E a água levou…

É de arrepiar a nuca imaginar ver tudo o que se construiu ao longo de uma vida ir embora, levado pelas furiosas águas das enchentes. Não são apenas perdas materiais, como muitos gostariam de pensar, mas perdas, antes de tudo, afetivas e psíquicas, simbolizadas materialmente no âmbito externo. Fotos, cartas, documentos, roupas, lembranças de viagens, a geladeira que foi presente de final do ano, o edredom preferido para dormir, o óculos que ficava em cima da cômoda, os remédios, o perfume que já estava pela metade, a boneca preferida da filha… Coisas que têm suas histórias e guardam energias de emoções.
O que será que se passa na alma de uma criança quando vive experiência traumática desta magnitude? Quando vê tudo aquilo que considera e entende como “segurança”, “concreto”, ir ladeira abaixo… seu travesseiro, seu cobertor, seus livrinhos preferidos… Tiro como base Davi, meu filho de 2,5 anos. Quando mudo e pego um prato diferente, ele me olha e pede; “mamãe, quero o meu pratinho”. Percebo que sua vida é cheia de rituais que repetem e que isso lhe oferece alguma segurança psíquica e emocional. Quando pulo alguma etapa, ele me chama a atenção.
E então, a água leva tudo… Isso é viver, literalmente, o mito egípcio da Fênix. Vida, morte, vida.
Alguns vão superar e reconstruir suas vidas. Outros, jamais sairão daquela “noite chuvosa”.
Para os que ainda não conhecem esse fabuloso arquétipo, a Fênix, é um pássaro da mitologia grega que quando morria entrava em auto-combustão. Passado algum tempo renascia das próprias cinzas, simbolizando a esperança e a continuidade da vida após a morte, a ressurreição. Revestida de penas vermelhas e douradas, as cores do Sol nascente, possuía uma voz melodiosa que se tornava triste quando a morte se aproximava.
Numa situação como a que os cariocas enfrentam é preciso, como a ave mitológica, se recriar, se resgatar, a partir do que sobrou , das cinzas (dentro, internamente), a partir do vazio, do nada. A manutenção da fé de que se pode construir novamente toda a “realidade” anterior à catástrofe é a bóia salva-vidas no mar do desespero.
A se somar a todo esse trauma, a dor da perda humana. Os números assombram e chocam…
Em meio à tristeza, pânico, confusão nascem a esperança, a solidariedade, o amor fraterno e os verdadeiros heróis… E é como guerreiros que iniciarão suas jornadas míticas em busca de seu próprio resgate, de retomar sua própria história. De salvar suas próprias vidas e dar-lhes um novo sentido de vida e uma nova construção.
Minha oração agora é pelo despertar deste arquétipo que mora em cada um de nós!

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8 Respostas to “E a água levou…”

  1. Paulo Corrêa Neto Says:

    Carol
    Na vida a gente não sabe nada sobre o futuro. As vezes eu vejo as teorias que dizem que temos o poder de construir nosso futuro através de nossos pensamentos. Eu leio estas teorias e sinto que o pensamento positivo ajuda muito e a ação construtiva ajuda mais ainda; mas será que determina cem por cento o nosso futuro.
    A única coisa que acredito totalmente é que temos um tempo determinado para permanecer neste planeta e o que determina se valeu a pena ou não passar por aqui, é a quantidade de Amor que conseguirmos manter em nossos corações.
    Carol, voce está de Parabéns, pois voce percebeu a importância que o Amor tem em nossas vidas e foi ao encontro do Davi e com ele passou a ser um produtora de Amor tanto no seu coração como no coração do Davi, este Amor transborda para todos que entra em contato com voce.
    O fato da gente não saber nada sobre o futuro, nos abre um feixe de possibilidades, inclusive a possibilidade de toda essa gente que está perdendo tudo serem recompensado de alguma forma que a gente desconhece.
    Beijos e Abraços
    Paulinho

    • Carol Says:

      Paulinho,
      Estava com saudades de você neste espaço. Você é uma pessoa muito especial… sempre com palavras doces, de incentivo e de esperança para as pessoas. É um privilégio ser sua amiga e contar com esse seu carinho e lucidez. Muito obrigada amigo querido. Beijos,
      Carol.

  2. Antonio Carlos Says:

    oi Carol.
    é muita dor, então não tenho palavras, só a dor.

    O importante não é justificar o erro, mas impedir que ele se repita.
    Che Guevara

    todo ano é a mesma coisa, só muda a cidade, a justificativa politica é a mesma.

    não tenho palavras.
    com carinho e muita dor no coração.
    AC

    • Carol Says:

      É Toninho, o importante é mandar energias de renascimento e transcedência para essas pessoas. Não há como não se mobilizar com a tragédia…

  3. Jose Carlos Vieira Says:

    Sombrio cenário se apresenta neste ano ainda infante mas nada surpreendente, relativamente às catástrofes sazonais escandalosamente recorrentes e agravando-se a cada ano. Muitos têm sido os pronunciamentos manifestando indignação e apontando as causas. Seu texto aborda o aspecto das perdas humanas e materiais e o sofrimento que se abate com maior intensidade sobre multidão que vive à margem de urbanidade decente. Porém esse cenário sinaliza para eventos ainda mais devastadores pois sabidamente a sórdida classe política nutre-se , como abutres, desses episódios. Levantamentos revelam serem os recursos alocados para acorrer a situação emergencial, da ordem de 80% superior ao que seria necessário para dar solução definitiva mas isso eliminaria uma fonte de ganhos ilícitos, com a contratação, (valendo-se de licitações fraudulentas ) de empreiteiras e demais serviços restauradores. A esse lado tenebroso acrescenta-se a inação dos governos estadual (no caso do Rio) e federal federal com políticas públicas efetivamente saneadoras mas ao contrário a devastação florestal é galopante (desmentindo os dados manipulados) , principalmente da Amazonia que, por suas características influi no ecosistema planetário . Esta é a estação das chuvas mas o volume se elevou significativamente, isso porque com as árvores abatidas, a quimica da transformação de oxigênio fica comprometida e os ventos impulsionam as nuvens para o sul, causando os excessos. Esse quadro que não precisaria fazer lembrar o “inferno” poeticamente concebido por Dante Alighieri, indica para o pior. Os canteiros de obra da usina “Belo Monte” na Amazonia, estão preparados para iniciar essa gigantesca obra a custo de trinta bilhões de reais, possivelmente corrigido em seu curso, pelos artifícios embutidos nos contratos. Como renomados e comprometidos técnicos e ambientalistas anunciam, a obra aumentará os danos planetários , deslocará cerca de quarenta mil indios, sob a falaciosa justificativa de que “fornecerá energia para alavancar a economia do país e aumentar o número de empregos”. A mesma falácia foi utilizada para a criminosa transposição do S.Francisco. Escrevi em meados do ano passado um texto sobre isso e afirmei que a campanha presidencial petista, seria beneficiada com financiamento das empreiteiras que “ganharam” as licitações. Por isso havia açodamento do lulismo em sacramentar o empreendimento. Tão-logo a eleita toma posse, se reiniciam as preparações para essa inutilidade, já que existem alternativas menos onerosos e sem danos para o já exaurido ecosistema. Lembre-se ainda que foi aprovada nova legislação ambiental, cujo ante-projeto teve como relator Aldo Rebelo (infelizmente reeleito), reduzindo ainda a proteção das matas ciliares e concedendo anistia aos criminosos da natureza. Todos esses fatos a mim pessoalmente tem ainda o sabor de desapontamento, pois sou antigo admirador de Leonardo Boff, com quem compartilhei durante anos e militância de defesa de direitos humanos, sou seu leitor assíduo e ele que é incansável defensor da “Gaia” , representante do Brasil na assinatura da ” Carta da Terra” e proclamou apôio à candidata eleita. Para mim isso é intrigante e espero em algum momento haja oportunidade para questioná-lo . Bem, minha querida bloguista, seu texto foi provocativo e não pude conter minha indignação, excedendo-me na fala. Costumo dizer não mais me escandalizar com os acontecimentos que venho assistindo mas até meu último suspiro expressarei minha indignação. Deixo-a com saudade.

    • Carol Says:

      Zé,
      Você nunca se excede. Este espaço é antes de tudo um espaço democrático onde são debatidos todos os tipos de temas e posições. Agradeço suas palavras lúcidas e seu conhecimento, que é vasto, sendo compartilhado conosco. Sua indignação é também a minha, mas a tomada de consciência exigirá do ser humano momentos de terror e desespero. A recusa em assumir as responsabilidades por tudo o que nos acontece na vida acaba nos tornando “vítimas” de nossas escolhas ou da escolha de não escolher.
      Assistimos perplexos a recrudescimento da corrupção e da banalização da vida. A lamentar… Mas não podemos perder as esperanças e por mais que nademos contra a maré: avante!

  4. Maria Nilva Says:

    Carol querida, não sabia que você estava “de molho”. Espero que esteja melhor.
    Qaunto aos seus artigos, embora nem sempre faço comentários, tenho lido todos e cada vez mais tenho orgulho de ter você como amiga e como exemplo de pessoa: inteligente, sensível, antenada,etc. Essa situação de caos deixa a todos nós muito triste e impotente. Impossível não ficar indignado com tuda essa tragédia. Não sei o que existe de real nisso tudo, mas alguma coisa acontece para quem tinha que acontecer, pois, de outra forma, como explicar os milagres que ocorridos nessa tragédia. São pessoas escolhidas? como saber.
    Doante de tudo me recolho na minha pequenez em oração para todos os que precisam, acredito que de alguma forma essas pessoas possam receber um pouco da energia amanada e agradeço a Deus por tudo o que sou e por tudo o que tenho e o quanto sou abençoada.
    Um beijos a você e ao Davi (dois queridos)
    Em tempo…..vou te visistar logo pois estou com muita saudade.

    • Carol Says:

      Nilva querida,
      Agora estamos bem sim e vou cobrar sua visita viu?
      Só que minha tio, meu tio e uma amiga de São Paulo, ainda estão sofrendo os sintomas da conjuntivite. Mas, como dizem, tudo passará.
      Saudades suas também.
      Beijos mil,
      Carol.

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