Archive for the ‘POESIA’ Category

Loucura perdoada…

05/01/2020

meditação

 

“Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.
Quer as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
pois metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo
Que a minha vontade de ir embora
se transforme na calma e paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão
Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
pois metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço
Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
pois metade de mim é platéia
a outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade também…”

Montenegro Oswaldo – Metade

A distância entre nós…

05/01/2020

 

“Eu vou te contar que você não me conhece…

E eu tenho que gritar isso porque você está surdo e não me ouve!

A sedução me escraviza a você…

Ao fim de tudo você permanece comigo, mas preso ao que eu criei e não a mim.

E quanto mais falo sobre a verdade inteira, um abismo maior nos separa…

Você não tem um nome, eu tenho.

Você é um rosto na multidão, e eu sou o centro das atenções.

Mas a mentira da aparência do que eu sou e a mentira da aparência do que você é… porque eu, eu não sou o meu nome, e você não é ninguém!

O jogo perigoso que eu pratico aqui, ele busca chegar ao limite possível de aproximação. Através da aceitação da distância e do reconhecimento dela…

Entre eu e você existe a notícia, que nos separa…

Eu quero que você me veja a mim. Eu me dispo da notícia.

E a minha nudez parada te denuncia e te espelha…

Eu me delato, tu me relatas…

Eu nos acuso e confesso por nós.

Assim me livro das palavras com as quais você me veste.”

Fauzi Arap

EROS E PSIQUÊ

05/01/2020

 

eros e psiquê

 

Conta a lenda que dormia

Uma Princesa encantada

A quem só despertaria

Um Infante, que viria

De além do muro da estrada.

 

Ele tinha que, tentado,

Vencer o mal e o bem,

Antes que, já libertado,

Deixasse o caminho errado

Por o que à Princesa vem.

 

A Princesa Adormecida,

Se espera, dormindo espera.

Sonha em morte a sua vida,

E orna-lhe a fronte esquecida,

Verde, uma grinalda de hera.

 

Longe o Infante, esforçado,

Sem saber que intuito tem,

Rompe o caminho fadado.

Ele dela é ignorado.

Ela para ele é ninguém.

 

Mas cada um cumpre o Destino —

Ela dormindo encantada,

Ele buscando-a sem tino

Pelo processo divino

Que faz existir a estrada.

 

E, se bem que seja obscuro

Tudo pela estrada fora,

E falso, ele vem seguro,

E, vencendo estrada e muro,

Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,

A cabeça, em maresia,

Ergue a mão, e encontra hera,

E vê que ele mesmo era

A Princesa que dormia.”

 

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

Um show em tecnicolor…

05/01/2020

 

Espetáculo da vida

“Eu sei de muita coisa que não vi.
Vocês também, eu sei.
Não se pode dar provas da existência daquilo que é mais verdadeiro
O único jeito é acreditar. E acreditar chorando.
Esse show é feito em estado de emergência e de calamidade pública.
Trata-se de um show inacabado porque lhe falta a resposta. Resposta essa que eu espero que alguém no mundo me dê.
É um show em tecnicolor, para Ter algum luxo que por Deus-que eu também preciso.
Amém – para todos nós.”

Clarice Lispector

Tudo são maneiras de ver

31/12/2019

compaixão

Onde tu vês um obstáculo

Alguém vê o fim da viagem

E o outro vê uma oportunidade de crescer!

 

Onde tu vês um motivo para te irritares,

Alguém vê a tragédia total

E o outro vê uma prova para a sua paciência!

 

Onde tu vês a morte,

Alguém vê o fim

E o outro o início de uma nova etapa!

 

Onde tu vês a fortuna,

Alguém vê a riqueza material

E o outro pode encontrar por detrás de tudo, a dor e a miséria total!

 

Onde tu vês a teimosia

Alguém vê a ignorância,

E outro compreende as limitações do companheiro, percebendo que cada um caminha no seu próprio passo e que é inútil querer apressar o passo do outro, a não ser que ele deseje isso.

 

Cada um vê o que quer, pode ou consegue ver.

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura.

 

Fernando Pessoa

Ser água, viver água

31/12/2019

mãe água

A água que cura, sacia, alimenta, limpa…

Iansã, deixe-me ser como a água:

Violenta como um maremoto,

Cristalina e fluída como a que brota da terra

Musical e vital como a que cai dos céus…

Deixa apenas eu ser como a água, que não pode ser outra coisa senão um milagre da vida

Mãe da água, Iemanjá, aceito e reconheço o seu poder divino, que se concretiza no ciclo infindável das águas de nascer, correr, transformar-se e voltar às origens

Das águas sujas, densas, escuras e malcheirosas, também dessas se faz alquimia purificadora…

Ser, água, viver água, sentir água…

Eu agradeço, água!

A urgência de vocês…

30/12/2019

encontro

Sinto saudades de vocês!

Do olhar profundo e puro

Do tique suave e amoroso

Da voz cálida e compreensiva

Do sorriso discreto e doce

Da proximidade acolhedora e quente

Estou só, mas não sinto solidão

Escolho nos fragmentos da minha memória

Os momentos mais tocantes…

Os preciosos minutos do encontro, do entendimento sem palavras ou explicações

E, assim, percebo-me repleta na urgência dos sentidos da minha alma…

Como é possível sentir solidão, quando me vi no outro, e sei agora que somos um só? Quando partilhei a minha mais profunda dor e pude acolher a dor do outro?

Em mim agora vivem muitos… vocês…

Estou bem, mas sinto a urgência do desafio

Clamo ao inconsciente por mais luz… tenho fome, tenho sede…

Procuro vocês em outros e peço passagem em meus sonhos

A esperança de reencontrá-los em breve acalenta o meu espírito, que anseia em se alimentar de amor…

 

As certezas de Sabino…

30/12/2019

courage

 

De tudo ficaram três coisas…
A certeza de que estamos sempre começando…
A certeza de que é preciso continuar…
A certeza de que podemos ser interrompidos
antes de terminar…
Façamos da interrupção um caminho novo…
Da queda, um passo de dança…
Do medo, uma escada…
Do sonho, uma ponte…
Da procura, um encontro!

Fernando Sabino , O Encontro Marcado.

O mar, a onda e a marola…

25/03/2017

mar profundo

 

Eu sou o mar,

Mas me comporto com uma onda

quando não me coloco no lugar do outro,

quando finjo não enxergar a mim mesma sendo refletida em alguém

que espelha, sem saber, dores imemoriais, próprias da humanidade..

Eu sou o mar, mas me comporto como uma onda

quando me precipito sobre os meus sentimentos,

quando ignoro o grito do meu Self, da minha alma

que pede acolhimento, compreensão e amor.

Eu sou o mar, mas me comporto como uma marola

quando me calo frente às injustiças

quando escolho me omitir para evitar conflitos

quando me esborracho na terra firme, por não ter a humildade de reconhecer que preciso de ajuda

Eu sou o mar, mas me comporto como uma marola

quando uso situações e pessoas como desculpas para não fazer o que preciso

quando reluto em aceitar os meus limites,

Quando super avalio até onde posso ir,

Quando me deixo adoecer por querer ser autossuficiente

Eu sou o mar, mas me comporto como uma marola

quando permito que o outro me desqualifique,

quando não busco os desafios, com medo de não ser suficiente

quando deixo que a ‘perfeição’ me escravize sem ter, em nenhum momento,

a possibilidade de entrar no oásis da compaixão

Eu sou o mar, mas me comporto como uma onda

quando esqueço que sou una e integrada ao universo,

quando busco a divindade e o sagrado fora de mim,

quando deixo de agradecer por estar viva todos os dias.

Mas eu sou o mar.

Profundo, misterioso, inesgotável.

Basta apenas que eu tenha coragem para mergulhar nas minhas águas

e de lá trazer todas as riquezas e diversidades que me tornam uma pessoa única em bilhões

Não quero ser onda e nem marola toda uma vida…

Busco assumir a minha extensão, mesmo entendendo que,

assim como não sei quase nada sobre o mar,

também não sei o suficiente sobre todo o meu potencial.

E me surpreendo comigo mesma a cada subida para puxar o ar,

para então novamente buscar as minhas profundezas.

Sou o mar quando me deixo levar pelas águas,ora tranquilas, ora violentas, entendendo que tudo faz parte desta trajetória divina e sagrada chamada VIDA.

Poema de Viviane Mosé

05/08/2010

Amo muito essa poesia… É uma obra de arte… certas poesias que leio calam tão dentro de mim, que perguntar carece, como não fui eu quem fiz…

TEMPO

quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele
soprando sulcos na pele
soprando sulcos?
o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina
sem raiva e nem rancor
o tempo riscou o meu rosto
com calma
(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)
acho que a vida anda passando a mão em mim
a vida anda passando a mão em mim
acho que a vida anda passando
a vida anda passando
acho que a vida anda
a vida anda em mim
acho que há vida em mim
a vida em mim anda passando
acho que a vida anda passando a mão em mim
e por falar em sexo, quem anda me comendo é o tempo
na verdade faz tempo, mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás
um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos
acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando remoçando

Poema extraído do livro Pensamento do Chão (editora Record)