O outro é que nos espelha


Nos últimos seis meses recebi uma série de elogios e feedbacks mais detalhados sobre a minha mudança positiva e sensível com a vivência da maternidade. Se por um lado é sempre muito bom ouvir coisas boas sobre nós mesmos, por outro, nos conscientiza do tamanho do abismo que existe entre aquilo que pensamos que os outros vêem e sentem sobre nós e aquilo que efetivamente vêem e sentem sobre nós.
O tamanho do entusiamo das pessoas que falaram comigo me fez perceber o quanto eu era tão mais irascível, exigente, agressiva e inflexível. O quanto dava importância para detalhes e perdia, frequentemente, a noção do todo. Muitos, inclusive, evitavam qualquer tipo de contato pessoal ou profissional. Quando me viam, literalmente atravessavam a rua… É difícil digerir essas observações.
Teve um colega de trabalho que ficou tão admirado com minhas mudanças que até fez um comentário sobre o assunto no Facebook. Depois, ele me confidenciou que nunca tinha testemunhado uma transformação tão grande de uma hora para outra. Nem tanto mestre! Sei bem que as pessoas não mudam na essência. Mas considero que o amor incondicional por Davi reduziu as minhas expectativas e idealizações quanto à maneira como a vida deve ser e, portanto, diminuiu também a minha exigência em relação ao outro. Davi me tornou uma pessoa melhor.
Mas é evidente que não foi só a maternidade que gerou uma transformação tão profunda. Meus anos de dedicação ao processo analítico e de auto-conhecimento, somados à maturidade conquistada pela reflexão sobre as experiências que vivi também resultaram nessa outra “Carol”. A decisão mesmo de adotar meu filho foi fruto de um longo caminho percorrido. Não foi de um dia para o outro.
Sabe aquelas pesquisas comportamentais do tipo: veja se você é excessivamente ciumento? Pois é, não acredito nem um pouco nelas. Menos ainda quando sou eu quem responde ao questionário. O motivo é óbvio: respondemos com base naquilo que gostaríamos de ser e fazer e não com base naquilo que efetivamente somos e faríamos diante das situações apresentadas.
Além do quê, somos seres imprevisíveis. Podemos garantir que não tiraríamos satisfação com a “outra” e agir de maneira diametralmente oposta, quando partimos pra cima da rival ao vê-la com o companheiro amoroso. Vai saber…
Eu mesma tinhas tantas “verdades” e “certezas” sobre os motivos pelo quais não iria, de jeito nenhum, ser mãe…
Pois é, as coisas mudam. Mas a maneira como o outro pode contribuir para o nosso auto-conhecimento não. É preciso estar aberto e sensível para entender o feedback que o outro nos dá. Seja na distância que escolhe quando se aproxima da gente, seja nos gestos, olhar, tom de voz, e às vezes, de maneira bem direta, se queixando abertamente de um comportamento nosso.
É um verdadeiro tesouro quando conseguimos constituir uma relação com outro, cuja intimidade e vínculo sejam tão fortalecidos que permitem transparência e tolerância. Isso não significa que o outro estará 100% certo sobre a maneira como nos sente e vê, mas fará, no mínimo, com que façamos uma reflexão e avaliação sobre o que foi dito. Se necessário, poderemos então nos retratar, pedir desculpas, nos rever e, aí sim, mudar. A verdade exige afetividade, exige doçura.

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4 Respostas to “O outro é que nos espelha”

  1. Maria Ignês Says:

    Minha querida amiga
    Essa autoanásile que você fez, pra mim não muito a Carol que conheço, o que vem corroborar com o que você mesma disse. Nunca tive dificuldade de me relacionar com você. Cheguei, vi, senti e aceito as pessoas como elas são. Sempre achei você muito exigente, dura com você mesma e sempre disse isso. Muito fechada e desconfiada de tudo e de todos. Mas pra mim não fazia a menor diferença. Pra você sim, pois sofria e muito com tudo isso. Penso que a maternidade deixou você com a guarda mais baixa em relação aos sentimentos e a maneira vive-los. Nem todos querem fazer mal a você. O mundo está cheio de perigos, eu sei, mas há perigos reais e imaginários. Você vivia neste. Nós somos o que a vida nos fez e nos deu, mas podemos tirar muita coisa boa disso tudo e você conseguiu e vai conseguir mais ainda. Continue com a guarda aberta para a vida mas sempre atenta.
    Viva mais e confie em você e um pouco nos outros. Você tem a sensibilidade de saber em quem. Li uma vez num livro uma frase que gostei muito, porque acho que servia pra mim. ” Foi preciso muito quarto escuro para que eu visse a luz”
    Bjs, te amo assim como você é.

    • Carol Says:

      Amiga amada,
      Realmente, isto que você escreveu bate com a minha história. De fato, passei a precisar mais das pessoas com a chegada de Davi e me permiti receber mais, o que resultou em uma grande diferença na convivência com o outro. Como disse, a essência não muda, apenas que gerenciamos ou administramos melhor nosso entraves internos. Percebo que a vida nos força a encararmos as nossa maiores dificuldades e transcedê-las. Ainda bem!!!!
      Beijos,

  2. Jose Carlos Vieira Says:

    Às vezes queremos tanto uma pessoa que nossa relação passa ser contemplativa e esse sentimento permite vê-la mais virtuosa, superando atitudes e comportamentos antes notados como negativos. Projetamos , como na metáfora do espelho, nessa pessoa querida, qualidades que possuimos mas insconscientemente as mantemos encapsuladas ou ao contrário, almejamos apropriá-las para nossa “persona” . Avalio que os feed-backs que nos dão contém muito dessas observações mas não é só, pois sabemos sermos portadores de um patrimônio de memórias mesmo antes do momento da concepção que agrega-se ao genético. Somos uma história e isso os terapeutas procuram trazer à lume com as anamneses e regressões, para clarear atitudes , comportamentos e apontar nova senda a seguir. Ademais os acontecimentos acumulados em nossa existência , sejam familiares, sejam sociais vão se impregnando em nosso psiquismo, justificando por vezes os traços : “irascível, exigente, agressivo, inflexível ” Contudo, acolhi ensinamento de Ken Wilber de um espectro de consciência que distingue três níveis : pré-pessoal, pessoal e transpessoal´ e os percorremos em nossa trajetória existencial, embora nem todos os seres consigam atingir todos . Esse entendimento para mostrar nosso processo evolutivo, de superação de atos por nós mesmos recriminados. Somos portadores do ” livre – arbítrio ” e essa consciência é o atributo da evolução exigente de esforço. As mudanças se fazem notar pelos que nos circundam e mesmo que desconheçam sermos possuidores de uma “aura ” , milenarmente conhecida pelos povos do oriente e cientificamente comprovada pela criação da ” câmara Kirlian ” , no século passado . Empiricamente quem tem alguma sensibilidade , ainda que não enxergue a “aura” de outra pessoa, pode perceber seu humor, beleza interior e outras manifestações positivas ou não , próprias do ser humano. Certo é ainda que acontecimentos da vida como paixão, amor, maternidade, reconhecimento pessoal, profissional, etc. são fatores preponderantes para expressarmos silenciosamente nosso estágio. Não menos certo também, ser todo esse complexo, resultado da maturidade que nos traz humildade de reconhecer inexistirem ” verdades e certezas” e postularmos nas relações de alteridade ” transparência e tolerância ” . Porém não devemos nos deixar tomar por sentimentos de impotência ante inevitáveis reveses , lembrando “sermos uma promessa ainda não cumprida” ou compreendermos sermos “passantes ante a eternidade” como poetou Cecília Meirelles : ” Não sejas o de hoje.Não suspires por ontens. Não queiras ser o de amanhã. Faze-te sem limites no tempo, Vê a tua vida em todas as origens, em todas as existências, em todas as mortes e sabe que serás assim para sempre. Não queiras marcar a tua passagem, ela prossegue. É a passagem que se continua, é a tua eternidade. És tu. Essa é a reflexão. Fique com minha saudade.

    • Carol Says:

      É Zé, o processo afetivo e amoroso é uma “escola” para quem busca o auto-conhecimento e quer evoluir na vida. Sei bem que somos também produto do passado e estamos interferindo no futuro de nossos “herdeiros”. Suas palavras enriquecem nossas reflexões. Obrigada Zé,
      Beijos saudoso…

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