A segregação dos “trouxas”

Os “trouxas” (ou muggles, na tradução inglesa), conceito usado na série de livros de ficção Harry Potter, são personagens que não possuem poderes mágicos, não são bruxos e nem magos. São apenas pessoas comuns. A autora afirmou que sua intenção foi usar a palavra “trouxa” na conotação de fool, gíria usada por minorias para se referir a pessoas de fora. Aqui no nosso mundinho real também temos os “trouxas”, tribo da qual sou integrante. Nasci de família de trouxas, vivo como trouxa e crio meu filho como um futuro trouxa.
Só que aqui, no nosso mundinho, trouxa é todo aquele que acredita e vivencia a ética, a lei e leva em conta o direito do outro, muitas vezes, acima mesmo dos seus próprios direitos e interesses. Na adolescência, cheguei a ter raiva de ser trouxa. Acabava sendo deixada de lado, rotulada como “certinha”, “ajuizada demais”, “chata” e claro “trouxa”. O problema é que não conseguia ser “esperta” como outros jovens com quais convivia. Não sabia dar um jeitinho… Só de pensar em fazer alguma coisa fora dos meus parâmetros de valores, tinha dor de barriga e ficava com a mão gelada e suada.
Uma vez, por volta dos 12 anos, fui com colegas de classe ao supermercado e as meninas resolveram “pegar” uns batons sem pagar. Quando ouvi isso fiquei paralisada e logo fui dizendo que de jeito nenhum faria isso. Elas nem ligara, me chamaram de “covarde” e saíram do local com os batons escondidos dos bolsos. Eu fiquei morta de vergonha por elas e me distanciei. É claro que depois disso a amizade não foi a mesma.
É como andar com a “turminha da maconha” sem gostar de fumar maconha. No começo é divertido. Gente diferente, assuntos diferentes… Só que com o passar do tempo, você percebe que é um “peixe fora do aquário”. Não há um compartilhar, uma vez que não existe afinidades. Os assuntos começam a se repetir. Lembro que comecei a achar aquele povo muito chato e sem sentido. Fumavam e ficavam “viajandão”, falando coisas desconexas, rindo à toa. E eu ali, totalmente lúcida, escutando aquele monte de “m****”. Depois de um tempo, saí fora. Fui procurar uma tribo mais parecida comigo.
Lembro que fiquei horrorizada em ver as minhas “amigas|” roubando os batons… Na minha cabeça, vinha a frase que meu pai repetia para nós constantemente: “quem rouba um grampo rouba um milhão. Nos dois casos, o autor é ladrão.” Só de pensar que eu poderia ser pega fazendo uma coisa assim ficava com taquicardia e a certeza de que infartaria e morreria. E se isso de fato não acontecesse, meu pai trataria de me mandar para o “outro mundo” apenas com o olhar. Sou do tempo em que pai fulminava filho só com o olhar.
Até chegar aos quarenta anos, fui trouxa respondendo antes de tudo à essa voz interna do Pai, do censurador interno que todos nós construímos na nossa psiquê, com base nos exemplos de mestres, professores, pais e vínculos afetivos importantes. Mas, com a maturidade, percebi que sou mesmo “trouxa” por que quero e acredito nisso. Mesmo entendendo que muitas vezes “perco” sendo “trouxa”, me encontro em um seleto grupo que sabe realmente o valor, peso e a representatividade das palavras ética e dignidade na vida.
Não tenho varinha de condão, nem pó do pirlimpimpim. Quando preciso ir ao banco, entro na fila e espero. Quando não há vaga no estacionamento, ou desisto, ou pago uma particular ou vou à pé. Quando tenho meu cartão de banco clonado, fico horas ao telefone e faço via crucis nas agências bancárias até conseguir resolver o problema.Quando bato levemente o carro, deixo um cartão com o meu telefone para reparar o prejuízo, mesmo quando tantos lascaram meu carro inteiro e nunca se identificaram… O que fazer, eu sou mesmo uma “trouxa”…

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17 Respostas to “A segregação dos “trouxas””

  1. vera graça Says:

    Carol, sinto, e acho isso muito preocupante, que a tribo dos “trouxas” me parece diminuir a cada dia.
    Um bom exemplo são os “espertos” que não podem respeitar as vagas destinadas aos idosos ou às pessoas com necessidades especiais.
    Outro dia me deparei com uma jovem e elegante senhora que quase me atropelou para entrar em uma vaga destinada a pessoas com necessidades especiais, na entrada de uma agência bancária (não havia ninguém mais querendo a vaga, só ela) e quando saiu do carro verifiquei que não tinha nenhum problema físico e como a olhei com cara de “pouquíssimos” amigos, entrou quase correndo na agência e me dirigiu a seguinte pérola: nossa, estou morrendo de pressa; estou super atrasada!
    Bom, continuaremos fazendo parte da tribo que acredita que vale a pena ser ético, responsável e principalmente ter noção de cidadania, mesmo que nos chamem de “trouxas”.
    Beijos
    Vera Graça

    • Carol Says:

      Pois é amiga, acertei quando disse que busquei minha própria tribo. Tribo formada por pessoas como você, guerreira, ética, educada, delicada, bonita, carinhosa, ou seja, um espetáculo de gente. Tenho muito orgulho da nossa amizade.
      Beijos,
      CArol.

  2. andrea Says:

    os trouxas sao os q tem na essencia as coisas normais da vida .

    me sinto assim como vc

    renan nao é compreendido por ser assim tb.

    mudança de valores

    • Carol Says:

      Andrea,
      É difícil ser minoria, mas nesse caso específico, bem sinto consolada por partilhar dessa segregação com os meus amigos. Das pessoas que conheço, você é uma das que mais cumpre com a lei e a ordem, além de uma ética acima de suspeitas. Temos muitas afinidades…
      Beijos,
      Carol.

  3. Emerson Says:

    Eita Carolzinha…
    excelente texto…

    Quem não tem moral, não tem direitos.
    Seneca

    beijao saudoso..
    Emerson

    • Carol Says:

      Amigo Emerson,
      Obrigada por me prestigiar… Você, estudando nossos filósofos, sabe muito bem sobre a importâncias dessas questões em um mundo tão conturbado quanto o nosso. Ainda bem que somos da mesma tribo não é mesmo?
      Beijos.

  4. miriam veiga Says:

    olá,

    Oba ! Achei que não tinha mais “trouxas” por aí…então ainda restam esperanças…ufa !

    • Carol Says:

      Míriam,
      Remamos contra a maré, mas remamos. E assim, assim, fazemos toda a diferença na vida das pessoas e na soceidade. Acredito muitíssimo nisso, mesmo que não haja reconhecimento ou mesmo que nos chamem de “trouxas”.
      Abraço,
      Carol.

  5. Paulo Corrêa Neto Says:

    Carol
    Eu também vou continuar sendo trouxa por opção, se é que ser trouxa é se preocupar com as pessoas.
    Não acredito que as pessoas que desrrespeitam as regras, prejudicando seu semelhante possam ser felizes.
    Em algum momento da vida elas vão descobrir que não vale a pena.
    Beijos e Abraços
    Paulinho

    • Carol Says:

      É Paulo, acho que vbocê tem razão, embora acredite que essa pessoas buscam a felicidade em caminhos diferentes do nossos, e é clado, não a encontram. Rezo, sinceramente, para que as pessoas alcancem a paz de espírito e possam transformar o mundo e um mundo cada vez melhor para se viver.
      Beijos mil para você querdi Paulinho,
      Carol.

  6. rita Says:

    OI Carol, concordo plenamente com voce, acho que a vida seria bem melhor se as pessoas valorizassem mais o ser do que o ter,evitando assim que as pessoas queiram tirar vantagem sempre e se dar bem em cima de outros.eu tambem valorizo a ética e se isso é ser trouxa, eu também sou trouxa e quero continuar sendo assim.

    • Carol Says:

      Rita,
      Eu nunca tinha entendido bem a expressão Capitalismo Selvagem. Hoje, consigo plenamente. Esse “compra, compra, compra”, “você tem que ter, você tem que ter, você tem que der”, esmaga a gente dia a dia. É preciso ser muito convicto e ter vivenciado plenamente outros valores para superar essa pressão e ir em frente. Somos privilegiados porque fomos criados em uma geração com menor impacto televisivo e de marketing. Me preocupo muito com essa geração de agora. A dificuldade que os pais sentem em criar filhos hoje é gerada por esse combate a essas idéias perversas de consumo. É uma batalha desumana, os valores humanos contra a máquina que nos transforma em apenas sujeitos de consumo. Mas estamos aqui e faremos essa diferença. Eu acredito.
      Bjs,
      Carol.

  7. Antonio Carlos Says:

    oi Carol
    tudo bem minha querida?? faz tempo que não escrevo, mas estou sempre atento ao que você diz!!!

    tenho observado nossa sociedade moderna… os usuários de crack estão soltos e usando a vontade e a policia fala que não prende porque é uma questão de saúde pública… e se algum deles nos agride para pegar algum bem nosso e nos defendemos vem a policia, Datena, direitos humanos e acabam com a nossa reputação (nós temos algo a perder, eles não)… moto boy nas ruas de são Paulo.. batem no nosso carro, caem no chão vem a policia, resgate, samu, bombeiros helicóptero, Datena e ainda um monte de moto boy batendo no nosso carro e ameaçando quebrar a gente na porrada de não pagar o prejuízo do coitadinho caído no chão… estamos parado no farol… vem um moto boy e não consegue parar e arrebenta com nosso carro.. ele grita … ai dotor eu so moto boy num tenho dinheiro pra paga u sinho… mais um monte de moto boy gritando do nosso lado até o causador do estrago e o transtorno ir embora sem assumir nada e a gente com cara de TROUXA!!! bjs. minha querida e obrigado pela oportunidade do desabafo..com carinho AC.

  8. Gonçalves Says:

    Da ficção para a realidade, em nossa sociedade sob o manto publicitário da inversão de valores, onde o “Bem”, por ser comportado é classificado como tolo, inferior e chato; e o “Mal”, por ser desinibido, classificado como superior e empolgante; decorre daí a desastrosa idéia de que quem prática a maldade é mais esperto, legal e feliz. E como todos estão a procura da felicidade, optam mais ou menos vezes em praticar transgressões daquilo que sabem conscientemente ser o Bem. Ledo engano!
    Felizes são os que perseveram no caminho do Bem, pois assim como na ficção, aqui na vida real estamos no meio de uma batalha pela vida, e para estarmos do lado que sairá vencedor, temos de nos agarrar a modesta prática da benegnidade e da justiça.
    Tem um livro que, por uns é desconsiderado ou até ódiado, por outros é considerado porém mal usado, mas por uns poucos é realmente compreendido e valorizado. E o que você fez e faz, mediante a rigorosa, porém amorosa educação paterna, é o que este livro aconselha a toda humanidade a mais de 2000 anos:
    “Quem se empenha pela justiça e pela benevolência achará vida, justiça e glória.” Provérbios 21:21
    “Portanto, mantende-vos firmes, tendo os vossos lombos cingidos com a verdade, e vestindo a couraça da justiça, e tendo os vossos pés calçados do equipamento das boas novas de paz. Acima de tudo, tomai o grande escudo da fé, com que podereis apagar todos os projéteis ardentes do iníquo. Aceitai também o capacete de salvação e a espada do espírito, isto é, a palavra de Deus,” Efésios 6:14-17
    “Melhor é o filho necessitado, mas sábio, do que um rei velho, mas estúpido, que não veio saber o bastante para ser ainda avisado.” Eclesiastes 4:13
    No final das contas, veremos quem de fato foram os “trouxas”.
    Abraços e até breve

  9. gustavo lages Says:

    aposto, tarde, que vc é ariana (de áries) da gema.

    • Carol Says:

      Então, não sou não. Sou uma geminiana, signo da comunicação. Mas meu ascendente é Áries e como já passei dos quarenta anos, dizem que quem comanda agora é o ascendente. Abraço, Carol.

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