Davi e os prisioneiros

O título deste post bem que daria um bom título de uma fábula ou conto. Mas a verdade é que Davi protagoniza cada cena que me deixa, muitas vezes, sem ação. Espírito velho o desse menino…
Ainda estou de férias e, dia desses, levei ele a um parquinho público, na Rua Alecrins, no Cambuí. Local extremamente agradável, cujos equipamentos (balança, escorregador, gangorra e gira-gira) estão impecáveis e funcionando. Além, disso, o local é cercado e a frequência excelente.
Bem, como estava contando, estava eu e Davi no parquinho, junto com mais uma dezena de crianças, pais e babás, quando, de uma perua kombi, descem uma dúzia de prisioneiros que prestam serviços, acredito eu, para a Prefeitura.
Algumas mães, mesmo com o parquinho cercado, correram para pegar seus rebentos, assustadas sei lá com o quê… Outras, mais compassivas, fizeram alguns comentários sobre a pena que sentiam desses homens e buscaram posicionar seus filhos em um local mais (?) seguro. Eu, particularmente, não vi motivo nenhum para tirar o Davi de perto da grade, onde brincava com um baldinho na areia.
Passados alguns minutos, o encarregado gritou que os “condenados” tinham 40 minutos para fazer a refeição e começou a distribuir a “quentinha” e o Kisuco em garrafas pet.
Um dos homens passou perto do local onde eu estava e me perguntou se Davi era meu filho. Disse que sim. Ele me perguntou a idade dele e respondi: dois anos. “Tenho um de três…” me disse com um olhar triste. “Os filhos são uma paixão de vida”, comentei. Ele concordou e sorriu. Foi para a fila buscar a sua marmita.
Davi logo se arvorou e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, olhou para o mesmo moço que havia falado comigo e disse para ele: “kuko!”.
O rapaz imediatamente deu o copo dele por cima da grade para Davi beber, mesmo diante da minha contrariedade. “Não, ele já tomou suco hoje”, eu disse rápido, mas sem convencer. Davi, nem aí… Bebeu todo o suco… Agradeci a gentileza e fiz ele (Davi) agradecer também. Peguei o copo de plástico e sai do parquinho para levá-lo ao recipiente de lixo reciclável que existe no local.
Fui um pouco preocupada por Davi ter tomado um suco que não sei como foi preparado… Mas, enfim…
Quando voltei, fiquei atônita… Davi estava almoçando com os presidiários… Eles estavam dando comida de suas maritas para ele, com a mesma colher que estavam comendo…
Era para se ver a cena. Estavam todos felizes: Davi, sentado na areia, com a boca aberta, comendo o que davam, e os detentos, felizes por poder dividir a comida com ele.
A questão é que existem situações tão maiores que os detalhes desaparecem. O que eu podia fazer diante daquela cena? Dizer para eles: “Não quero que dêem para meu filho comida ou suco que não sei de onde vieram”?
Embora tenha pensado sim na origem da comida, o que vi naquele instante foram jovens que tiveram, talvez, bem menos possibilidades e afetos que Davi, fazendo uma gentileza para o meu filho. Então… desliguei das perguntas pouco pertinentes e sentei para assistir…
As mães do parquinho me olhavam horrorizadas… Não as culpo… Acho que tenho mesmo alguma coisa de louca…
No fim das contas, agradeci a eles, de verdade, Davi também… Arrumamos nossas coisas e fomos embora. Eles, acreditem, ficaram felizinhos por aqueles minutos com Davi.
E foi isso, Davi e os prisioneiros..
Esse fato me lembrou que, quando estive em Miranda do Norte, no Maranhão, muitos questionaram o motivo de não haver nenhum registro fotográfico sobre o local.
É simples: em um lugar onde se vive o limite da sobrevivência… em um lugar, em que estive para entender conceitos sobre miséria, ignorância e o que leva uma mulher a deixar uma outra mulher levar e criar o seu filho… Não dá para pensar em tirar uma máquina fotográfica e dizer: “Posso fazer uma foto disso?”…
Existem situações que transcendem e é preciso respeitar a dignidade alheia…

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14 Respostas to “Davi e os prisioneiros”

  1. Ernesto Tambaschia Says:

    Oi Carol

    Acompanho seu blog sempre, mas é a 1ª vez que deixo um comentário. Quanto a qualidade da refeição servida aos reeducandos, pode ficar tranquila. São empresas especializadas no preparo e distribuição das refeições (não são efetuadas por detentos!), com supervisão de Nutricionistas (sim, nutricionistas, é obrigação do Estado), que atestam a qualidade, preparo e cocção dos alimentos. Quero dizer também, que sua atitude em não afastar seu Davi do local, foi de grande valia para estes reeducandos.

    Grande abraço do Ernestão.

    • Carol Says:

      Ernesto,
      Agradeço as suas informações e delicadeza. Será sempre bem-vindo a este espaço virtual. Agradeço suas palavras.
      Abraço,
      Carol

  2. Patrícia Says:

    Esse Davi!
    Saudade dele! Vc fez um bem danado àqueles homens.
    Beijão

  3. Rui Motta Says:

    Quem diria, hein? Um pedacinho de gente dando lição de moral para tantos adultos… A vida é isto, transformação, entrega, respeito.
    Boas férias e aproveitem…

  4. bibiana Says:

    Davi, um pequeno que dá cd lição em gente grande, não?
    bj Carol

  5. andrea Says:

    saia justa no inicio mas temos q ter jogo de cintura e receber.

    isso me lembra quando renan era pequeno e aprendeu a beijar . um dia o augusto viu o renan beijar a senhora q trabalhava em casa e surtou dizendo q eu deveria proibir ela de abraça-lo e beija-lo e muito menos chama-la de “vovozinha”.

    foi uma conversa dificil entre augusto e eu. como proibir uma mulher q convive diariamente com renan a nao vincula-lo com ele? nunca disse isso a ela e ate hj o renan a chama de “vovozinha”.

    davi é descolado e nao tem medo da vida . nao se preocupe com ele.

    bjs de novo

  6. Paulo Corrêa Neto Says:

    Davi
    Aquele que não tem nenhum preconceito.
    É um produtor de alegria.
    Paulo

  7. Zé Carlos Says:

    Meus pronunciamentos frequentemente são criticos e contundentes sobre a decadência da sociedade contemporânea, ensejando mesmo seja interpretado como irremissivelmente pessimista. Contudo, não o sou pois tomei como mote em minha vida pensamento de Saint-Exupery de que : “estamos mortos em vida quando deixamos de ser útil aos nossos semelhantes” . Esse entendimento impede-me de cair no nihilismo, na desesperança e na morte. Realísticamente presenciamos a deterioração em todos os níveis da vida neste planeta e muito dessa observação decorre do que Adorno e seus companheiros da escola de Frankfurt , denominam como “capitalismo tardio” e subliminarmente contribuem para a insensibilidade e individualismo dos seres humanos. Assim a “normose” (neologismo criado por teóricos da Unipaz) se constitui na tônica desta sociedade. Haveremos de assistir o início de uma nova era onde a fraternidade, solidariedade e o amor efetivamente floresçam . O “singelo” episódio vivenciado por nossa querida bloguista e seu amado filho foi emblemático pelo exemplo para as mães “normóticas” presenciarem tratamento humano àqueles que estão em liberdade condicional, cumprindo regime progressivo, para serem reintegrado ao convívio social. O sistema penitenciário brasileiro faliu mas algumas conquistas foram obtidas e as instituições têm colaborado para minorar a triste realidade, como a contratação desses pré-egressos do sistema para desenvolverem trabalhos de limpeza de ruas e praças públicas. Uma das causas para a altíssima reincidência é a discriminação social dos egressos e a reação mencionada é pequena mostra disso. A esperança de transformação dessa realidade está no comportamento humano dos principais personagens dessa história. Isso não surpreende quem os conhece e a humanidade da adorável mamãe, ressaltando-se a precocidade ( ou milenar sabedoria?) em compartilhar refeição com sofridas pessoas, fazendo-as sentirem-se “iguais” e não discriminadas. O risco de contaminação bactericida se esvai ante a beleza dessa cena. Certamente esses seres estão protegidos por natural imunização de um campo vibracional . Sou privilegiado por contar com a amizade de pessoas tão especiais . Abraço-os afetuosamente.

    • Carol Says:

      Zé querido,
      O mérito é todo de Davi…As crianças conseguem ver e viver o presente exatamente como ele se apresenta, sem contextos, interpretações ou significados complexos, apenas o aqui e o agora.
      Beijos,
      Carol.

  8. Karina Says:

    Oi Carol!
    Fiquei conhecendo seu blog por indicação do meu marido, o Sena. E desde que o li pela primeira vez, viciei, e desde então tenho sempre acompanhado…
    Estou para deixar um comentário há um tempão, mas depois de ler esse post não resisti!!! Fiquei imaginando a cena! Realmente crianças nos ensinam muito!
    Parabéns pelo seu blog e pela sua sensibilidade!
    Abraços, Karina

    • Carol Says:

      Karina, fico superfeliz que tenha gostado do post sobre Davi. O Sena já havia me contado que você havia gostado do blog e estava acompanhando. Pra mim, é uma honra. Seja sempre bem-vinda a este espaço. Ainda teremos a oportunidade de nos conhecer pessoalmente…
      Abraços,
      Carol.

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