Médico ou monstro?


Recentemente minha irmã esteve no ginecologista para resolver uma hemorragia uterina recorrente. Com os exames em mãos, sentou-se e esperou as explicações médicas sobre o caso. Para a sua surpresa, o “doutor” foi setenciando: “Seu colo do útero está ‘esbagaçado’. Teremos que fazer mais exames, mas já vou marcar uma histerectomia”. Minha irmã me contou que ficou pasma com a sentença. Sem saber o que pensar, logo imaginou que se tratava de um câncer. Com a voz já embargada perguntou ao “doc”: “Será que é câncer?”. Ao que ele, na maior frieza, respondeu: “É, pode ser… mas precisamos investigar mais. Não posso dizer mais nada”.
Coitada da minha irmã. Saiu da sala do médico e não chegou à porta da rua: caiu literalmente dura. É, isso mesmo, desmaiou na recepção. Foi socorrida com um copo d’água pela secretária do “doc”.
Se recompôs como deu e saiu chorando no meio da rua, pensando que ia morrer de câncer e deixar os cinco filhos órfãos. Disse que não via nada na frente. Não sabe como pegou o ônibus e chegou em casa em segurança. Eu sei: foi Deus e sua proteção amorosa e divina.
Eu pergunto: “Alguém duvida que uma frase como essa, dita de forma fria e cruel, tem o poder de matar uma pessoa?”. Tenho certeza de que ninguém duvida…
Aqui na redação, tenho um amiga que sonha ser mãe. Estava grávida de algumas semanas quando percebeu que algo não estava bem. Foi ao gineco, que lhe pediu o óbvio: uma ultrassonografia. Acompanhada pela mãe, totalmente fragilizada e em pânico, escuta o médico (outro, o do laboratório de exames) lhe informar a frio: “Não tem bebê nenhum aqui…”. Assim, na lata, sem meadros. Foi pior do que apanhar na cara. Tudo ali, tão lógico, calculado e cruel. E, para completar a loucura, foi indicada para fazer curetagem e quando chegou ao hospital para o procedimento, o médico que lhe atendeu saiu com essa de primeira: “O que é que você aprontou para estar aqui?”. Como se a culpa fosse dela???? Cara! Tô ficando louca ou esses dois que se dizem “médicos” são na verdade “monstros”?
Isso não é nada perto das coisas que temos ouvido aqui na redação sobre a classe médica, sua atuação e incompetência. É, de verdade, assutador. Profissionais sem qualquer traço de humanidade, sem qualquer noção de delizadeza, sem fé. Capazes mesmo de matar uma pessoa com seus diagnósticos “precisos” e “definitivos”. Como se soubessem de tudo e tivessem poder ilimitado. Nos “coisificam” e nos “consomem” em ritmo frenético em seus consultórios. É apavorante e assustador…
Considero a classe médica a mais corporativista que existe. Rezo a Deus que me proteja e me conduza para as mãos de profissionais com o mínimo de ética e afetividade. Sei muito bem que todas as profissões contam com sua porcentagem de péssimos profissionais, mas a coisa está “escabrosa” na Medicina. É difícil abordar o tema na imprensa, mas conversando com os colegas, chegamos à conclusão que é assunto urgente.
Não dá para ficar completamente entregue a diagnósticos que nos são apresentados. É preciso questionar, pressionar, exigir, gritar, se for necessário. Não somos “pacientes”. Somos seres humanos. Pessoas com sentimentos e, principalmente, poder sobre nossos próprios organismos. Podemos, acredito piamente, reverter qualquer possibilidade. Leia só esta matéria da
agência de notícias Reuters, divulgada no mês passado:

“Os norte-americanos morrem mais cedo do que em vários outros países desenvolvidos, e a culpa não é dos suspeitos de sempre – obesidade, acidentes de trânsito e homicídios – segundo um estudo da Universidade Columbia, de Nova York. O mau atendimento médico é que é o responsável.
De acordo com o estudo, publicado na revista “Health Affairs”, a taxa de sobrevivência ao longo de 15 anos para homens e mulheres com idades de 45 a 65 anos caiu nos Estados Unidos nas últimas três décadas, em comparação com outros 12 países desenvolvidos.
Peter Muennig, coordenador do estudo, disse que fatores como obesidade, tabagismo, acidentes de trânsito e homicídios foram levados em conta, “mas o que realmente nos surpreendeu é que os suspeitos de sempre não são os culpados”, afirmou ele em nota. “Os EUA não se destacam para pior em nenhuma dessas áreas em relação aos outros países que estudamos, o que nos leva a crer que as falhas no sistema de saúde dos EUA, como o atendimento caro, especializado e fragmentado, devem ter um grande papel nesse desempenho relativamente ruim na melhoria da expectativa de vida.”

Tags:

14 Respostas to “Médico ou monstro?”

  1. Michele Says:

    Oi Carol, fiquei mais uma vez – como sempre fico – passado com as histórias de frieza dos médicos. Infelizmente não é raro. Nos resta peregrinar em busca de profissionais humanos e que também nos tratem como tal. Beijão!!

    • Carol Says:

      Pois é. Ainda bem que as exceções existem… Você sumiu do Sesc hein? Continuo indo religiosamente…gosto muito da programção deles. Beijos e saudades.
      Carol.

  2. Michele Says:

    Ops, passada! Fique tão passada que escrevi errado.

  3. Antonio Carlos Says:

    Oi minha querida Carol.

    Ao ler a vontade é dar porrada em todos os profissionais que não lembram o que é SER…HUMANO e o mundo a cada dia tem mais SER…CAPITALISTA e assim fica valendo quanto esse ser vai ganhar no final do mês, sem se importar quantos SERES HUMANOS foram magoados ou destruídos.

    é o mundo de hoje… Salve se quem puder!!!

    “Sonhe com o que você quiser.

    Vá para onde você queira ir.

    Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.

    Tenha felicidade bastante para fazê-la doce!

    Tenha Dificuldades para fazê-la forte!

    Tenha Tristeza para fazê-la humana!

    E…Tenha esperança suficiente para fazê-la feliz.”

    Clarice Lispector

    Beijos com carinho e saudades.

    AC.

    • Carol Says:

      Querido Toninho,
      Também tenho saudades de “vuchê” (como diria o pequeno grande Davi). Somos a tribo que nada contra a maré e de qualquer maneira, tambpem chegaremos lá.
      Beijos mil.

  4. andrea Says:

    um amigo meu conceituou bem essa nossa medicina : quando eles fazem medicina acham q sao deuses q quando se formama eles tem certeza”

    ” a medicina ocidental nao nos ve por inteiro , nos ve em partes desconectadas ”

    ” os sintomas q temos em nosso corpo , qq coisa , sao sinais . sua intensidade vai aumentando com objetivo de nos falar sobre coisas de nos mesmos ”

    ” a nossa medicina e farmaceutica nao nos deixa entrar em contato com nada ” bloqueamos qq sintoma . mas o nucleo fica la fervendo esperando uma brecha p sair de outro jeito”

    • Carol Says:

      O duro é que a “coisificação”, o “capitalismo desumano” está tomando conta de tudo. Ficamos reféns nas mãos destes péssimos humanos.
      Beijos,

  5. Rita Hennies Says:

    Oi, Carol! Sou a esposa do Alécio. Que bom ter lido seu texto, enviado por uma amiga, com a qual conversei ontem sobre a “medicina canalha” que s epratica atualmente. Só para ilustrar: Essa monstra de profissional é filha do desprezível médico que me lascou na cara, qdo da minha primeira perda gestacional, sem ao menos um “infelizmente”: “Seu bebê está morto!”…
    Essa classe corporativista, despreparada e CANALHA, salvo humanas (e poucas) exceções, deveria se envergonhar de pendurar um diploma tão importante na parede!

    • Carol Says:

      Rita, que bom que me escreveu… Comentei com a Adriana que a matéria que saiu na Metrópole estava muitíssimo boa. Ela acertou muito bem o “tom” e conseguiu nos atingir em cheio na emoção. Muitas de nós passamos pela experiência do aborto natural e não achamos espaço para chorar e nos enlutar pela nossa perda. Fiquei feliz que a revista possa abordar um assunto tão importante como esse e sei que a matéria (muito lindo sua foto com o João…) ecoa na alma de quem pode lê-la. Eu é que agradeço a sua disponibilidade, delicadeza e sensibilidade em falar sobre a sua vivência. Beijos a todos,
      Carol.

  6. Jose Carlos Vieira Says:

    “O EXERCÍCIO DA MEDICINA TAL COMO VEM SENDO PRATICADA, SERIA UMA QUESTÃO DE SÁUDE PÚBLICA? ” Esse questionamento tomou-me ao ler o ‘blog” e obviamente ele contém em si uma contradição (contradictio in adjecto), posto ter a medicina surgido com Hipócrates, para minorar os padecimentos das pessoas enfermas. Todavia, assistimos perplexos cotidianamente comportamentos médicos não apenas desumanos mas criminosos. A origem da degradação da medicina, como de resto, de todas as demais áreas do conhecimento pode ser detectada no cientificismo embasado na física clássica, que ensejou tecnologia incontestavelmente importante mas reforçou a prática da medicina de máquina. Por isso preconiza-se atualmente abordagem humanitária (a mesma inspiradora do Renascimento após as trevas medievais), onde o ” médico quântico” pratica medicina consciente voltada para pessoas não para maquinas. Considere-se ainda estarem as faculdades com obsoleta pedagogia de formação de profissionais para o mercado e isso assume maior gravidade na área da saúde, pois seres humanos não são consumiveis, no sentido mercadológico. A lógica capitalista-consumista (substantivos indissociáveis) é responsável por essa situação e destruição de valores éticos de uma sociedade que se pretenda civilizada. Recentemete um médico-pesquisar de Havard publicou livro comprovando , o que já era sabido, estarem os médicos a serviço dos laboratórios e conglomerados de interesse capitalista. A mídia que tem inegável poder de investigar, divulgar e influir na formação de opinião que, em última análise, contribui para o aprimoramento institucional, queda-se silente em omissão (não gratuita assinale-se) é verdade que com honrosas exceções . Portanto, tenhamos esperança de que a sociedade chegará a um momento de adotar práticas médicas de respeito a dignidade humana . Esses pronunciamentos indignados contribuem para formação de massa critica ensejadora de transformações.

  7. paulo.barretto Says:

    É interessante você vir aqui falar sobre isso. Recentemente uma dor do passado vem me fazendo reflitir e venho pensando se poderia processar um erro médico feito comigo pelo mesmo médico que atendeu sua irmã. (força de expressão)
    Tinha apenas 15 anos quando fui a um urologista (que infelizmente não sei o nome deste infeliz), felizmente tinha a meu lado minha amada mãe, quando ele nos disse que eu era estéril e que nunca poderia ter um filho. Disse simplesmente assim, na lata. Sem nenhuma explicação do porque isso teria acontecido ou mesmo se havia um tratamento.
    Passei a juventude toda com aquilo na alma, por causa disso tive uma história sexual difícil, embora não fosse anormal em mais nada na minha vida sexual, tinha muitos medos para me relacionar e medo de como explicar isso as minhas namoradas sérias pois sempre acreditava que a mulher quisesse ter filhos coisa que eu não poderia prover.
    Sempre sonhando em encontrar alguém que ou não quisesse ter filhos ou que já os tivesse pois sempre tive essa crença de que uma mulher só se sente realizada como mulher quando tem um filho, ou mesmo alguém que aceitasse adotar um.
    Recentemente há 4 anos atrás descobri com um endocrinologista muito sensível e especial para mim que o que eu tinha tido não era algo como caxumba e que a culpa não estava em meus pais dos quais eu culpei por muitos anos, pensando que minha mãe teria me forçado a ir a escola num dia de febre pensando que eu estaria tentando fugir das aulas ou coisa assim. Na verdade eu nasci com sindrome de Klinefelter e um simples exame de sangue que poderia ter sido feita na primeira vez em que fui ao médico poderia ter evitado tanta dor e complicações na minha vida de criança e como adulto. E sim poderia ter feito um tratamento com testosterona que também teria me ajudado e evitado tantas dores de cabeça.
    Não podemos aceitar apenas um parecer de um médico, temos de ter pelo menos outro, talvez perguntar a amigos conselhos de um bom médico alguém que saibamos que acredite em Deus e milagres, pois estes que se acreditam serem deuses são os piores.
    Ainda penso em processar aquele idiota que conheci há quase 30 anos atras.
    Boa sorte com sua irmã.

    • Carol Says:

      Nossa Paulo, que depoimento forte… Acredito que 99,9% da população tem uma história de “horror” para contar envolvendo algum médico desumano. Mas, graças a Deus existem as exceções que nos salvam. Fico feliz em perceber que você pode falar com tranquilidade sobre o assunto, demonstrando que superou o que aconteceu.
      Beijos,
      Carol.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: