Só o amor permite

Nunca vou me esquecer o dia em que sentei na frente do meu ginecologista, chorando (literalmente) as pitangas de que meu casamento ia mal (estava muito depressiva nessa época) e quase não havia contato íntimo com o meu ex-marido, acreditando que ele iria se solidarizar com a minha situação. Então, calmamente, ele vira e sai com essa: “Só vejo duas alternativas diante do que você me contou: ou ele mudou de time ou ele tem uma amante. A questão é: o que você vai fazer sobre isso? Por que não de separa?”.
Fiquei embasbacada… parei de chorar na hora e comecei a gaguejar: “Ah! Eu não tenho dinheiro para me separar agora… como é que eu vou fazer… com quem eu vou contar..” e por aí foi o meu rosário de desculpas. “Meu bem”, retrucou ele, “Eu conheço mulheres em condições muito piores do que a sua, inclusive com filhos, que saíram com muita dignidade da relação com uma mão na frente e outra atrás e reconstruíram suas vidas. Filha, vai ser feliz”.
Cara, eu não fazia terapia ainda nesse período. Mas naquele momento, ouvindo aquelas palavras ditas de maneira direta e dura, comecei o meu processo interno de separação. Muito obrigada Dr. Deodatto!
Por outra feita, depois de dançar igual a uma pomba-gira de terreiro de umbanda em uma boate, me expondo das maneiras mais tolas que se pode imaginar, ouvi da minha amiga no dia seguinte durante o almoço (que ela marcou para conversar comigo): “Vendo você ontem, fiquei realmente preocupada com você. O que foi aquilo? Você não precisa disso. Que tipo de homem você espera atrair agindo daquela maneira?”.
Olhei para ela impassível, por fora. Por dentro, queria pular por cima da mesa, jogá-la no chão e bater nela até ela desmaiar (força de expressão apenas). Pra mim, aquele comentário foi o mesmo que pegar uma faca e enfiar no meu coração machucado. De verdade, eu ia mesmo nas baladas e tentava atrair a todo custo e usando qualquer estratégia o sexo masculino. A questão era, depois de atraído, ferir esse homem até a morte. Estava com raiva mesmo do masculino, só que não era consciente. Após aquele almoço, levei a questão para a terapia pela primeira vez, depois de mais de um ano de processo analítico, e, graças a Deus, entendi o ponto e passei a gerenciar melhor as coisas.
Outra situação que lembro com clareza foi em uma época que bebia até cair. Saía, enchia a cara, e voltava para casa no “automático”. Não sei quantos blecautes tive, daqueles em que a gente não lembra nada do que fez no dia anterior.
Achava “lindo” contar as situações de risco que passava para a terapeuta, achando que isso provaria como estava “sofrendo”. Um dia, depois de ouvir passivamente meu relato, ela disse na maior calma do mundo: “Presta bastante atenção no que vou dizer. Outra vez que você entrar aqui, querendo me contar sobre as situações de destruição que você se impõe, pode pegar a sua bolsinha, ir para casa e não voltar nunca mais. Eu não vou amar você e ficar esperando que um dia alguém venha me contar que você sofreu um acidente de carro de tanto beber. Escutou? Não quero mais saber dessas histórias. Já amo você e não quero que você se destrua desse jeito. Vamos superar isso juntas.” Precisa dizer mais alguma coisa? Parei com isso…
Bom, a essas pessoas que citei acima e tantas outras que passaram pela minha trajetória, o maior sentimento de gratidão. Me amavam tanto que foram além daquela nossa atitude de defesa de “passar a mão na cabeça” e me disseram diretamente o que precisava ouvir para acordar e refletir. Na hora, doeu. Mas depois, o que é dito por amor acaba deixando sementes e muitas brotam e dão frutos.
Os poderosos vínculos de amor não podem se deter diante das coisas que precisam ser ditas. Precisamos ir além da posição confortável de “sermos tão legasi!!!” e passar a mão na cabeça do outro, por medo que ele também não se ache no direito de nos dizer algumas “verdades” que também precisamos ouvir, ainda mais quando estamos visivelmente enganados.
Vínculo amoroso, intimidade, amizade é isso. Ir além. É dizer com carinho, assumir com afeto, uma posição diante de situações que envolvem pessoas que amamos. Essa pessoas que citei acima, poderiam ter endossado o meu pior. Mas me amavam o suficiente para por em risco a nossa relação e me obrigar a enxergar um novo ponto de vista. Ensinamentos profundo que jamais serão esquecidos.
A vocês meus queridos, NAMAS TE (pronuncia-se namastê). Composta por duas palavras sânscritas: namas (reverência, saudação) e te, você. Em síntese é saúdo a você, de coração, ao que deve ser retribuído com o mesmo cumprimento.

Tags:

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: