Um momento de delicadeza…

Acabo de terminar um livro que, excepcionalmente, demorei muito para ler. Ele é daqueles que lemos aos pedaços bem pequenos, prorrogando ao máximo o prazer de tê-lo como companheiro diário. Daqueles que suspiramos com um certo pesar ao encerrar a última página. Profundo, delicado, poético e revolucionário na sua maneira de contar a história, percebo que não foi mera coincidência que eu tenha entrado, subitamente, em uma livraria, há quase seis meses, e comprado o exemplar sem qualquer tipo de referência, apenas pela beleza da capa e pelo título “A mulher do viajante do tempo”. Acho que é mesmo o Sr. Tempo correndo atrás de mim. Depois de ficar uma semana de licença médica, em casa, sem poder sair, por conta do risco de contágio (veja post anterior), esse livro foi redentor e me trouxe muitas reflexões.
Acho que estava mesmo vindo de 2010 e entrando em 2011 igual a uma pedra rolando de um despenhadeiro, ou seja, desembestada, sem ver ou sentir a minha passagem. Aí, deu no que deu: Meu organismo me deteve e me obrigou a reduzir a marcha para o ponto morto. Parei total e aproveitei o ensejo para me debruçar com mais atenção ao livro e tentar responder a algumas questões pessoais.
Escrito pela norte-americana, artista plástica e professora de criação literária, impressão tipográfica e produção editorial de luxo em uma universidade de Chicago, Audrey Niffenegger, o romance com 496 páginas é intenso e exige mais de Kairós (tempo da alma) do que de Cronos (tempo do relógio).
Ele conta a trajetória surpreendente do casal Henry e Clare. Quando os dois se conhecem, Henry tem 28 anos e é um bibliotecário rebelde e impulsivo e Clare, com 20 anos, uma linda e doce estudante de arte. Como qualquer casal, namoram, fazem sexo, noivam, trabalham, casam e tem uma filha.
O grande lance da história é que Henry sofre de um distúrbio genético raro. Dependendo da sua condição emocional e física, seu relógio biológico dá uma guinada para frente ou para trás, e ele se vê viajando no tempo, caindo de pára-quedas em momentos emocionalmente importantes de sua vida,tanto no passado quanto no futuro. Os deslocamentos temporais são imprevisíveis e provocados por acontecimentos estressantes. Não há qualquer controle ou lógica sobre como e quando. Apenas que sua “âncora”, em qualquer tempo é Claire, que sempre o espera, como as mulheres de Atenas esperavam seus homens voltarem da guerra, sem saber em que condições físicas ou emocionais.
A cada viagem, o encontro entre os dois acontece em idades diferentes. Clare com 5 anos, ele com 24. Ela com 30, ele com 21. É esse amor incondicional que faz com que Clare, para quem o tempo passa normalmente, aprenda a conviver com a situação, passando período de solidão e dúvidas sobre o retorno do amado.
Os diálogos são belos e a intensidade do sentimentos dos dois pode ser sentida e partilhada com quem lê. Dá para sentir a angústia, as dúvidas, o medo, mas também a força da paixão, o companheirismo, e principalmente a compreensão sobre o fato de não termos controle sobre absolutamente nada nesta existência.
A superação diária e a valorização do momento presente, do aqui e do agora, são evidenciados e lembrados a todo capítulo. Um livro com um texto sensível, simples, inteligente e bem humorado.
Não vou mentir não: quem espera um final açucarado e “feliz” pode perder as esperanças. O desfecho é poeticamente triste, sem ser doído. Factível diante da realidade que ambos enfrentam na trama.
Fica claro que o verdadeiro amor é capaz de transpor qualquer obstáculo, e acima de tudo, é eterno.

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6 Respostas to “Um momento de delicadeza…”

  1. Antonio Carlos Says:

    e ai minha querida Carol.
    já esta melhor?

    ao ler “um momento de delicadeza”… me fez lembrar esse texto do Osho.
    “Ame-se, respeite-se, seja gentil consigo mesmo. A menos que você seja amoroso para consigo mesmo, você não pode ser amoroso com ninguém, absolutamente. A menos que você seja atencioso consigo mesmo, você não pode ser atencioso com ninguém; é impossível.

    Eu lhe ensino a ser realmente egoísta, de modo que você possa ser altruísta. Não há contradição entre ser egoísta e ser altruísta: ser egoísta é a própria fonte de ser altruísta. Mas até agora você tem aprendido exatamente o oposto, lhe ensinaram o contrário.

    E qual tem sido o resultado desse ensinamento? Ninguém ama ninguém. A pessoa que se condena não pode amar ninguém. Se você não pode amar nem sequer a si mesmo – porque você é a pessoa mais próxima a você -, se seu amor não pode nem mesmo alcançar o ponto mais próximo, é impossível seu amor chegar até as estrelas. Você não pode amar nada – você pode fingir. E é isso que a humanidade se tornou: uma comunidade de fingidores, hipócritas.

    Por favor tente entender o que quero dizer por ser egoísta. Primeiro você tem que se amar, se conhecer, ser você mesmo. A partir disso, você irradiará amor, ternura, atenção com os outros. A partir da meditação, surge a verdadeira compaixão, mas a meditação é um fenômeno egoísta. Meditação significa deleitar-se consigo mesmo e com sua solitude, esquecer o mundo todo e simplesmente deleitar-se consigo mesmo. É um fenômeno egoísta, mas desse egoísmo surge grande altruísmo. E, então, não há nenhum vangloriar-se a respeito, você não se torna egoístico. Você não serve as pessoas; você não as faz sentir-se devedoras a você. Você simplesmente se deleita em compartilhar seu amor, sua alegria.”

    bjs. no seu coração e muita luz em 2011.
    com carinho
    AC.

  2. Jose Carlos Vieira Says:

    Sabemos sermos peregrinos neste planeta para aprendermos e cumprirmos saga contida em um campo akáshico e conforme primoroso texto apresentado em comentário supra, citando Osho, a meditação é poderoso instrumento para expansão da consciência e superação de estágios do “ego”, possibilitando, assim, mais acurada compreensão dos fenômenos psíquico-emocionais. Isso porque o acometimento por enfermidade ou qualquer outro evento capaz de ser traduzido como sinais, traz consigo ensinamentos importantes para nossa existência e a “consciência” desperta está apta a captá-los. Seu texto , ainda que implicitamente , revela a sincronicidade na aquisição do livro e sua utilidade tempos depois, quando seus olhos “enfermaram” para que fizesse uma pausa e interpretasse os signos que se lhe apresentaram . Relembro-a dos livros “O Corpo Fala”, “O corpo e seus simbolos” e “A doença como caminho”, respectivamente de Pierre Weil, Jean Yves Leloup e dois psicólogos americanos, cujos nomes me escapam neste momento, lecionando sobre isso que estamos a tratar, os quais lhe são conhecidos. A “conjuntivite” , embota a visão tornando-a nebulosa e é importante sinal a ser decodificado e você tem proficiência para isso. Esse acometimento assemalha-se tenuemente a perda da visão e remete à Saramago ao dizer que “Só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são” . Portanto, mergulhe no mais profundo de seu interior , na escuridão da “cegueira” para percerber os murmúrios do seu ser e emerja descortinando novos horizontes e “sentir-se nascida a cada momento para a eterna novidade do mundo” como poetou Fernando Pessoa. Fique com minha saudade.

    • Carol Says:

      Mais uma vez, palavras sábias e bem colocadas. Estou em mergulho ainda… espero submergir em breve… Beijos, e saudades…

  3. andrea Says:

    eu vi o filme desse livro

    • Carol Says:

      Olá querida Andrea! Estava com saudades de você… Feliz 2011 amiga.
      Espero que o filme faça jus à delicadeza do livro.
      Beijos,
      Carol.

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