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Redenção à minha adolescente assediada

30/03/2017

assedio

Acreditei que iria morrer sem conseguir ver alguma ‘redenção’ à minha adolescente assediada. Com a divulgação dos mais recentes relatos de casos de assédio sexual, que estão sendo discutidos na imprensa, de forma geral, universidades, escolas e pela sociedade como um todo, retornei aos anos da adolescência e isso mexeu muito comigo. Sem querer me vi me lembrando de todas as situações de alto risco pelas quais passei naquela época sozinha. Assédios sexuais, transas sem verdadeiramente querer, mas sem alternativa ou escape, e até um assédio na empresa em que trabalhei por 17 anos. Quando tentei denunciar a violência, chorando, anda tive que ouvir a chefia rir e dizer eu estava ‘exagerando’, que “eu estava abafando”…

Depois de quase um ano mandaram o ‘tal’ embora. Isso porque uma outra jornalista, com menos sentimento de culpa talvez do que eu, ameaçou ir à delegacia e registrar um B.O. Só assim eles demitiram o cara.

Penso que é incrível como nós, mulheres, sobrevivemos à nossa adolescência tão sozinhas, cada uma nas suas ‘agruras’, sem poder contar com ninguém. Minha alma ‘sangra’ quando me lembro de tudo o que já passei e nunca pude contar, com medo de alguém virar, e, em vez de me apoiar, dar a resposta mais simples e usada como justificativa para a chamada ‘Cultura do Estupro’: “A culpa foi sua, porque estava no lugar errado, vestindo a roupa errada, tomando as decisões erradas, com as pessoas erradas”. Ou seja: quem mandou, né?

Triste pensar que as pessoas, quando sabem de casos de violência sexual, param para discutir e saber se a vítima ‘gostou’ ou não, sem terem conhecimento de que as pessoas que sofre estupro, sejam elas mulheres ou homens, além de terem que viver com todo o trauma, ainda precisam se  ‘perdoar’ por, muitas vezes, seus corpos terem reagido com supostas ‘manifestações físicas de prazer’, quando na verdade estavam literalmente mortas por dentro.

Inacreditável qualquer um questionar esse tipo de coisa. Desumano. A moral ou o comportamento da vítima não está em julgamento. Houve um crime, ponto. O crime está previsto em lei e ela deve ser cumprida rigorosamente, com a apuração dos envolvidos e sua punição efetivada devidamente. Aff! só desabafando… Fico feliz que o assunto esteja sendo levado à discussão pública, mas ele ainda mexe com as minhas feridas… Talvez por isso muitas mulheres se sintam incapazes de se relacionar com o masculino saudável. Porque se sentem acuadas e ameaçadas. Espero que ainda haja tempo pra mim nesta encarnação…

O medo do dique romper paralisa a vida

28/03/2017

dique

“Tenho medo de ir olhar o que me aconteceu no passado e com isso romper o dique que contém o sofrimento de toda uma vida. Tenho medo de começar a chorar e de nunca mais parar. Acabar literalmente afogada em minha próprias lágrimas e dor.” Foram com essas palavras que minha mãe um dia justificou o fato de nunca ter procurado uma terapia quando volta e meia entrava em mais um processo de depressão.

Quem pode julgá-la? Ninguém. Vítima de vários tipos de abusos na infância e adolescência, minha mãe sofreu a vida inteira de Transtorno Depressivo Maior grave. Criou seis filhos, cinco meninas e um menino, que foi adotado com 2,5 anos, a ‘rapa do tacho’. Uma guerreira que lutou pela própria vida por amor aos seus filhos e marido. Pra mim, uma verdadeira heroína.

Me lembro de em alguns momentos ter sentido também essa espécie de ‘medo de romper o dique da dor’, acreditando que ela iria me devorar. Mas eu fiz terapia, por uma década, e fui percebendo que quando você encara o ‘dragão’, percebe rapidamente que é apenas uma ‘lagartixa’.

Sei agora que o medo, esse sim é o grande vilão. É ele que nos paralisa na ‘fantasia’ de que não poderemos suportar tanto sofrimento. Realmente, não podemos, devemos, se queremos ter uma vida minimamente ética e ‘rica’ de aprendizados, emoções, experiências, com trocas de amor nutritivo.

Somente pode desfrutar do prazer de andar na ‘montanha-russa da vida’, chegando no ponto mais alto enquanto ela sobe e nos deixa ser ar de tanta expectativa e alegria, quem tem o ‘culhão’ de saber que terá que enfrentar também o frio na barriga, e às vezes até a ânsia, durante a descida veloz e implacável. É possível levar uma vidinha ‘controlada’ (dentro das possibilidades, é claro) e estável? Lógico que sim. Porém, eu pergunto: qual é mesmo a graça disso? Alguém logo responderá correndo: “Ah! A graça é que nunca mais sentiremos medo!”. É mesmo?

Quem tem um potencial de vida plena e erótico (termo aqui usado no sentido de prazer e energia criativa inesgotáveis para tudo) e ‘escolhe’ construir um dique, com medo de ficar submerso na transcendente vitalidade – que pode sim nos levar a um outro patamar de autoconhecimento e evolução -, acaba cavando uma depressão maior. E se convence que ela é muito mais segura do que a ‘dor’ de enfrentarmos os nossos próprios dragões.

Só posso dizer: são escolhas. Tive momentos em que escolhi a depressão maior. Mas fico feliz perceber em constatar que, no frigir dos ovos, escolhi, mesmo que inconscientemente, andar na montanha-russa.