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Uma ligação universal!

13/05/2017

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

Quando tinha uns dois anos, numa madrugada fria, meu filho, Davi, me chamou: “Mamaê!”. Fui até o quarto e ele estava em pé no berço: “Cóio!”. Peguei ele pelos braços e forcei delicadamente que se deitasse de novo. “Filho, você dorme no bercinho e mamãe na cama. Durma meu filho”. Ele levantou de novo e disse: “Mamaê, cóio!”. Foi aí que o peguei no colo e percebi que estava encharcado de xixi, tadinho… com as pernas geladas. Levei ele para a minha cama, troquei a fralda, a roupa e dei mamadeira. Logo ele estava dormindo novamente. Poderia tê-lo levado de volta ao berço, mas não quis. Eram 4h30 e logo estaríamos acordados. Deitei na escuridão total e percebi sua mãozinha procurando a minha…

Fui remetida imediatamente à minha infância. Quando menina me sentia muito insegura afetivamente e tinha períodos longos de terror noturno. Ficava horas com insônia, com medo de dormir e ao mesmo tempo com medo de ficar acordada e ouvir alguma coisa inexplicável. Saía de fininho do meu quarto e entrava pé ante pé no quarto dos meus pais, carregando apenas um travesseiro. Deitava embaixo da cama deles. Ficava ali, quietinha, ouvindo-os roncarem. O som, que poderia incomodar a princípio, me deixava calma e com senso de realidade naquela escuridão. Aí, eu dormia.

Logo cedo, antes que eles se levantassem, deixava, de mansinho, o local e voltava para o meu quarto.

Outro lugar disputado por mim e pelas minhas irmãs para uma soneca era o bumbum da minha mãe. A coitada acordava cedo e não parava um minuto na cozinha, arrumando as coisas e fazendo as tarefas domésticas, enquanto nós brincávamos e também brigávamos, desfazendo toda a arrumação. Depois da cozinha do almoço arrumada, ela avisava: “Agora eu vou assistir televisão e dar um cochilo. Não quero um pio…”, ameaçava. Pegando um chinelinho na mão, tipo “pronta para dar umas palmadas”, deita-se no sofá, que era comprido.

Ah! A primeira que chegava encostava a cabeça no bumbum da mamãe, e as outras, encostavam as cabecinhas no bumbum umas das outras. Ficávamos todas encaixadas, ressonando por pelo menos uns 40 minutos, quando então minha mãe levantava e retomava a batalha do dia a dia. Essa é uma das melhores lembranças que tenho da minha infância.

Todas queriam ter o privilégio de dormir encostadinho na mamãe. Era uma sensação de segurança e aconchego plena naquele bumbum macio, quentinho e com cheiro de coisa conhecida, parecendo uma extensão do corpo da gente.

Nós disputávamos a tapa o lugar. Acho que é aquele tal ‘desejo existencial’ relatado pelos especialistas da volta ao útero materno. A vontade de se unir ao corpo da mãe novamente e sentir a sensação de plenitude e bem-estar da gravidez.

Quando vi a mãozinha de Davi me procurando no escuro naquela noite, mesmo ele estando sonolento, me lembrei com clareza e nitidez dessa experiência com minha mãe. Percebi claramente que meu filho relaxou quando me “achou” e se entregou ao sono, em segurança.

Geralmente, meu filho dorme em seu quarto. Mas gosto de pensar que essas exceções, que nos aproximam afetivamente e instintivamente, vão perdurar como delicadas lembranças de bem-estar, aconchego, amor. Como momentos especiais, em que a ligação universal é reatada, refeita, mesmo que ele não tenha saído, de fato, do meu útero…

Muitos caminhos, mas apenas uma escolha

28/10/2009

caminhos

Desde a adolescência tenho um sonho que me acompanha ao longo da vida. É o chamado sonho recorrente. Que se repete, na medida em que o conflito interno se mantém e não se altera ou se transforma. Nele, me vejo, invariavelmente, em um trevo de auto-estrada. Tipo um ‘minhocão’ de São Paulo.

A sensação angustiante do sonho (ou seria pesadelo?) é a mesma: a minha incapacidade em decidir para que lado ir. Tenho várias opções mas só uma decisão.

Conclusão: não consigo escolher e acordo angustiada e com o coração disparado. Por outras, o roteiro se altera, mas apenas um pouco. Mesmo sabendo onde gostaria de chegar, me pego nas grandes avenidas de São Paulo sem saber que direção escolher, me sentindo absolutamente perdida e sem condições de, novamente, decidir meu rumo.

 Esse sonho é literal e me diz que quando chego a uma encruzilhada, com caminhos variados e por conseguinte consequências diversas, fico paralisada pelo meu medo de errar e sofrer por essa escolha.

Ultimamente tenho encontrado dezenas de pessoas assim: ansiosas sem saber para onde e o que seguir. O coração ou a razão? O instinto ou a lógica? As minhas necessidades ou as necessidades do outro? As exigências do mundo contemporâneo ou as necessidades individuais? É, questões assim, que no fundo achamos tão fácil de optar na teoria, mas que quando caem na prática…que dúvida cruel!

 Numa avaliação geral, eu e minha amiga Lílian chegamos a uma conclusão sobre os meus sonhos recorrentes: eles refletem a minha dificuldade em me decidir a qual mestre irei servir: o ego ou a alma. Á primeira vista parece uma questão lógica: a alma, é claro! Mas pergunto, e as exigências do ego? Aqui, nesta autoanálise, ele simboliza antes de tudo o mundo externo, o das idéias e do intelectualismo.

A sociedade patriarcal que exige obediência cega em troca de uma ‘suposta’ aceitação. Digo suposta, porque somente podemos ser aceitos quando estamos na nossa inteireza e apenas somos, sem ter que obedecer a padrões externos.

 Na minha encruzilhada de vida, muitas vezes, enquanto o ego vaidoso me acena com ganhos e garantias que, na realidade, não podem ser cumpridas, mas que seduzem, a alma grita a dor da autenticidade e da necessidade vital do que preciso alimentar. Esse impasse é tão angustiante para mim no dia a dia quanto no mundo dos sonhos.

Eu sei exatamente do que preciso, além obviamente, de uma estrutura financeira e profissional saudável e uma boa qualidade de vida. Preciso de vínculos afetivos nutritores, de condições adequadas para sentir, me expressar e me comunicar. Só que isso passa obrigatoriamente pela humildade, reconhecimento e aceitação do meu lado menos nobre e mais sombrio. Do meu Eu ridículo e humanamente imperfeito. E digo de cadeira: é aí que o bicho pega!

Tenho encontrado muitas pessoas nesta mesma situação. Por vezes suspendendo a situação que está gerando o conflito e a necessidade de uma decisão. E fica tudo lá. Tudo parado, esperando só Deus sabe o que acontecer. Não tenho sequer um conselho para dar sobre o tema. A única coisa que tenho conseguido é rezar. Pedir àquilo que chamamos de Deus, força para ter um pouco de coragem para romper o impasse e tomar uma posição. Não importa se certa ou errada, se doerá ou não.

Não há o caminho certo ou o caminho errado, apenas o caminho que construímos com cada decisão. O que importa é sentir e viver. Sair do sono inconsciente da Bela Adormecida, que garante proteção contra o mal, mas que também impede de experimentar e vivenciar o bem. Eu quero é viver plenamente!