Susto até no cinema

Me rendi, na semana passada, e fui assistir, em um dia de folga do jornal, o aclamado “Tropa de Elite 2”. Fiquei surpresa, depois indignada, chocada e por fim, resisti a sair no meio do filme, embora tenha conseguido ficar apenas até o fim do discurso do tal Capitão Nascimento no Senado. Depois, me fui. Sai com uma sensação de vazio no estômago, e não era fome…
Horrível e cruel. É inacreditável que o filme esteja sendo tratado como “catártico” para a platéia, que segundo a mídia, reage aos aplausos e gritos quando o “herói” dá uma violenta surra em um deputado corrupto, usando, como proteção pessoal, a “máquina”, a estrutura policial a qual está inserido. Será que ninguém percebeu que ele também foi um “canalha” quando montou uma falsa blitz policial para enquadrar o político para um acerto de contas totalmente pessoal? Será que as pessoas se deram conta que o “herói” é tão frio, cruel e violento quanto os “bandidos”? Bom basta dizer que bate no peito e se diz “cavêra”!
E o que dizer da notícia que li na qual algumas mulheres diziam que queriam um Capitão Nascimento dentro de casa? Deus me livre guarde! Um homem que não consegue manter uma relação mínima com o filho. Não consegue conversar com ele ou expressar qualquer coisa que chegue perto do que imaginamos ser o amor paternal. Um homem atormentado, que quando se vê cobrado dentro de casa, pela mulher, filho e até pelo rival, se embrenha mais ainda no trabalho e prefere não enfrentar os conflitos, reflexões e responsabilidades familiares. Um cara que quando o filho pergunta porque ele tem que ganhar a vida matando as pessoas, ele não sabe o que responder. Não sabe????? Pelo amor de Deus! Não sabe dizer porque MATA PESSOAS? Vai se tratar amigo… A noção dele, no filme, o tempo todo é de “limpeza” e “extermínio”. Parece mesmo que andou conversando com Hitler…
Com o sucesso do filme fica cada vez mais evidente como a sociedade está gravemente ferida e doente. O único personagem que achei “puro” e “inocente”, do ponto de vista positivo, foi o filho do próprio Capitão Nascimento, que nesta continuação é criado pelo rival, um integrante da Comissão de Direitos Humanos. Aquela mesma que o povo gosta de meter o pau e dizer que eles somente defendem bandidos e deixam os “pais de família” à míngua.
Olha, quem sou eu para entrar em terreno tão polêmico quanto esse, mas a questão é que, no filme, ele sabia o que estava defendendo e colocou a vida em risco em nome deste ideal. Isso sim me parece um cara bem mais heróico.
Cheguei no final da película sem esperança e sem conseguir “defender” ninguém. Todos são culpados. Todos nós somos responsáveis por esta situação. Todos nós fechamos os olhos para a realidade e nos sentamos confortavelmente em nossos sofás para assistir à guerra civil que acontece no Rio. Guerra essa que vem sendo há muito tempo, mas muito tempo, avisada. Então, guerra avisada, morre quem quer, diz o ditado popular.
Meu único prazer no filme foi ver Seu Jorge atuando magistralmente. Não posso deixar de admirar um homem que cresceu em uma favela carioca, perdeu o irmão em uma chacina, viu a família se desestruturar, morou três anos na rua e hoje é o que é. Salvo pela arte e pela música. Esse, eu reverencio.

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8 Respostas to “Susto até no cinema”

  1. Rui Motta Says:

    Não assisti o filme, não sei se verei, até porque não acredito que terei mais informação sobre o assunto do que as que a realidade me oferece. Ou ninguém sabe como funciona o sistema? Que os policiais são tão corruptos quanto os políticos? Triste país que tem um capitão Nascimento como herói e um Bope como símbolo de liberdade. Uma sociedade livre e segura não é aquela que tem um policial armado em cada esquina, mas aquela que não precisa de policiais…

    • Carol Says:

      Pois é Rui, imagina se precisamos de filme para nos contar a realidade, quando a realidade se impõe de maneira imperiosa nos morros cariocas… É uma pena que as pessoas não possam se sentir “responsáveis” pelo que está acontecendo. Enquanto isso, mais um pai de família foi baleado e morto hoje em Campinas, na frente do filho adolescente, em um assalto.

  2. Maria Ignês Says:

    Minha querida. Não assisti o filme, só o 1o e pra mim tá bom. Mas a realidade é essa mesmo. Ficamos sentados em casa vendo TV, e tudo nos parece um filme e não é. É a realidade e acho que a realidade é ainda pior, muito pior, não sabemos de tudo. Apesar do filme ser uma ficção é isso mesmo que acontece e muito mais. E acontence em todas as esferas: políticas, familiares, sociais, dentro das escolas, nas ruas, tá tudo contaminado. O descado com tudo proporciona o que assistimos hoje. O que importa aos que detêm o poder é GRANA, mais nada, o povo que se fo.. É tanto descaso, que quando aparece um filme desse o povo se sente realizado, por seus valores mudaram, e ele se sente vingado. É isso amiga. Não tá fácil não! bjs

    • Carol Says:

      Amiga, o que me arde mais é ver os valores trocados. O próprio diretor do filme, o cineasta José Padilha, ficou assombrado com a maneira como a mídia apresentou o filme e idealizou o personagem central, agora Coronel Nascimento, assim como ele se surpreendeu com a maneira como a platéia se identificou com ele. Não tá fácil, mas tenho que acreditar que há esperança…Se não por mim, pelo meu filho…
      Beijos,

  3. SS Says:

    Carol,
    Servi no CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva), enquanto estudava em prestigiada faculdade mantida pela Aeronáutica. Aquele serviço era obrigatório. Eu e meus colegas detestávamos os militares e levávamos o serviço militar na gandaia, e como éramos bolsistas da faculdade, os instrutores do CPOR também eram pouco exigentes conosco e nosso treinamento era leve.
    Certa vez, fomos treinar em um quartel do Exército. Na frente da sala, um sargento tentava falar sobre explosivos, enquanto a algazarra começava como sempre. De repente, o sargento virou-se, tirou a arma do coldre, deixou-a em cima da mesa e disparou em voz calma mas firme: vocês são diferentes de mim, e direi porque. Vcs são pagos para pensar. Eu sou pago para matar. E guerra funciona assim, vcs vão criar a tática e eu vou executar sem questionar. Portanto, pensem bem com quem vcs estão brincando.
    O silêncio que se seguiu permitia ouvir o ruído longínquo da estrada e a aula transcorreu em paz, com a turma respeitando, ou temendo o sargento.
    Eu tinha 18 anos e aprendi uma lição. Há várias funções na sociedade, cada uma deve ser cumprida por pessoas diferentes.
    Carol, o Cap Nascimento é humano. O Fantasma e o Batman da nossa infância vão à luta contra os terríveis e cruéis assassinos mas quando tiram a capa são humanitários e nobres. Aqui, fora dos quadrinhos, um lorde desmaia ao ver sangue, não consegue lidar com violência física. Como vc espera q o Cap. Nascimento volte para casa depois de viver daquele jeito e se comporte como um executivo voltando de uma reunião de negócios? Eu achei q o conflito que ele vive tentando conciliar dois mundos foi muito bem explorado no primeiro filme. E no segundo também. Não teria sido mais fácil para o Capitão casar-se com uma idiota qualquer q não o criticasse e esquecer o filho e a mulher? Esse foi a caminho q a mulher dele seguiu. Largou o marido e foi viver a vida confortável dela sem violência (o que no final não conseguiu). Isso é fácil sempre. Difícil é ajudar o outro a superar seus desafios.

    • Carol Says:

      Olá, você não deixou seu nome, mas adianto que é muito bem-vindo a este espaço virtual. Ele é democrático e posto meus textos esperando exatamente ouvir todo tipo de visão e reflexão. Agradeço seu depoimento. Considero tudo que as pessoas me contam como pérolas, pedaços de tesouros, experiências valiosíssimas… Mais uma vez obrigada. Minha indignação é menos com o filme seus personagens e mais com a platéia e a mídia. Você falou bem, o agora, Coronal Nascimento é humano, com falhas e defeitos de todo o tipo, não um “herói”. Precisamos de heróis sim, mas de outras maneiras e para outras causas. É preciso que cada um de nós assuma integralmente a nossa condição e resposnabilidade de cidadão. Só assim consigo vislumbrar alguma esperança…
      Abraço,
      Carol.

  4. Jose Carlos Vieira Says:

    As pessoas que detêm mais informações sabem ser a ficção mera reprodução da estrutura social em que vivemos e a arte tem essa função. Não obstante saibamos pelas críticas e atenta observação dos fatos o que vamos ver no cinema, sentimos uma espécie de compulsão visando comprovar o mundo deletério em que vivemos. Assisti os dois filmes e mesmo considerando o conhecimento empírico do tema, compartilho de avaliação feita à obra de Brecht, sobretudo seu Teatro, segundo a qual “ao assistirmos uma peça sua podemos ter os mais variados sentimentos mas ao final não seremos a mesma pessoa” , vale dizer : estamos irremediavelmente mexidos , com sensação de “vazio no estômago” , desesperança, nojo e outras mais. Importante pois a função da arte como potencial instrumento transformador. O filme no melhor estilo do festejado Costa Gravas (aliás cineasta que entregou estatueta à Padilha, em Festival de Cinema na França , com a qual teve reconhecido seu filme anterior) que tem em sua filmografia produções consideradas como extraordinários libelos ao fascismo de que se revestem as sangrentas ditaduras . O filme tem o mérito de escancarar a promiscuidade entre poder executivo, legislativo, polícia e criminalidade. Aborda ainda a participação dos ” movimentos de direitos humanos ” tão distorcido pelos desavisados que os vêem como meros ” defensores de bandidos ” , por não terem percepção de serem postuladores de uma ordem onde a justiça se oponha à barbárie , incompatível com o estágio civilizatório em que pretendemos estar. O filme não maquia inequívoco recorte fascista do principal protagonista e tampouco surpreende que o queiram herói, posto o entorpecimento social que reducionistamente precisa identificar alguém capaz de vingar toda vilania que se perpetra contra ela. Nada surpreende ainda o anunciado comportamento feminino de se sentirem obsequiadas com um “Capitão” em sua casa. Isso avalio, deve-se mais a liberação de “feromônios” , principalmente pelo ator que o personifica . Somos gratos vez mais por provocar reflexão de significativos temas.

    • Carol Says:

      Zé,

      Depois, relendo o post, percebi que na minha emoção, deixei entender que não gostei do filme, do ponto de vista cinematográfico, o que não é verdade. O filme tem muitas qualidades… apenas que não o quero na minha dvteca pessoal. Ai, ai… como diz você, avante!!! Há esperança…
      Bjs.
      Carol.

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