‘The Walking Dead’ tupiniquim

zumbis

Quando assisti ao filme ‘A Volta dos Mortos-Vivos’, em meados da década de 1980, tinha 19 anos e era aficionada, assim como a minha mãe, por películas de terror. Fiquei impressionada. Afinal, o roteiro era bizarro, completamente absurdo, contando a história de uma cidade que, graças a um vazamento de uma substância estranha, vê seus antepassados literalmente saindo das tumbas dos cemitérios para o pânico geral dos moradores – especialmente de um grupinho de jovens que uma escola local, da qual fazia parte até uma punk de cabelo vermelho que adorava andar pelada (que por coincidência se chamava ‘Trash’). Os zumbis tinham até ‘grito de guerra’, saindo pelas ruas enlouquecidos e gritando “MIOLOS!!! MIOLOS!!!”. Isso porque eles precisavam se alimentar de cérebros humanos.

O motivo? Bem, daí é preciso assistir ao filme pra saber. Ou nem tanto…

Reportagem especial da TV Record, no domingão do dia 2 de julho deste ano, me arrepiou inteira e me garantiu que a série norte-americana ‘The Walking Dead’ pode ser fictícia nos EUA, mas aqui no Brasil é oura realidade. Com a narração da atriz Beth Goulart, a matéria mostrou o que não se pode ver pelos noticiários sobre o cotidiano da Cracolândia, em São Paulo, maior ponto de uso de drogas a céu aberto do mundo. Pessoas totalmente destruídas física, psíquica e emocionalmente pelo consumo da droga.

Essa horda de viciados em crack cresce a uma velocidade surpreendente. E eles são iguais aos mortos-vivos do filme que assisti: parece que não têm alma, sentimentos, capacidade de raciocínio, quaisquer parâmetros que os torne ou os defina como humanos. Se movem como cadáveres apodrecidos em busca do ‘alívio para aa dor da existência’ por meio das drogas.

Não é só deprimente, é apavorante como em um filme de terror. Para eles, que claro, também são vítimas, qualquer violência é justificável para se conseguir o que precisam para acabar com a fissura. Nesse momento, nenhum amor sobra, nenhum vínculo sobrevive, nenhuma recordação ou lembrança coexiste com as drogas, aliás, nada coexiste com as drogas.

No final do filme que vi há tantos anos, o governo norte-americano, impotente diante da situação de descontrole na cidade povoada pelos zumbis, decide pela saída mais fácil: dizimar tudo com uma megabomba. Assim também eu me sinto diante do insustentável domínio das drogas na sociedade: impotente.

Não sei quando estarei frente a frente com um morto-vivo batendo no vidro do meu carro, com olhos parados e mortos, iguais aos dos peixes, olhando algo além de mim, gritando: “Dinheiro!! Dinheiro!!”, em vez de: “Miolos!!, Miolos!!”, e muito menos qual será o resultado desse encontro. Me pergunto em qual momento a sociedade e seus governantes se darão conta da gravidade desse real ‘filme de terror’ e quais decisões serão tomadas para que, de fato, esses seres humanos sejam resgatados de volta à vida… Quando tinha 19 anos, acreditava que o filme era apenas ficção. Hoje, sei que ficções muitas vezes são janelas do futuro.

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