É de menino ou de menina?

Coisas de menino… Quem define isso? Acho infernal que uma criança seja “conduzida” constantemente, consciente ou inconscientemente, pelos adultos a optar por “coisas femininas” e “coisas masculinas”. Outro dia, meu filho Davi, de 2 anos e quatro meses, saiu com a babá, e ao passarem por uma papelaria, ela ofereceu cartelas de adesivo. Pediu que ele escolhesse o tema. Para sua surpresa ele pediu: “Quero a de princesas!”. À noite, ela veio me contar. Perguntei qual tinha sido a sua reação e, talvez por me conhecer bem, respondeu que não disse coisa alguma, apenas pagou e levou a cartela, junto com outra do pica-pau.
Quando ele empurra carinho de boneca, brinca em fogãozinho e embala boneca no colo, logo as crianças chegam perto de mim e perguntam: “Tia, isso não é coisa de menina?”. Respondo com naturalidade: “Porque você acha isso? Seu pai não embala você no colo? Seu pai não faz nada na cozinha? Seu pai não cuida de você? Então, cuidar e amar são coisas de menino e de menina”.
Duro é que essa questão cultural está entranhada na gente e outro dia me peguei descartando uma blusa que estava escolhendo para o Davi apenas porque era cor-de-rosa. Fiquei chocada comigo mesma, mas voltei atrás a tempo de levar, sem problemas, a blusa para ele usar. O rosa não é exclusividade feminina e Davi gosta bastante desta cor.
Outro dia saí do banho e dei de cara com ele vestido com a minha blusa, cheio de colares e com os meus sapatos altos. Achei o máximo! Pura e simples curiosidade de criança. O querer experimentar as “coisas da mamãe”.
Li em um blog uma mãe que reclamava do fato de a escola, enquanto instituição, não ajudar a quebrar estereótipos bobos como esses. Concordo plenamente, e não apenas a respeito de estereótipo relacionado a gênero, mas basicamente, de todo o tipo de “pré-conceito”. As pessoas precisam se reciclar urgentemente. É claro que esse é um processo de transformação lento, mas precisa ser iniciado em algum momento, não é?
Fico mais incomodada ainda em perceber que a vigília e a fiscalização são imensamente maiores em relação às meninas. Coitadas! É tudo tão radicalmente voltado para o que socialmente se designa como “comportado”. Sentar de pernas aberta? Nem pensar! Calcinha aparecendo? Deus me livre e guarde! Gestos agressivos? Proibido!
Procuro ficar atenta ao que Davi deseja conhecer e não ao que eu possa achar que ele deva desejar conhecer, entende? Assim, se ele quiser, me pedir e e eu achar que é conveniente, posso sim dar uma pequena cozinha para ele brincar de casinha. Afinal, ele não será um pai e um marido capaz de fazer qualquer serviço doméstico e cuidar e amar sua mulher e prole?
Se ele quiser e se interessar em aprender a costurar ou fazer crochê, vou ensinar a fazer sim!
Em que período melhor podemos experimentar todo o nosso potencial senão nestes primeiros anos de vida? É um período em que a criança observa tudo e quer imitar os adultos. Quer “brincar” recriando os processos e vivencias do dia a dia. E o que faz uma criança com dois anos além de comer, trocar de fralda, brincar do parquinho, ir ao pediatra, dormir… Coisas simples do cuidar… Espero que ele desenvolva todas as suas potencialidades, práticas, afetivas e de raciocínio. Quero que meu filho possa ser um inteiro, na construção do que ele puder absorver e censurar ao longo da sua história.

Tags:

6 Respostas to “É de menino ou de menina?”

  1. andrea Says:

    verdade , as brincadeiras de criança nos empurram p uma vida demarcada , enqanto q na realidade quem de nos mulheres nao desempenha diariamente afazeres masculinos ?

    quantos homens tiveram ou tem q aprender hj afazeres femininos?

    desenvolvemos as duas maos .

    quanto a roupa : eu so sinto e observo q a moda é moda mendigo. tudo rasgado , furado e com cara de usado. uma roupa por cima da outra . e as calças caindo pelo corpo? alguem me explica? ai q saudads das roupas bonitas e confortaveis.

    e os cabelos ? cabelo bagunçado , esticado , lambido , mil cores ……
    as vezes nao sabemos o sexo do ser q vemos passar na rua.

    temos q fluir na vida e adaptar e aceitar as mudanças , mas existem algumas q eu nao abro mao.

    • Carol Says:

      Querida Andrea,
      Estava com saudades de você neste espaço…A questão toda é “arejar” nossos conceitos e, como você bem disse, deixar as coisas fluírem. Nossa potencialidades são trão grandes e nos colocamos em situações nas quais sabemos de antemão que não poderemos desenvolvê-las… Não é estranho como muitas vezes nos boicotamos?
      Beijos,

  2. Rui Motta Says:

    Como risco de ser mal compreendido. Concordo com tudo o que você disse. Mas, é preciso que o modelo paterno masculino também esteja presente, não propriamente na figura de um pai presente, mas em conceitos, histórias, amigos, comportamentos. Aí, sim, ele poderá satisfazer suas curiosidades em ambiente equilibrado.

    • Carol Says:

      De jeito nenhum você seria mal compreendido. A figura masculina paterna é essencial para a formação de uma criança, seja ela menino ou menina. Para um, será exemplo de comportamento e espelho. Para outro, modelo de companheiro a buscar. A idéia proposta é exatamente ir além do convencional, que já inclui o que encaixamos como masculino no nosso mundo, e apresentar também a possibilidade de conhecer e vivenciar os que definimos como coisas femininas. Mesmo que você crie um menino em um ambiente mais feminino, isso não interfere obrigatoriamente em sua escolha sexual ou irá gerar um comportamento “afetado”. Davi tem uma convivência muito grande com meu tio e dois primos, além, de meus amigos e figuras masculinas do nosso dia-a-dia.

  3. bibiana Says:

    Carol, ao contrário do Davi fui uma criança que amava jogar bola, brincar de queimada, andar de bike e todas as “coisas de moleque”. Odiava bonecas, panelinhas e ursos de pelúcia. Nunca ninguém me reprimiu. Meus pais permitiram que eu escolhesse com que brincar. Hoje “consigo” ser mulher, mãe, dona de casa etc! bj

    • Carol Says:

      Eu acho é que você conseguiu muito mais. Hoje, precisando, voc~e é capaz de desempenhar qualquer papel que seja necessário, inclusive de provedora da sua família. É essa flexibilidade que gostaria que Davi tivesse sem receios… a possibilidade de se permitir viver as várias facetas de um ser humano íntegro e inteiro. Graças a Deus existem pais lúcidos, não é mesmo?!… beijos,
      Carol.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: