação e nem postergação. Do seu nome se originou a palavra cronômetro.

É com ele que nos digladiamos no esforço de cumprir todas as tarefas planejadas a cada dia e de entregar tudo o que foi proposto e prometido por nós, e que, automaticamente, também nos será cobrado.

Na outra ponta, temos outra divindade grega relacionada com o tempo: Kairós (em grego: καιρός, ‘o momento oportuno’, ‘certo’ ou ‘supremo’), que, ao contrário de Chronos, faz sua própria contagem e passagem de tempo. Ele é ilustrado como um jovem nu, alado, que somente pode ser pego, agarrado, em sua passagem por nós no ‘agora’, no presente, já. Depois, impossível alcançá-lo.

Kairós tem em uma das mãos uma balança, simbolizando o equilíbrio e a justiça. Embora veloz, não ultrapassa a medida. Para muitos, ele também representa o nosso tempo interno, do amadurecimento, das emoções, das fases da vida.

O embate entre esses extremos é diário no dia a dia e impacta sobremaneira o nível de produtividade das pessoas em qualquer âmbito, seja profissional, social ou pessoal.  Por uma série de ideias e crenças limitantes, acabamos muitas vezes nos tornando um procrastinador, adiando todo tipo de ação, atividade e decisão. Não por preguiça ou escolha, mas por desconhecer os prejuízos de deixar pra mais tarde compromissos e postergar ações que podem ser realizadas agora. Outras questões também pesam, o medo, a ansiedade, insegurança, não gostar da tarefa, entre outras.

Protelar, tardar, atrasar, pospor, demorar, espaçar, prolongar, prorrogar, delongar, retardar, protrair, diferir… Ufa! Esses são apenas alguns sinônimos para a procrastinação.

Claro que este também é um comportamento normal e humano, porém, o hábito constante de procrastinar impede o funcionamento equilibrado de rotinas e prolonga problemas e questões que tentamos evitar de resolver e eles acabam voltando à tona, gerando mais mal-estar e rejeição.

É de suma importância tomar consciência do quanto esse modus operandus de ‘deixar as coisas pra depois’ afeta a nossa produtividade e evolução, ‘devora’ nosso tempo, além de atrapalhar todo o esforço de organização para ‘gerar tempo livre’ para fazer outras atividades. É preciso planejar, estabelecer metas e cumpri-las com fidelidade. Existem várias técnicas e exercícios que podem ser aplicados para acabar de vez com a procrastinação.

Se a procrastinação está atrapalhando sua produtividade e tirando o seu sossego, reflita sobre algumas dicas e tente aplicá-las na sua rotina.

O primeiro passo é o admitir esse comportamento e compreender que é imprescindível mudar de atitude, comportamento e sentimentos. Isso vai exigir esforço, determinação e comprometimento.

Liste em um papel tudo aquilo que tem deixado para resolver ou fazer depois. Desde e-mails sem respostas, cursos que gostaria de fazer, mudanças de comportamento como começar uma dieta alimentar mais saudável ou frequentar uma academia, ou ainda aprender/aperfeiçoar o inglês. Não se assuste com a lista, tudo pode ser feito com ponderação e calma, sem ansiedade, no tempo de Kairós.

O segundo passo é priorizar entre essas ações qual a mais emergente. Achou! Ok! Comece por ela. Decida, se organize, coloque uma meta real, que possa cumprir e então, cumpra. Bem assim! Planejar a atividade e colocar uma meta nos incentiva a cumpri-la no prazo. Nessa fase inicial de troca de hábito, um ‘time’ é fundamental.

Não deixe que as redes sociais e notificações do celular atrasem e distraiam o seu ritmo. Acredite, as pessoas viviam sem celulares há trinta anos.

Por outro lado, alguns aplicativos podem ajudar. O Toggl, disponível para Android e IPhone,  realiza o cálculo do tempo de cada tarefa e quanto tempo foi dedicado a cada projeto.

Existem também vários vídeos no YouTube de especialistas nesse assunto que poderão ensinar técnicas e instrumentá-lo para tornar as coisas mais fáceis, ensinando a administrar melhor o tempo e a mudar o sentimento em relação a esse hábito, principalmente nesse início. Vai valer a pena!

Se o planejamento do seu dia não foi o que imaginou, persevere. Coloque na cabeça que amanhã conseguirá cumprir tudo da melhor maneira possível e saia de casa com essa certeza e fé. Foque nos seus objetivos e se mantenha motivado. Todo dia é uma oportunidade de recomeçar! Tudo pode acontecer e nos surpreender na próxima vez, acredite! Seja você o vitorioso no embate entre Chronos e Kairós! A cada questão resolvida, não se esqueça de se parabenizar e reconhecer o seu valor nesta batalha.

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A procura de um pescador inuit

24/04/2017

mulher esqueleto

Fiquei em choque quando li, há muitos anos, “A mulher-esqueleto”, uma das 19 lendas e histórias imemoriais do livro ‘Mulheres Que Correm Com Os Lobos’, escrito por Clarissa Pinkola Estés. A beleza e delicadeza daqueles personagens, assim como a ‘verdade’ que eles expressam estão imortalizados dentro de mim. Metaforicamente, a história fala sobre o processo de reconstrução do outro por meio do acolhimento e aceitação.

Resumidamente, uma mulher inuit (nação indígena esquimó que habita as regiões árticas do Canadá, do Alasca e da Groenlândia), depois de fazer algo condenável pelo patriarcado, foi jogada do penhasco pelo próprio pai. Sozinha, no fundo do mar, rolando de um lado para o outro, sendo comida pelos peixes, tornou-se um esqueleto.

Um pescador, desavisado do ocorrido naquele mar amaldiçoado, lançou sua rede nas águas. A rede ficou presa nas costelas da mulher inuit, e, quando o pescador a puxou, ela saiu das águas do mar como se fosse uma aparição irreal. Horrorizado, o pescador saiu correndo e, como a rede trazia o esqueleto, o mesmo parecia correr atrás dele.

Desesperado, entrou em seu iglu de supetão e junto com ele, a mulher-esqueleto. Quando acendeu sua lamparina de óleo, deu de cara com o esqueleto todo desarrumado ao seu lado. Seja por conta da luz tênue da vela, seja porque seu coração aos poucos foi voltando ao normal, o fato é que o homem, solitário, começou sutilmente a ‘arrumar’ os ossos da mulher-esqueleto, soltando-a das linhas da rede. Depois, colocou peles sobre ela para aquecê-la. Com sono, se arrumou para dormir, tendo ao lado a inusitada companheira.

Durante seu sono, o pescador deixou escapar uma lágrima e a mulher-esqueleto, vendo-a, sentiu uma imensa sede. Se aproximou e colocou a boca junto à lágrima. Foi como se tivesse bebido um rio. Aquela única lágrima saciou sua sede de anos.

Então, estendeu a mão e retirou o coração do pescador e começou a batucá-lo, cantando baixinho: ‘carne, carne, carne’. Quanto mais cantava, mais seu esqueleto se revestia de carne, cabelos, olhos saudáveis, mãos, pés, seios, pernas e vagina. Quando se recuperou completamente como ser humano, a mulher ‘cantou’ para despir o pescador e devolver seu coração, se agarrou a ele e dormiram pele com pele, ‘enredados’.

As pessoas se lembram que o casal foi embora, mas sempre foi alimentado pelas criaturas com as quais ela viveu debaixo d’água

Pra mim, a lenda fala sobre o poder de reconstrução do feminino pelo masculino nutridor. Mesmo que ‘ela’ esteja já um ‘esqueleto’ pela rigidez e pancadas do patriarcado, é a humanidade e a fragilidade do masculino que a cura e a reconstituem para vivenciar um nível de amor homem-mulher que frutifica e floresce.

Eu, aqui do meu lado, busco meu pescador inuit. Não sem antes ter passado pelas profundezas do meu próprio mar e pela tragédia gerada pelas leis patriarcais. A dor, realmente, nos enobrece, nos faz melhores, mais evoluídos, mais humildes diante do outro. Nos fragiliza e derruba os ‘muros’, possibilitando que possamos ver a ‘beleza’ onde, até então, só víamos horror.

Vida online pode atrofiar o cérebro!

11/04/2017

cerebro atrofia

Estava eu assistindo a um programa na TV Cultura, sobre essa geração que vive 24 horas online, quando o entrevistado ‘disparou à queima roupa’ a seguinte informação: que esta geração corre o risco de ver seu cérebro atrofiar mais rapidamente do que imagina. A jornalista que o questionava, surpresa (tanto quanto eu) com a declaração, perguntou: “Como assim por exemplo?”. Ele explicou então que, para ficar forte, o cérebro precisa de exercícios mentais diários. Ele precisa sair das ações, processos e pensamentos ‘automáticos’ e realizar coisas que exijam mais atenção e concentração.

E o que isso tem a ver com a geração on-line? Tudo. Já reparou que quando usamos os apps, como o WAZE, dirigimos de forma automática, segundo apenas as instruções? Agora, veja só: antes do GPS, quando tínhamos que achar algum endereço, precisávamos estudar o caminho, fazer links e pontes com ruas conhecidas, planejar e estimar o horário para não haver atraso, parar e perguntar para outras pessoas e, decorar mais ou menos o caminho para poder voltar no percurso mais rápido possível.

Hoje, os apps de GPS nos levam ao endereço pelo caminho mais rápido, ou você ode optar pelo mais seguro, pelo que tem menor chance de congestionamento, além, de oferecer um horário estimado (geralmente correto). Nem precisamos nos preocupar com as placas de velocidade máxima (informadas pelo GPS), e ainda com os radares de velocidade e lombadas avisados com minutos de antecedência. Né? Trabalho para o cérebro: zero.

E isso pode ser estendido a outras questões. Tudo é instantâneo. O entrevistado deu o exemplo da compra de um terno. Antes, era preciso pesquisar, perguntar para outras pessoas sobre a qualidade e o preço, pegar o endereço, localizar corretamente a loja e planejar como chegar lá, seja de transporte público, seja de carro particular. Já na loja física, conversávamos com a balconista ou atendente, víamos outras opções, discutíamos o valor e a maneira de pagar, e, por fim, íamos embora pra casa felizes (ou não) com a aquisição.

Hoje, apenas alguns cliques e todo esse processo a alguns segundos de atenção. Você recebe em casa, paga via internet, e se não gostar ou não servir, a empresa manda buscar no seu endereço e troca. Ou seja, trabalho para o cérebro: uns 5%, quiçá!

E no smartphone então? Com o tempo, o aparelho reúne as palavras mais usadas por você no dia a dia, e, quando você começa a teclar/digitar, a palavra aparece inteira e correta, é só clicar. Assustador! O mesmo acontece nos buscadores como o Google e o Yahoo. Nem a pergunta temos mais que redigir. Basta colocar o assunto e já aparecem dezenas de questões que já foram realizadas com mais frequência no buscador. Medo!

Já não é de hoje que os cientistas constataram que o cérebro se atrofia quando praticamos os mesmos caminhos para resolver e solucionar problemas. O segredo é praticar pelo menos três exercícios mentais diferentes diariamente, que exercitem as áreas menos usadas, criando novas possibilidades. É a chamada plasticidade cerebral, capacidade que o cérebro tem em se remodelar em função das experiências do sujeito, reformulando as suas conexões em consonância com as necessidades e dos fatores do meio ambiente.

E não pense que fazer palavras-cruzadas é suficiente, pois, geralmente, têm suas resoluções repetidas em quase todos os exercícios e, após algum tempo, a resposta chega pela memória, ou seja, de forma ‘automática’. É assustador caminhar sem saber para onde se está indo…

Nascido sob o signo do ‘macho’

10/04/2017

é um menino

Dia desses, em uma conversa informal sobre adolescentes, eis que escuto uma mãe dizer, sem qualquer escrúpulo u consciência: “As mães que segurem suas ‘cabras’ dentro de casa, que o meu ‘bode’ está solto!”. Oi? Como assim? Quer dizer que mais uma vez a culpa mais uma vez é da mulher? Para gente! O machismo é destruidor para ambos os lados: fere a possibilidade de o feminino e o masculino serem saudáveis e nutridores.

Tema bem espinhoso. É difícil escrever sobre algo que entendo tão pouco, o machismo, embora hoje, por ter um filho homem, me seja do maior interessante. O universo masculino me é totalmente incompreensível (e assim deve ser), distante e ameaçador (aí, já acho que poderia ser bem, bem, bem menos…).

Por um lado, escuto mulheres reclamando dos homens: que são infantis, que se comportam como filhos, que são insensíveis para as questões femininas, são pouco cavalheiros, nada heroicos, que colaboram pouco com a rotina doméstica e com a criação dos filhos, e por aí vai… Do outro lado, dos homens, penso eu, não devem também faltar reclamações, porém, tenho pouca intimidade com esse universo e não saberia discriminá-las.

De qualquer maneira, longe de focar a questão do relacionamento amoroso sob o ponto de vista das reclamações, o que me intriga é perceber que esse mesmo homem, do qual ‘ELAS’ falam tão mal, é justamente criado e educado por ‘ELAS’. Ou seja, está clara a necessidade de uma profunda reflexão sobre o papel da mãe na vida do homem, e mais, do ser humano. Não há coerência entre o que se quer, o que se pensa, o que sente e o que se faz.

É claro que sabemos a importância do modelo masculino para os meninos, principalmente a partir dos 5 anos. Porém, a convivência com a mãe, principalmente até esse patamar de idade, é quase que integral e totalmente dependente. Me parece que muito desse tempo com essa mulher, a mãe, determina uma grande parte dessa formação e de como o feminino será encarado no futuro.

Com a menina, a filha, sinto que é igual, mas de forma diferente. Embora, como com o menino, sua experiência com o masculino, o pai, seja extremamente importante na maneira como ela verá e se relacionará com ‘ELE’, avalio que ainda será muito mais determinante a mensagem que a mãe passará sobre a sua visão (nada consciente) e a sua relação na prática com esse masculino (o pai).

Posto isso, entro um pouco mais: o filho nasce carregando a projeção de perfeição gerada pelos pais. Carga pesada, que fica mais pesada ainda quando incorpora a projeção do que seria o masculino perfeito para a mãe, geralmente o que não é encontrado junto ao companheiro ou homens com os quais a mãe se relacionou e se relaciona.

Ouço mães chamando seus filhos de “meu príncipe”, “meu rei”, “meu homenzinho”, “o homenzinho da casa”, “que vai cuidar da mamãe quando crescer”. Expressões que chegam a me arrepiar porque carregam tintas fortes demais.

Para complicar um pouco mais, tudo isso se passa em um mundo paralelo, o da inconsciência, ou seja, não sabemos “conscientemente” qual o nosso real sentido, visão e relação com o sexo oposto, nem quais os desejos “submersos”, cuja energia é similar à de uma bomba nuclear, dirigidos aos nossos filhos (sejam eles homens ou mulheres).

Bom, daí pra frente começa a sair “fumacinha” da minha cabeça porque a questão é complexa. Não tenho a pretensão de achar que não contaminarei o Davi com as minhas projeções e questões com o masculino. Mas, neste espaço, expresso minhas angústias e tento reafirmar e lembrar com a maior frequência possível que tenho importantes lições de casa para fazer, por mim, por meu filho e pelas pessoas que amo e me amam:

1) Aprender a reconhecer as qualidades dos homens e pedir a ajuda ao masculino;

2) Aprender a receber e ser nutrida por essa energia ímpar;

3) Me abrir para o novo e diferente;

4) Aprender a ser passiva e aceitar ser comandada algumas vezes;

5) Reconhecer e mostrar as minhas fragilidades;

6) Compartilhar e dividir;

7) Estabelecer um vínculo amoroso e sexual com o masculino nutridor e vivenciar uma relação madura e calcada na generosidade e tolerância;

“Nada fácil de entender” disse Renato Russo. “Você diz que seu pais não o entendem, mas você não entende seus pais. Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo, são crianças como você. O que você vai ser quando você crescer…”

Quando ‘Eu’ sou o ‘Outro’

06/04/2017

CNV

A empatia pode ser explicada, simplificadamente, como: ‘a capacidade de estar no lugar do outro’. Eu já acho que a coisa é bem mais complexa, assim como o segundo mandamento mais importante do Cristianismo: “Amai ao próximo como a ti mesmo”. Enfim, não é sobre religião que quero falar hoje e sim de uma ‘nova’ técnica de comunicação com o outro: a comunicação não violenta (CNV).

Basicamente, se trata de um processo científico contínuo desenvolvido pelo psicólogo norte-americano Marshall Rosenberg, com uma equipe internacional de colegas, que defende a prática de relações de parceria e cooperação, nas quais a predominância seja a comunicação eficaz e empática, enfatizando importância de aproximação dos valores comuns entre o emissor e o receptor da mensagem.

Um dos fundamentos-chave da CNV é a capacidade de se expressar sem usar julgamentos (“bom” ou “mau”, “certo” ou “errado”). A ênfase é dada na revelação dos sentimentos e necessidades de cada um. Em outras palavras, você pode falar o que quiser com o outro, desde que use o caminho do respeito e da afetividade. Desde que se coloque no lugar do outro e fale da mesma maneira como gostaria que o outro falasse com você sobre aquele mesmo assunto. Tenho a impressão que Jesus já entendia completamente esse conceito quando formulou o seu segundo mandamento…

Canso de ver pessoas baterem no peito com orgulho ao declararem que “falo mesmo o que penso para qualquer um”. É, deve ser bem mais fácil ‘vomitar’ tudo o que se pensa como se fosse a única verdade absoluta. ‘Tratorar’ o outro não exige ‘lapidação humana’, o sistema é bruto, e pronto.

Minha experiência me provou que, muitas vezes, ficar em silêncio ante uma afirmação é um ato de amor. Mesmo que a gente saiba e veja o outro dando com a ‘cabeça na parede’ e sangrando, é preciso amor, solidariedade e, principalmente, sensibilidade para perceber se o outro pode ouvir o que temos a dizer, mesmo que a nossa intenção seja a melhor possível. Às vezes, não é o outro que precisa ouvir naquele momento. Somos nós que não conseguimos ficar com aquilo que nos incomoda no outro. O que o outro nos espelha.

Sabe, às vezes, somente podemos pegar na mão de quem sofre e rezar em silêncio para que ele possa se fortalecer minimamente para que possamos ajudá-lo. Não é o ouvido que escuta. É a alma. E não conseguimos avaliar o quanto ela muitas vezes está fragilizada e ferida.  A que se ter compaixão do outro. Assim como gostaríamos que tivessem conosco.

Redenção à minha adolescente assediada

30/03/2017

assedio

Acreditei que iria morrer sem conseguir ver alguma ‘redenção’ à minha adolescente assediada. Com a divulgação dos mais recentes relatos de casos de assédio sexual, que estão sendo discutidos na imprensa, de forma geral, universidades, escolas e pela sociedade como um todo, retornei aos anos da adolescência e isso mexeu muito comigo. Sem querer me vi me lembrando de todas as situações de alto risco pelas quais passei naquela época sozinha. Assédios sexuais, transas sem verdadeiramente querer, mas sem alternativa ou escape, e até um assédio na empresa em que trabalhei por 17 anos. Quando tentei denunciar a violência, chorando, anda tive que ouvir a chefia rir e dizer eu estava ‘exagerando’, que “eu estava abafando”…

Depois de quase um ano mandaram o ‘tal’ embora. Isso porque uma outra jornalista, com menos sentimento de culpa talvez do que eu, ameaçou ir à delegacia e registrar um B.O. Só assim eles demitiram o cara.

Penso que é incrível como nós, mulheres, sobrevivemos à nossa adolescência tão sozinhas, cada uma nas suas ‘agruras’, sem poder contar com ninguém. Minha alma ‘sangra’ quando me lembro de tudo o que já passei e nunca pude contar, com medo de alguém virar, e, em vez de me apoiar, dar a resposta mais simples e usada como justificativa para a chamada ‘Cultura do Estupro’: “A culpa foi sua, porque estava no lugar errado, vestindo a roupa errada, tomando as decisões erradas, com as pessoas erradas”. Ou seja: quem mandou, né?

Triste pensar que as pessoas, quando sabem de casos de violência sexual, param para discutir e saber se a vítima ‘gostou’ ou não, sem terem conhecimento de que as pessoas que sofre estupro, sejam elas mulheres ou homens, além de terem que viver com todo o trauma, ainda precisam se  ‘perdoar’ por, muitas vezes, seus corpos terem reagido com supostas ‘manifestações físicas de prazer’, quando na verdade estavam literalmente mortas por dentro.

Inacreditável qualquer um questionar esse tipo de coisa. Desumano. A moral ou o comportamento da vítima não está em julgamento. Houve um crime, ponto. O crime está previsto em lei e ela deve ser cumprida rigorosamente, com a apuração dos envolvidos e sua punição efetivada devidamente. Aff! só desabafando… Fico feliz que o assunto esteja sendo levado à discussão pública, mas ele ainda mexe com as minhas feridas… Talvez por isso muitas mulheres se sintam incapazes de se relacionar com o masculino saudável. Porque se sentem acuadas e ameaçadas. Espero que ainda haja tempo pra mim nesta encarnação…

O medo do dique romper paralisa a vida

28/03/2017

dique

“Tenho medo de ir olhar o que me aconteceu no passado e com isso romper o dique que contém o sofrimento de toda uma vida. Tenho medo de começar a chorar e de nunca mais parar. Acabar literalmente afogada em minha próprias lágrimas e dor.” Foram com essas palavras que minha mãe um dia justificou o fato de nunca ter procurado uma terapia quando volta e meia entrava em mais um processo de depressão.

Quem pode julgá-la? Ninguém. Vítima de vários tipos de abusos na infância e adolescência, minha mãe sofreu a vida inteira de Transtorno Depressivo Maior grave. Criou seis filhos, cinco meninas e um menino, que foi adotado com 2,5 anos, a ‘rapa do tacho’. Uma guerreira que lutou pela própria vida por amor aos seus filhos e marido. Pra mim, uma verdadeira heroína.

Me lembro de em alguns momentos ter sentido também essa espécie de ‘medo de romper o dique da dor’, acreditando que ela iria me devorar. Mas eu fiz terapia, por uma década, e fui percebendo que quando você encara o ‘dragão’, percebe rapidamente que é apenas uma ‘lagartixa’.

Sei agora que o medo, esse sim é o grande vilão. É ele que nos paralisa na ‘fantasia’ de que não poderemos suportar tanto sofrimento. Realmente, não podemos, devemos, se queremos ter uma vida minimamente ética e ‘rica’ de aprendizados, emoções, experiências, com trocas de amor nutritivo.

Somente pode desfrutar do prazer de andar na ‘montanha-russa da vida’, chegando no ponto mais alto enquanto ela sobe e nos deixa ser ar de tanta expectativa e alegria, quem tem o ‘culhão’ de saber que terá que enfrentar também o frio na barriga, e às vezes até a ânsia, durante a descida veloz e implacável. É possível levar uma vidinha ‘controlada’ (dentro das possibilidades, é claro) e estável? Lógico que sim. Porém, eu pergunto: qual é mesmo a graça disso? Alguém logo responderá correndo: “Ah! A graça é que nunca mais sentiremos medo!”. É mesmo?

Quem tem um potencial de vida plena e erótico (termo aqui usado no sentido de prazer e energia criativa inesgotáveis para tudo) e ‘escolhe’ construir um dique, com medo de ficar submerso na transcendente vitalidade – que pode sim nos levar a um outro patamar de autoconhecimento e evolução -, acaba cavando uma depressão maior. E se convence que ela é muito mais segura do que a ‘dor’ de enfrentarmos os nossos próprios dragões.

Só posso dizer: são escolhas. Tive momentos em que escolhi a depressão maior. Mas fico feliz perceber em constatar que, no frigir dos ovos, escolhi, mesmo que inconscientemente, andar na montanha-russa.

 

 

Quando as perdas se tornam insuportáveis

25/03/2017

vendedor de sonhos

Um dia desses, me lembrei de padre católico Marcelo, quando, pele e osso, deu uma entrevista da televisão, na qual ‘confessava’ que achava que depressão era coisa de gente sem fé, ‘frescura’, e defendia que quem sentia compaixão e ajudava ao outro não tinha tempo para ficar deprimido. Bem, isso até ele mesmo ser acometido pela doença…

Eu também já subestimei o ‘mal do século’. Acreditava que o agravamento da depressão era o resultado da falta de força de vontade do paciente em buscar ajuda. Diferentemente do que muitos pensam, a doença atinge várias áreas químicas do cérebro, como os neurotransmissores. Dois elementos identificam esse mal: uma tristeza patológica, que não tem fim, e a absoluta incapacidade de sentir prazer.

Como aprendi sobre isso? Da pior maneira: sentindo na pele – da mesma forma que o padre Marcelo.  Graças a Deus não durou mais do que três meses com a ajuda de medicamentos, exercícios físicos e, principalmente, o acolhimento da família e dos amigos. Mas o que quero mesmo apontar é que a dor existencial é tamanha quando somos acometidos pela doença, em sua face mais grave, que os atos de respirar e abrir os olhos pela manhã se tornam absolutamente insuportáveis.

O tema é extenso, e só mesmo quem esteve nesse limiar sabe exatamente sobre o que estou falando.  Hoje, na biblioteca do Sesc-Campinas, resolvi pegar um livro de Augusto Cury, com o título “Nunca desista dos seus sonhos”, que teve também um filme em cartaz recentemente no cinema nacional: “O vendedor de sonhos”. Deparei-me com palavras que me tocaram por descrever o resultado de quem ‘se perde’ e ‘perde seus sonhos’:

“Sem sonhos, as perdas se tornam insuportáveis. As pedras do caminho se tornam montanhas. Os fracassos se transformam em golpes fatais. Mas, se você tiver grandes sonhos… seus desafios produzirão oportunidades e seus medos, coragem. Nunca desista de seus sonhos”.

O mar, a onda e a marola…

25/03/2017

mar profundo

 

Eu sou o mar,

Mas me comporto com uma onda

quando não me coloco no lugar do outro,

quando finjo não enxergar a mim mesma sendo refletida em alguém

que espelha, sem saber, dores imemoriais, próprias da humanidade..

Eu sou o mar, mas me comporto como uma onda

quando me precipito sobre os meus sentimentos,

quando ignoro o grito do meu Self, da minha alma

que pede acolhimento, compreensão e amor.

Eu sou o mar, mas me comporto como uma marola

quando me calo frente às injustiças

quando escolho me omitir para evitar conflitos

quando me esborracho na terra firme, por não ter a humildade de reconhecer que preciso de ajuda

Eu sou o mar, mas me comporto como uma marola

quando uso situações e pessoas como desculpas para não fazer o que preciso

quando reluto em aceitar os meus limites,

Quando super avalio até onde posso ir,

Quando me deixo adoecer por querer ser autossuficiente

Eu sou o mar, mas me comporto como uma marola

quando permito que o outro me desqualifique,

quando não busco os desafios, com medo de não ser suficiente

quando deixo que a ‘perfeição’ me escravize sem ter, em nenhum momento,

a possibilidade de entrar no oásis da compaixão

Eu sou o mar, mas me comporto como uma onda

quando esqueço que sou una e integrada ao universo,

quando busco a divindade e o sagrado fora de mim,

quando deixo de agradecer por estar viva todos os dias.

Mas eu sou o mar.

Profundo, misterioso, inesgotável.

Basta apenas que eu tenha coragem para mergulhar nas minhas águas

e de lá trazer todas as riquezas e diversidades que me tornam uma pessoa única em bilhões

Não quero ser onda e nem marola toda uma vida…

Busco assumir a minha extensão, mesmo entendendo que,

assim como não sei quase nada sobre o mar,

também não sei o suficiente sobre todo o meu potencial.

E me surpreendo comigo mesma a cada subida para puxar o ar,

para então novamente buscar as minhas profundezas.

Sou o mar quando me deixo levar pelas águas,ora tranquilas, ora violentas, entendendo que tudo faz parte desta trajetória divina e sagrada chamada VIDA.

DESAFIO: libertar o filho

18/08/2011

Libertar um filho é o maior desafio de uma mãe. Uma missão que exige fé incondicional , entrega e abandono nas mãos do Mistério. Sinto até ânsia e um friozinho na barriga… Libertar um filho é acreditar que a vida dará generosamente o que for necessário a ele. Acreditar que quando ele sentir frio, o universo se encarregará de aquecê-lo. Quando sentir sede, alguém lhe dará um copo d’água. Quando sentir dor, será consolado com tanto amor e dedicação como se fosse a própria mãe. Libertar um filho é acreditar que, embora você queira ser até mesmo o ar que ele respira, não é. Que ele pode ser feliz e realizado plenamente mesmo que você não esteja lá para ver e compartilhar disso. Libertar um filho, antes de tudo, é também se libertar dos aspectos negativos da maternidade. Dar espaço para encontrar o vazio, para depois preenchê-lo com outros sentidos e agredecer com fervor por ter passado tanto tempo sendo alimentada e abençoada pela nutrição do amor materno. Maternidade é estado de graça. É divindade.
Em algum momento no futuro que se desenha e se concretiza me encontrarei novamente com a Ana Carolina mais íntegra, mais inteira, não mais a fortemente materna. Desse encontro acharei as minhas repostas e me depararei com os meus vazios a serem preenchidos. Sobre o meu filho, restará a esperança e fé de tê-lo instrumentalizado o suficiente para que siga em frente, independentemente da minha existência e interferência, em contato estreito com o Universo. Que ele peça e seja prontamente atendido. AMÉM!