A volta dos mortos-vivos


Quando assisti o filme “A Volta dos Mortos-Vivos”, em meados da década de 1980, tinha 19 anos e era aficionada, assim como a minha mãe, por películas de terror. Fiquei impressionada. Afinal, o roteiro era bizarro, completamente absurdo, contando a história de uma cidade que, graças a um vazamento de uma substância estranha, vê seus antepassados literalmente saindo das tumbas dos cemitérios para o terror geral dos moradores – especialmente de um grupinho de jovens que uma escola local da qual fazia parte até uma punk de cabelo vermelho, que adorava andar pelada (que por coincidência se chama “Trash”). Os zumbis tinham até “grito de guerra”, saindo pelas ruas enlouquecidos e gritando “MIOLOS!!!!!! MIOLOS!!!!!”. Isso porque eles precisavam se alimentar de cérebros humanos.
O motivo disso? Bem, daí é preciso assistir ao filme pra saber. Ou nem tanto…
Não é que estava parada no semáforo aqui na Vila Industrial, a caminho de buscar o Davi na escolinha, e praticamente revivi cenas do filme em plena luz do dia? Um “morto-vivo” viciado em crack ou oxi (vai saber…) batia desesperadamente nos vidros dos carros e, ao invés de gritar “miolos!”, gritava “dinheiro!”, o que obviamente seria usado para comprar mais droga.
A lembrança forte do filme me surgiu quando ele chegou próximo ao meu vidro (que estava fechado… ai, que medo…) e pude olhar bem para o seu rosto. Descalço e com pouca roupa para aquele frio, parecia não sentir nada. Estava completamente anestesiado. Não havia qualquer traço de vida ou de humanidade. Olhos parados e mortos, iguais aos dos peixes. Ele não me via. Olhava algo além. Ficou parado, juro, igualzinho aos zumbis do filme, gritando “Dinheiro! Dinheiro!”. Sinceramente, me deu até desespero.
Essa horda de viciados em crack e oxi cresce em velocidade surpreendente. E eles ficam como os mortos-vivos: não têm alma, sentimentos, capacidade de raciocínio, quaisquer parâmetros que os torne ou os defina como humanos. Se movem como cadáveres apodrecidos em busca do “alívio para a existência” por meio das drogas. Não é só deprimente, é apavorante, como em um filme de terror. Para eles, que claro, também são vítimas, qualquer violência é justificável para se conseguir o que se precisa. São este mortos-vivos que hoje matam indiscriminadamente, com alto nível de banalização. Nada escapa: mãe, pai, filho, mulher, nenhum amor sobra, nenhum vínculo sobrevive, nenhuma recordação ou lembrança co-existe com as drogas, aliás, nada co-existe com as drogas.
No final do filme, o governo norte-americano, impotente diante da situação de descontrole na cidade povoada pelos zumbis, decide pela saída mais fácil: dizimar tudo com uma megabomba. Assim também eu me sinto diante do insustentável domínio das drogas na sociedade: impotente. Não sei quando estarei frente a frente de novo com um morto-vivo, e menos ainda qual será o resultado desse encontro. Me pergunto em quê momento a sociedade e seus governantes se darão conta da gravidade deste filme de terror e quais decisões serão tomadas…Quando tinha 19 anos, acreditava que o filme era apenas ficção. Hoje, sei que ficções muitas vezes são janelas do futuro.

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6 Respostas to “A volta dos mortos-vivos”

  1. andrea Says:

    misericordia ,

    ainda bem q o davi(d) nao viu isso.

    é o sunal dos tempos mesmo

    bj

    • Carol Says:

      Pois é amiga… tenho muito medo de perder Davi, como toda mãe… Apenas tento confiar que ele terá uma construção interna capaz de fazer boas escolhas… Beijos,

  2. Rui Motta Says:

    Interessante o que você falou sobre a ficção como uma janela para o futuro. Que bom, porque temos muitas boas histórias que bem poderiam ser uma antevisão de um mundo ideal que desejamos e lutamos por ele. Perca um pouco de suas referências de filmes de terror e concentre-se no mundo maravilhoso que você pode deixar para seu filho.

    • Carol Says:

      Em tempo Rui, Davi ganhou de presente pelos seu aniversário, que será nesta terça-feira, o filme “O Pequeno Príncipe”. Já assistimos pelo menos uma dúzia de vezes e estou embriagada pela poesia e sensibilidade da história. Bom conselho o seu… Beijos,

  3. JOSE CARLOS VIEIRA Says:

    A avassaladora disseminação da dogradicção é um dos reflexos do desequilibrio de uma civilização vivendo seus últimos estertores, como vaticinam muitas tradições sapiensais. Vivemos o fim da ” idade de ferro ” e no equinócio de verão do próximo ano , dar-se-á o declínio mais acentuado desse ciclo, antecedendo a ” idade dourada ” na década de 2020, quando a humanidade experenciará ciclo de espiritualidade e muitas das mazelas que vivenciamos estarão banidas. Portanto, o que se apresentava como ficção passou a ser realidade, impondo tomar consciência disso e adotar praticas e posturas especiais . Essas crianças e jovens usuários de drogas merecem compaixão e, ao defrontá-los devemos envolvê-los numa aura de luz violeta/dourada, sem contudo, descuidar de manter os vidros e portas dos veículos travados, As instituições públicas estão falidas e corroídas pela corrupção e portanto, não se pode reclamar de medidas proativas tendentes a minorar esse quadro dramático. Pequeno percentual dos recursos drenados pela corrupção, se aplicados em programas de manutenção das crianças em tempo integral nos estabelecimentos educacionais, cumprindo ” curriculum ” de conteúdo , acrescido de atividades artísticas e a discutida descriminalização das drogas, já experimentada com êxito em outros paises, seriam caminhos para reduzir drásticamente a violência. A situação é mais grave com os usuários de “crack/oxi” mais perigosos porque despojados de qualquer sensibilidade e matam friamente. Iniciativa de Juizes e Promotores de Justiça europeus, comprometidos com esse tema, concluiram ser assombroso o lucro do narcotráfico que chega a fantásticas somas de dois trilhões de dólares/ano. Essa é a grande dificuldade de combater esse cancro social, pois os bancos lucram com o dinheiro ” sujo ” , assim como políticos, polícia e outras instituições. Bem, esse tema é muito vasto e o espaço impõe limitações. Assim é importante adotarmos práticas de meditação matinal e contato com nosso ” antariamim ” ( divindade que cada um de nós possui, segundo filosofia indiana) , para estarmos energéticamente protegidos e não ficarmos paranóicos ao defrontarmos com os ” fantasmas ” dessa civilização. Beijos

    • Carol Says:

      Realmente me penaliza essa situação e me preocupa, principalmente por causa de Davi. Aguardo com fé o final da Idade do Ferro, para que possamos avançar como seres humanos. Beijos, Carol.

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