Bullying: ritual (cruel) de passagem???

Sempre gostei de ter na escola amigas CDF. Queria ser como elas: saber com facilidade as matérias sem precisar estudar. Eu também sentava na fileira da frente e tinha excelentes notas, mas não sem estudar muito e me esforçar diariamente para tentar entender as explicações dos professores.

Com nove anos conheci a Nara. Uma japonesinha tímida, extremamente educada, um doce. Até hoje tenho saudades dela. Foi minha melhor amiga na 3ª série do Ensino Fundamental (naquela época tinha outra denominação, mas não vem ao caso).

Éramos “unha e carne” o dia todo na escola e ainda frequentávamos a casa uma da outra esporadicamente.
Um dia, como em qualquer amizade, quebramos o pau. Não me lembro, de verdade, o motivo, mas deixei ela de lado e passei a andar com outra menina, também CDF.

Movida pela raiva, criei uma versão diferente de uma estrofe da música do Zé Ramalho “Frevo Mulher”, apenas para provocá-la e humilhá-la (na época não tinha consciência nem dimensão dos fatos). O trecho original era o seguinte:

“É quando o vento sacode a cabeleira
A trança toda vermelha
Um olho cego vagueia procurando por um”

Eu esperava ela passar perto e cantava:

“É quando o vento sacode a cabeleira
Da Nara toda “peideira”
Um olho cego vagueia procurando por ela”

Cantei isso no primeiro dia….cantei isso no segundo dia… cantei isso no terceiro dia. Já me casa, depois da aula, vejo minha mãe atender ao telefone e me dar “aquela olhada”. Um gelo me subiu pela espinha e tive a certeza de que era a mãe da Nara. Só ouvi minha mãe dizendo no final “fique tranquila que a Ana Carolina vai ligar para a sua filha já, já”.

Ela veio na minha direção, sentou no sofá, olhou bem nos meus olhos e disse: “Estou muito decepcionada com você”. Foi pior do que tomar um tapa na cara. Fiquei que não sabia em que buraco me esconder. Comecei a gaguejar e tentar explicar o que havia acontecido. “Não quero saber. Nada justifica o seu comportamento. A sua amiga, de quem você gosta tanto, disse hoje, chorando, que não vai mais voltar para a escola por vergonha da sua musiquinha e tristeza de ter perdido o seu afeto. Não me interessa o que aconteceu, você vai ligar agora para ela, pedir desculpas, prometer que nunca mais vai cantar essa música e confirmar que ela é sua amiga de novo. Entendeu?”

Comecei a chorar de raiva por ser pega no pulo e ter que recuar. Como toda criança, me senti injustiçada na hora. Mesmo assim obedeci e chorando mesmo peguei o telefone e liguei para ela. Me lembro disso como se fosse hoje, 33 anos depois. Minha mãe ficou ao lado, para garantir que eu iria dizer e fazer a coisa certa.

No dia seguinte, ainda com raiva, fui para a escola. Quando entrei no portão, ela estava me esperando e, acredite, veio correndo me abraçar e me beijar. Ainda hoje meus olhos se enchem de lágrima quando me lembro do alívio e felicidade que ela estava. Imagina a generosidade deste ser em querer, ainda assim, ser minha amiga depois do que eu fiz…Abracei ela de volta e, magicamente, tudo se foi, a raiva, a briga, a música… Voltamos a ser melhores amigas, agora, mais melhores amigas ainda.

Veja você, eu, tão novinha, e já praticando bullying. Mas, também já fui a outra ponta da corda. Fui apelidada de pau de vira-tripa e olívia-palito, por causa da magreza; banana, porque rima com Ana; quatro-olhos, porque usava óculos; fora as vezes que que me abaixaram as calças em público, numa das brincadeiras que mais abomino na vida, e que me deixaram marcas de humilhação.

Eram outros tempos e o tipo de violência e agressividade era, se é possível assim se dizer, mais “leve”. O bullying evoluiu junto com a sociedade e, como ela, se tornou mais violento, mais pernicioso e mais letal. Sobreviver a esse ataque brutal, inconsciente e cruel, que ocorre e sempre ocorreu no âmbito escolar, por conta de ser o primeiro espaço de socialização da criança, depende, principalmente da construção da autoestima e da autoimagem.

Apenas hoje tenho a dimensão correta e consciente sobre o que aconteceu e a minha participação na violência contra a Nara. Na época, era uma criança que olhava apenas para o próprio umbigo e não estava preocupada com a dor alheia.
Agradeço profundamente minha mãe por me obrigar a voltar e me recolocar diante da situação. Eu não tive entendimento lógico no dia, mas tive entendimento emocional e vivencial. Nunca mais fiz isso outra vez. Percebi a dor que tinha causado a Nara pela sua reação ao me encontrar: aquele alívio, aquele abraço, quase que me agradecendo por voltar a ser minha amiga e se sentir integrada ao meio novamente. Seus pais eram japoneses e ela, embora brasileira, já vinha de uma cultura totalmente diferente e estava unindo dois mundos. Com certeza não era nada fácil…

Práticas como o bullying e os trotes escolares são considerados por muito como ritos de passagem, situações “esperadas” em determinadas fases da vida. Absurdo!!! Não se tratam de rituais de passagem que objetivam a integração e sim a exclusão. São abusos de poderes, mecanismos de dominação fundamentados na discriminação e na intolerância. Esses atos de crueldade são tolerados por muitas pessoas e refletem o nível, cada vez maior, de banalização da violência social e familiar.

ABRACE e ACOLHA a diversidade, o diferente. Tolerância e compaixão são as palavras do milênio.

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9 Respostas to “Bullying: ritual (cruel) de passagem???”

  1. Ernesto Tambaschia Says:

    Puxa vida….

    Nossa Carol, você me fez voltar 32 anos atrás, quando tinha 14 anos( ihh, revelei minha idade!). Realmente você tem razão, lendo seu texto, me senti envergonhado. Hoje recordando o que “aprontei” na escola… não acredito. Que bom que a mãe da sua coleguinha ligou né? E sua mãe, prontamente te corrigiu. A minha mãe, Graças à Deus, também pôde me corrigir. Hoje sabemos que o Bullying é realmente cruel. Só espero não ter deixado marcas em quem eu aprontei. Se pudesse voltar no tempo, com certeza não aconteceria novamente.

    Abraço do Ernestão.
    O arrependido!

    • Carol Says:

      Ernesto,
      Segundo as leis espirituais, podemos “compensar” nossos erros e desvios com ações de compaixão direcionadas a outras pessoas e situações, graças a Deus!
      Ás vezes estranhamos quando recebemos ajuda ou o apoio de quem menos esperamos. Acredito que são estas leis atuando…
      Abraços,
      Carol.

  2. andrea Says:

    nossa q lindo !!!!

    tb tive apelidos : 4 olhos , macaca , cabelo ruim , orfã …..

    mas , quer saber , eu chorava e depois esquecia .

    como estarão as criaturas q me xingaram ? ( sim , pq a maioria delas certamente nunca voltou p pedir desculpas).

    q bom tudo passa , ne.

    eu acho vc parecida com a paloma duarte.

    • Carol Says:

      Oi queridona,
      Como respondi para o Ernesto, acredito nas leis espirituais da vida. Às vezes um desconhecido nos ajuda sem um motivo aparente. Acho que são essas leis “compensatórias” atuando…
      Quem me dera parecer com a Paloma Duarte hein???
      Beijos,
      Carol.

  3. Paulo Barretto Says:

    Eu me lembro de uma coisa que aconteceu com você que também ficou muito forte em minha lembrança. Espero que isso não te traga dor ao lembrar mas acho que devo contar.
    Como você já sabe, eu era apaixonado por você, pra mim você era a menina mais linda que já havia visto na vida, eu já naquela época sentia uma atração por você que mexia muito comigo mas infelizmente eu era muito timido pra falar e você era meio brava comigo, se mantia longe e sempre com a Nara.
    Bem apesar de eu manter meus olhos fixados em você o tempo todo na classe, naquele momento eu não prestei atenção e você estava na frente da classe lendo algo para todos, acho que era alguma chamada oral ou coisa parecida. Eu deveria estar acompanhando a leitura no livro quando alguém passou por detrás de você e abaixou o seu tomara que caia que você usava naquele dia. Você mais que rapidamente levantou o tomara que caia e foi sentar chorando. Todos riam na classe, eu não vi nada, fiquei chateado por ter perdido aquela cena que era algo que eu só podia imaginar em meus sonhos mais sacanas mas ao mesmo tempo fiquei louco da vida de raiva por alguém ter feito você sofrer. Lembro que naquele dia você saiu da escola muito nervosa, eu quis te consolar mas não tinha como chegar perto de você, não era o momento certo. Fiquei semanas pensando em como poderia ir e quebrar a cara do moleque que tinha feito aquilo com você e que eu poderia virar seu herói e quem sabe você gostasse de mim depois daquilo, mas infelizmente nada fiz…o tempo passou e você se fez mais arredia e nunca pude dizer o quanto eu te amava.
    Mas o dia mais triste de minha vida nessa época foi quando eu soube que você não estaria mais com a gente na sexta-série do ginásio, que estaria se mudando para o Parque Continental, e no último dia de aula eu fui com uma máquina fotográfica com a maior esperança de tirar uma foto sua para que eu pudesse ter uma recordação daquela menina que eu tanto amava. Mas você não quis sair na foto….
    Ainda tenho uma foto daquele dia (está no Orkut), eu estou ao lado de duas meninas da nossa classe, uma delas é a Elizabeth Lara Veloso que era considerada por todos meus colegas a mais bonita da classe, mas para mim só Ana Carolina existia. Passei os próximos anos sentindo muito a sua falta…
    Eu cresci, tornei-me adulto mas lá no fundo do meu coração eu ainda lembrava de tudo de Ana Carolina, onde nasceu, dia do aniversário, telefone e muito mais histórias que um dia quero te contar pessoalmente.
    Fico triste quando vejo aqui histórias tristes que você conta de sua infância, eu pelo contrário tenho pais tão amorosos comigo e entre eles ainda há uma paixão tão viva que é bonito de se ver.
    Fiquei tão feliz de te encontrar e saber que você está bem, realizada, mãe e feliz. Mas lá no fundo você sempre será aquela menina que embora você diga aqui magrinha, de óculos, pra mim você sempre será linda, especial e minha primeira e eterna paixão.

    Beijo,

    Paulo

    • Carol Says:

      Paulo,
      Me lembro de tudo neste dia, como se fosse hoje. Enquanto escrevi o texto para o blog, a cena do momento que o tomara-que-caia desceu me vinha à cabeça, assim como a indignação e vergonha que senti na hora. Aquela roupa tinha sido feita pela minha avó, de presente pra mim. Nunca mais usei o modelito, de medo que isso acontecesse outra vez. Uma das minhas maiores preocupações naquele dia era que você tinha visto a cena e eu sabia que você tinha uma “quedinha” por mim. Fiquei com mais raiva ainda de você… veja só, que besteira…
      Eu me lembro de poucas coisas desta época, mas esse dia ainda é vívido na minha memória.
      Fico feliz que possa ser uma referência tão mágica e especial de feminino para você. Isso é um privilégio.
      Acredito que algum dia poderemos nos sentar e trocar nossos retalhos de vida e história.
      Bjs,
      CArol.

  4. J.Carlos Vieira Says:

    André Malraux verberando a violência cometida pela França contra Argélia, que lutava tenazmente pela independência em cruenta guerra , disse : o mais dramático na violência não é esta em si mesma mas sim sua banalização. O “bullying” é mais um fenômeno social a merecer estudos, pesquisas, reflexões e mais do que tudo ações para coibí-lo mas como componente do universo violento que sufoca a sociedade, é banalizado ou ao menos,ainda timidamente abordado. Compreensivelmente esses temas são alardeados diante de evento trágico que geram comoção mas lamentavelmente ainda é assim que se constroi cidadania. No tema do blog precedente, foi mencionada a reprodução de padrões familiares como explicação para comportamentos violentos das crianças, com “registros” que percutem vida afora e isso é aplicável ao que agora se aborda e, inevitavelmente recai na educação como etimológicamente entendida. No universo escolar mundial, ainda são tímidas as iniciativas de “educação para a paz” , lastreada no binômio : ser e conviver. Fala-se em educação como informação e conteúdo para instrumentalizar os alunos a ingressarem no mercado de trabalho. Enfatiza-se (vide propostas dos candidatos) a formação técnica mas relega-se ao largo valores psico-emocionais, amorosos em uma palavra : verdadeiramente humanos. Ainda à época do episódio “Nara” da nossa querida “provocadora” (em sentido literal face “feed-back” de um apaixonado) , muitos pais mantinha certo controle sobre os filhos, impondo-lhes limite e a bloguista tinha índole amorável mas sua atitude, embora reprovável, situava-se dentro dos limites de convivência entre pré-adolescentes, com pequenas disputas e emulações mas uma mãe presente e assertiva cumpriu tranquilamente sua função de educadora. Para não mais alongar crianças e jovens têm que desenvolver participação em esportes (com características integradoras e não competitivas),artes, danças (inclusive biodanza) e outras práticas pedagógicas que contribuem para formação humanística, trazendo a esperança sonhada por Pierre Weil, Paulo Freire e tantos outros ícones da “cultura de paz” . Beijos.

    • Carol Says:

      Zé querido,
      Muitas pessoas me escreveram por e-mail relembrando passagens similares. É incrível como somos tão parecido e tão diferentes… Espero que a Biodanza seja cada vez mais difundida e a idéia da Vida ser o centro de tudo, uma realidade para todos.
      Beijos,
      CArol.

  5. julia virginina de moura Says:

    “o adolescente tem uma violência interna que precisa ser orientada com muita cautela, pois caso contrário, como vimos neste artigo, o bullying acaba se tornando uma prática cada vez maior.
    Parabéns, muito esclarecedor, o artigo, e enriquecedor diante das nossas experiências nas escolas.

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