Sapatinhos vermelhos

Repentinamente, minha amiga se virou pra mim no trabalho e disse: “Meus Deus, já estamos em novembro outra vez… Nem vi o ano passar e estamos às voltas novamente com as festas de fim de ano, depois vem as matrículas, material escolar, IPVA, IPTU…”, com uma carinha pra lá de assustada. Ponderou por um momento e me perguntou: “Será que o tempo está passando mais rápido ou é impressão minha?”
Não querida Sheila, não é impressão sua. Respondendo, o tempo todo, às exigências desta sociedade contemporânea, cuja base é o consumo, não vemos mesmo o tempo passar. Não dá tempo…
Na hora me lembrei do conto de fadas “Sapatinhos Vermelhos”, interpretado à luz da psicanálise no livro “Mulheres Correm com os Lobos” por Clarissa Pinkólas Ester.
A história tem várias versões nos detalhes, mas no geral é resumidamente o seguinte:
Uma menina pobre e sozinha mora em uma cabana, na floresta. É tão pobre que nem sapatos tem e seu grande sonho é ter um par de sapatos vermelhos. Ela mesma fez um par de sapatos vermelhos de pano, com os retalhos que encontrava. Ela adorava esse sapatos e usá-los fazia com que se sentisse feliz, mesmo frente às dificuldade diárias pela sobrevivência.
Quando andava pela estrada, acabou encantando uma velha muito rica que resolveu criá-la como filha. Ao chegar à mansão, foi banhada, penteada e vestida. Seus sapatos de retalhos, jogados fora.
A menina agora era obrigada a ficar sentada, quietinha, o dia todo. Não podia comer com as mãos. Não podia correr ou pular, ou rolar na grama. E, quanto mais o tempo passava, mais falta ela sentia de seus lindos sapatinhos vermelhos feitos à mão.
Um dia, a velha levou a menina a um velho sapateiro aleijado, que era considerado muito bom, para fazer um par de sapatos novos para a ocasião especial. Na vitrine do sapateiro havia um lindo par de sapatos vermelhos, do melhor couro. A menina escolheu os sapatos vermelhos.
Usando-os foi à missa com a velha e na saída, um velho soldado disse para a menina “que belas sapatilhas para dançar”. E a menina, mesmo sem querer, começou a rodopiar ali mesmo.
Ela continuou dançando, dando voltas, fazendo piruetas. Todos corriam atrás, assustados. Finalmente, um grupo de pessoas conseguiu segurá-la, e o cocheiro arrancou os sapatos vermelhos, com grande dificuldade, dos pés da menina. Os sapatos foram colocados no fundo do armário, com a ordem de que ela jamais colocasse eles nos pés novamente. A menina, entretanto, não conseguia parar de pensar nos sapatos. Muitas vezes abria o armário, e ficava espiando os seus lindos sapatinhos vermelhos.
Sem resistir ao desejo, desobedeceu a velha e pôs nos pés os sapatos vermelhos. Imediatamente, começou a dançar, rodopiar, bailar. E assim ela saiu de casa, dançando, e atravessou a propriedade, dançando, e chegou na floresta, dançando. Exausta, tentava, vez por outra, arrancá-los. Mas não conseguia. Por fim, procurou o carrasco de uma aldeia, e lhe implorou que cortasse os sapatos. O carrasco tentou, mas não conseguiu. Desesperada, a menina disse “então corte-me os pés, não posso viver dançando”. O carrasco, penalizado e implorando perdão a ela e a Deus, cortou seus pés, com lágrimas nos olhos. E os seus pés, com sapatinhos vermelhos e tudo, continuaram dançando, dançando, dançando, pelo mundo afora.
Nem parece conto de fadas para crianças de tão horrível, cruel e real a história. Mas ela se encaixa na maneira como às vezes colocamos nossos sapatinhos vermelhos, respondendo ao mundo externo, dançando, dançando, dançando freneticamente, e nos esquecendo de nosso próprio ritmo, de nossas necessidades de alma.
Periodicamente a vida nos lembra, com algum fato ou situação chocante, qual o valor do nosso sapatinho feito à mão, costurado por retalhos. Não é tão lindo e nem tão brilhante quanto o par de verniz na vitrine do outro (sempre é a do outro), mas tem o nosso cheiro, é único, original, representa e conta quem somos nós.
Assim como na história infantil, nos fascinamos por algo que vemos ao longe e que, na maioria das vezes, não nos traz qualquer satisfação ou felicidade. Deixamos de viver o aqui e o agora com a alma, na expectativa do que viveremos nossos anseios no futuro: depois que os filhos crescerem, depois que a aposentadoria chegar, depois de pagar a hipoteca da casa, depois, depois, depois…
Abrimos mão daquilo que desejamos por aquilo que achamos que desejamos ou o que percebemos que os outros desejam para nós.
Deixamos que os sapatinhos “amaldiçoados” se grudem em nossos pés e nos ponham para dançar uma música que sequer ouvimos. Movimentos frenéticos que levam muitos à beira da loucura e até mesmo à automutilação para se livrar desse par vermelho diabólico.
Considero que episódios de pânico, ansiedade, depressão e até tédio, sejam indícios de que podemos estar com o par de sapatos errados. A maneira como vemos o tempo passar sem nos darmos conta também denuncia nosso ritmo antinatural.
Quem se interessar por uma análise mais detalhada deste conto pode, além do livro da Clarissa Pinkólas, acessar o site: http://www.femininoplural.com.br/fogo/lenda/sapatoensina.html. Gostei da abordagem e da maneira direta pela qual os símbolos são decifrados e interpretados. Vale a pena conferir e refletir. Muitos insights…

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6 Respostas to “Sapatinhos vermelhos”

  1. andrea Says:

    vc tem o toque de midas quando escreve.

    quando criança escutei essa estoria mil vezes, depois em 2000 li a biblia das mulheres ( mulheres q correm com os lobos) ; ainda assim so quando vc escreve eu entendo.

    vou te contratar p me fazer entender tanta coisa.

    tb tive e usei um par de sapatos vermelhos com salto durante anos.

    carol , como posso lhe agradecer os insights recebidos aqui semanalmente?

    os trechos q + me tocaram foram: o quanto respondi ao estimulo externo e o quanto me esqueci do meu ritmo ( o de hj é mais parecido comigo) e a diferença entre desejar e achar q necessito.

    1 caminhao de anjos p vc

  2. Carol Says:

    Eu é que tenho que te agradecer pelo seu carinho e interesse por aquilo que escrevo.
    Um caminhão de anjos para você também.
    Beijos,

  3. Jose Carlos Vieira Says:

    O TEMPO, com a conotação conhecida, sabidamente foi concebido por vários calendários preponderando o Gregoriano, vigente em quase todo o ocidente. Porém, o físico germânico Schumann, concluiu estar a terra movimentando-se em frequência de megahertz ( fenômeno “ressonância Schumann” ) mais aceleradamente. Portanto, a aceleração é real e a isso acresça-se o ritmo frenético imposto pela vida moderna, notadamente para a maioria da população urbana, pois a rurícola tem diminuída essa percepção, por sua maior conexão com a natureza. Lembre-se ainda ter Einstein mostrado a insustentabilidade da teoria Newtoniana de um tempo único e uniforme . O CONSUMISMO atrelado a isso é outro ingrediente a ampliar a percepção de fugacidade, pois a civilização atual , com raríssimas exceções, submergiu ao consumo desenfreado e até mesmo inconscientemente põe-se a buscar meios para satisfação das “necessidades” artificiais , quase totalmente supérfluas e as conquistas estão sempre aquém da velocidade do tempo . Entra-se em insano turbilhão, gerador de frustrações, enfermidades, depressões e tantas outras mazelas da vida contemporânea. O SAPATINHO VERMELHO, bela metáfora da simplicidade e dos valores verdadeiramente humanizadores , é vencido posto relegado a plano secundário e o desfrute dos momentos que permitem viver episódios de felicidade, sucumbem e com muita freqüência são relembrados quando se está nos estertores desta existência , sobretudo para aqueles ignorantes de ser a vida divina que “nunca nasceu e, portanto, nunca morrerá” . Não amputemos nossos pés para retirada dos “sapatinhos” e rechacemos todas as investidas de roubarem nossos sonhos. Avante pois em direção à luz.

  4. Maria Ignês Says:

    Carol querida
    Adorei falar com você, acho que os sapatinhos vermelhos estavam na minha lingua. Pensando bem, cada um coloca o sapatinho onde tem mais necessidade, ah ah ah. Sabe, esse livro é meu livro de cabeceira. Dependendo de como me sinto, e não tendo aqui, amigas irmãs, e nem analista, me consolo com ele. Hoje o entardecer estava lindo!! O entardecer pode ser bonito também. Me lembrei de um fado maravilhso que diz ” Era a tarde mais linda de todas as tardes que me acontecia, eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia”…
    Não falei? o sapatinho está na lingua.
    Querida, assim que puder venha com o Davi passar uns dias comigo.Nada como colocar os pés descalços na terra para sentir a natureza. Amo você, beijos

    • Carol Says:

      Ah! Maria Ignês,
      Ganhei o dia ouvindo sua voz na sexta-feira. O entardecer estava à sua espera na fazenda, para saudar a sua chegada. Assim que der, eu e Davi iremos vê-la. Também amo você,
      Beijos,
      Carol.

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