Ser manso não é ser omisso!

paz

“Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra(Mateus 5:5).

“Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5:9)

Na terceira bem-aventurança do Sermão da Montanha, Jesus afirma que, de fato, são bem-aventurados os mansos. E, citando outras bem-aventuranças, ele nos incita a desenvolver essas qualidades, valores, competências, comportamentos, ações. O Filho de Deus nos convida a segui-lo: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”, (Mateus, 11:29).

As bem-aventuranças integram, assim, o jugo de Jesus, que devemos tomar como caminho para a ‘salvação’. Entretanto, precisamos entender com mais precisão o significado tanto de ‘jugo’ quanto de ‘manso’.

A palavra jugo tem dois significados, um literal e outro figurado, que se correlacionam. Um deles designa um pedaço de madeira usado para juntar dois bois, de maneira a fazer com que ambos permaneçam andando no mesmo ritmo, emparelhados. Isso proporciona mais estabilidade ao trabalho de puxar uma carroça ou um arado, gerando um movimento mais homogêneo, sem trancos, solavancos ou quaisquer outros problemas resultantes da diferença de velocidade entre os dois animais.

Antes de ser o nome do equipamento rústico que une dois animais, a palavra jugo também designava um tipo de forca na Roma antiga, pena aplicada aos inimigos derrotados em batalhas, que eram obrigados a passar por baixo do jugo antes de serem enforcado, originando assim a palavra subjugado, do latim subjugare – aquele que foi dominado.

No sentido figurado, quer dizer obediência, domínio, autoridade, submissão, opressão. “Estar sob o jugo de”, submeter-se a regras ou domínio de alguém ou de alguma coisa.

Já a palavra manso tem como sinônimos “brandura de gênio ou de índole, na maneira de expressar-se; doçura, meiguice, suavidade”. Muitas vezes é confundida com o comportamento omisso, indeciso, submisso, que não se posiciona em relação a algo.

Ultimamente tenho me sentido particularmente incomodada com a postura omissa das pessoas em muitas situações nas quais um posicionamento assertivo, respeitoso e amoroso poderia fazer toda a diferença.  Ser pacífico, paciencioso, sensível e humano, não exclui a responsabilidade de nos colocarmos em situações de conflito com firmeza, compartilhando generosamente algum conhecimento de vida e experiência, que são únicos a cada um.

Jesus nunca se omitiu durante sua passagem terrestre. A diferença sempre foi a sua expressão firme, corajosa, afetiva, genuína, sem quaisquer condenação ao ser humano ou humilhação. Apenas sua verdade, dita com o objetivo de atingir mentes e corações, provocando a reflexão, compreensão e oferecendo o verdadeiro livre-arbítrio por meio de conhecimento. Isso tudo regado a muita, mas muita mesmo, compaixão.

Durante todos estes meus anos de existência, acreditei que estar ‘em paz’ fosse a ausência completa de conflitos, problemas, dificuldades, confrontos. Uma ideia equivocada e popularizada de uma pessoa em silêncio, em um ambiente de natureza, em meditação. No entanto, entendo hoje que a paz e estar em meio a um tumulto, caos, e poder ser a mediação, a diferença, para alcançar uma resolução não-violenta.

Para isso, preciso ser mansa. Usar a comunicação não-violenta, ter total empatia em relação ao outro (colocando-me no seu lugar e imaginar de que forma gostaria de ser tratado naquela situação), falar de sensações e sentimentos e não de ‘verdades’ absolutas. Fundamentar nossa atuação cotidiana nos princípios de tolerância, solidariedade, respeito à vida, aos direitos individuais e ao pluralismo. As principais ferramentas para isso são a conscientização, a educação e o reconhecimento de nossa humanidade – estamos todos submetidos a ela.

Quando nos omitimos, guardamos nossos tesouros (experiências, aprendizados, intercessão, a possibilidade de sermos instrumentos de evolução para outros e para nós mesmos) e perdemos a chance de trocá-los com o próximo, aumentando as chances de crescimento para todos. Passamos a viver nossa paz somente dentro de situação que consideramos, ilusoriamente, como ‘controladas’ e ‘seguras’.

Foi durante uma aula de Biodanza (dança da vida) que me deparei com a consigna da minha facilitadora, que sugeriu que dançássemos a paz. Inicialmente, estranhamento total. A pergunta “Como posso ‘dançar’ a paz?” não saia da minha cabeça. No entanto, ao escutar as primeiras estrofes da música, entreguei-me ao movimento do coração e da alma. E tudo que ecoava em mim era: ‘A paz invadiu o meu coração (e meu corpo) /De repente me encheu de paz/Como se o vento de um tufão/Arrancasse meus pés do chão/Onde eu já não me enterro mais…’

A paz não exclui a guerra, o conflito – armado ou não. Ela está presente, nas batalhas diárias, no caos, nas crises, ela está hoje permanentemente em mim. A paz se manifesta e me torna pacificadora e mansa porque estou 100% conectada com a minha essência, alma, com o universo, fé, e, principalmente, com sentimentos contínuos de gratidão e êxtase por ter sido escolhida, entre milhões de possibilidades durante a geração da minha vida, para passar por essa experiência extraordinária que chamamos de vida.

A paz ‘fez um mar da revolução’, ‘invadiu meu destino’. Não há mais sofrimento em relação ao futuro, lamentos em relação ao passado. Vivo o presente, o momento aqui agora, o que posso ser, sentir e fazer agora. Só a ‘guerra’ – seja lá o que isso represente para cada um de nós – nos proporciona a chance de vivenciarmos o amor e a paz, de sermos mansos, mas jamais omissos.

Mahatma Gandhi (que em sânscrito significa ‘grande alma’), além de um pacifista foi um influente defensor do princípio da não-agressão – forma não violenta de protesto – como um meio de revolução. Ele também é um dos pensadores mais influentes por propagar mensagens de paz para a humanidade. Entre suas dezenas de citações, destaco quatro neste artigo para que possamos refletir profundamente sobre o tema:

“A não-violência nunca deve ser usada como um escudo para a covardia. É uma arma para os corajosos.”

“A paz é a qualidade mais fina da alma, mas ela se desenvolve por meio da prática.”

“O mais perfeito ato do homem é a paz. E por ser tão completo, tão pleno em si mesmo, é o mais difícil.”

“Você deve ser a própria mudança que deseja ver no mundo.”

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