Vida e morte: contratos inconscientes

Quando eu ainda não havia me decidido pela maternidade, tinha na ponta da língua as respostas do porquê não ter um filho:
“Não tenho coragem de por um filho em um mundo louco como esse…”
“Não tenho estrutura financeira e nem emocional para criar um filho…”
“Não vou ter um filho apenas para satisfazer um desejo pessoal e egoísta…”
“Muitas mulheres não nascem para casar e ter filhos. É o meu caso…”
“O mundo está muito violento e não tem jeito mais…”
Todos argumentos obviamente lógicos e cheios de razão. Hoje, após ter me decidido a assumir o meu desejo de maternidade, percebo que na verdade mesmo, o medo era bem outro. Quando se tem um filho, um amor tão incondicional e tão visceral, assinamos um contrato, um acordo inconsciente, no qual assumimos o risco de sofrer a mais violenta, medonha e cruel dor do universo, que a perda de um filho, seja em que idade for, e a felicidade mais suprema e plena que existe em todo o universo que é, exatamente, ter um filho.
Assumimos o risco de viver, ainda, todo o espectro que fica entre um e outro extremo. Dores que vão desde uma febre alta até um atropelamento com amputação. Impotência elevada ao último grau quando vemos o filho chorando de dor e não podemos fazer nada, a não ser ficar ao seu lado, sofrendo a dor como se fosse na nossa própria carne. Felicidades que vão desde um “eu te amo”, capaz de fazer tudo desaparecer, até a felicidade suprema de se sentir a pessoa mais amada do universo.
É claro que, assim como sabemos que um dia vamos morrer (e que pode ser nesse instante), não acordamos pensando nisso e, pelo contrário, apostamos na “imortalidade”, mesmo que fictícia. Da mesma forma, não pensamos, conscientemente, sequer em milésimo de segundos que nossos filho possa sofrer, o que dirá morrer… Apenas não é natural. Apenas apostamos na felicidade e saúde em tempo integral e isso é, sem dúvidas, o psiquicamente saudável.
Recentemente ganhei um livro para ler chamado: “Mensagens de Esperança”, do casal norte-americano Brooke e Keith Desserich. O livro é o diário do casal, cuja primeira filha, com cinco anos, teve câncer incurável no cérebro e poucos meses de vida. No início do livro, uma foto de Elena nos revela uma menina lindíssima, com cabelos compridos e sorriso contagiante. A última foto, uma crianças inchada, como se tivesse elefantíase, sem rosto definido, boca torta e olhar de morto-vivo. Muitos colegas, aqui no jornal, me desaconselharam a ler o livro. “Você vai procurar pra sua cabeça… Vai ficar impressionada…” Mas tinhosa, resolvi ver a que vinha o livro… Não me arrependi… Ele fala justamente sobre esse contrato inconsciente e prova que, mesmo que soubéssemos, com antecedência, que viveríamos dias de intenso e cruel sofrimento e impotência, diante da vida e da dor de nossos filhos, ainda assim escolheríamos tê-los pelo tempo que fosse possível.
Escutei isso apenas uma vez, de uma mãe que perdeu o filho em um acidente de trânsito, e deu uma entrevista a um jornalista. Ela disse sinceramente: “Foi um privilégio viver ao lado dele nesses 23 anos”. Nunca mais me esqueci… É uma pessoa muito especial e diferente, porque ao invés de ficar com a dor da perda, conseguiu se segurar na maravilha e benção da convivência. Minhas reverências mãezinha…
Davi passou os últimos cinco dias com gengivoestomatite. A boca dele virou uma ferida só, com muito sangue, cheiro ruim e muita, mas muita dor. Sem comer, bebendo muito pouco. Apesar de medicado e bem acompanhado por pediatras, vi meu filho de dois anos chorar por quase uma hora por causa da dor intensa. Apontar a boca pra mim e pedir ajuda… e, eu, apenas pude viver a minha profunda impotência…Não havia nada a fazer a não ser esperar.
Em alguns momentos cheguei no limiar do desespero. Mas foi justamente o livro que me ajudou a equacionar a situação. Meu filho não estava com câncer, com uma passagem já comprada para a morte. Ele estava doente sim e sofrendo muito para sua idade, mas vivia cada dia como um guerreiro da vida e, portanto, eu não poderia ser menos do que isso.
Estive duas vezes em pronto-socorro em domingos à noite. Minhas “festinhas de pijama”, porque chegamos lá e dividimos nossas dores com dezenas de outras mães com seus rebentos de pijama e cobertor. Agradeço muito minha tia por me acompanhar. Nessa ocasiões a gente perde um pouco da razão e da lógica. Em uma das consultas, tirei o otoscópio da mão do médico de tão perturbada que estava. Ele olhou bem pra mim e disse: “Você apenas segura o menino, o médico aqui sou eu. Eu que vou examinar…”. Cara, morri de vergonha! “Desculpa doutor, é claro…”
Sei que ele me entendeu…
Bem, nesse ínterim, Davi perdeu 1,5 quilo, eu, 2 quilos. Fiquei cinco dias sem pregar o olho, e ainda trabalhando e cuidando, diligentemente, dele hora a hora.
Então, um dia, ele acordou bem melhor e com bem menos dor, veio espontaneamente perto de mim, beijou o meu rosto e disse: “Bigadu mamãe”. E eu, diante daquele ser de apenas dois anos, renasci, tão forte e vital quanto a Fênix…
Meu filho, que agradece sempre sou eu….

E para terminar esse texto, que já está pra lá de comprido, saio de férias neste dia 9 de julho, feriado. Vou ficar um mês exercendo a mais incrível atividade do mundo: sendo mãe.
Um beijo para vocês e até daqui um mês. É um privilégio pra mim sentir esses coraçõezinhos batendo pela web a cada semana. Muito obrigado por tudo…
Beijos,

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10 Respostas to “Vida e morte: contratos inconscientes”

  1. Maria Ignês Says:

    Carol querida
    Graças a Deus, Davi está bem.Mas você descrevendo a doença dele, me lembrei, do que minha mãe me contou porque também tinha 2 anos, de uma doença que tive, semelhante a do Davi. Quase morri. Era uma espécie de gangrena na boca, sequela do sarampo. Tinha cheiro ruim e eu não comi nada por 12 dias. O que melhorava, dizia ela, me dava um sorvete de creme e eu encostava a boca e devia melhorar a dor. Os médicos disseram que eu ia morrer, que daquela noite não passava. Minha avó jogou os remédios fora, que limpavam a boca e disse que seu eu ia morrer que pelo menos fosse sem dor. Os médicos, daquelas priscas eras, não sabiam o que era. E sem os remédios, as feridas foram cicatrizando e como por milagre, sobrevivi. Precisei aprender a andar novamente, de tão fraca que fiquei. Tempos depois, um tio, médico em Curitiba, foi pesquisar a doença. Chama-se Noma. Muito parecida com que o Davi teve. Quando contava, para medicos que tive essa doença, eles só conheciam por livros, e uma vez um deles pegou um livro e leu o que era a doença. Gangrena na boca, sequela do sarampo, deixa cicatrizes na boca(eu as tenho), e o tratamento: sangue, plasma e soro, mas geralmente causa morte. Sempre achei e acho que foi um milagre sobreviver. Lendo agora o que você passou com o Davi, tive uma maior dimensão do que minha mãe passou comigo. Que coisa, nunca tive essa dimensão correta., mesmo porque, acho que pensava mais no que devo ter passado, porque não me lembro, e não do que ela e todos passaram. Nem sei porque estou contando tudo isso, talves porque veio tão claro na minha memória o que ela me contava. Mas nunca é tarde para agradecer mesmo em pensamento. Obrigada querida, e que o Davi fique bom logo para sua alegria e de todos nós.Amanhã estou indo para Campinas com o Fabio, devo ficar uma semana. Ligo pra você. Muitas saudades. Beijos

    • Carol Says:

      Ah Marie Ignês querida, que desencontro… justamente na semana que veio eu estava na Bahia com Davi. Fomos, por meio de um pacote turístico, a Porto Seguro e fomos muito felizes lá…
      Sua lembrança me encanta. Sua história familiar é forte e cheia de emoção. Eu é que agradeço por você compartilhar de suas memórias de vida neste espaço… É um privilégio. Davi está ótimo e como disse o pediatra hoje, é um touro de forte. O episódio da estomatite trouxe ganhos: Davi deixou a chupeta e a mamadeira ao mesmo tempo. Um avanço. Dorme agora em cama e não mais no berço. Tadinho! Acho que o sofrimento fez ele crescer um pouquinho. Meu pai dizia que crescer doía… Acho que tinha um fundo de razão.
      Maria Ignês sempre querida, sempre saudosa, sempre inesquecível…
      Muitas, mas muitas saudades… beijos.

  2. andrea Says:

    todas as maes passam por isso mas vc consegue expressar , interpretar e dar significado a tudo q ja vivemos com nosso filhos.

    • Carol Says:

      Andrea procuro dividir minhas aflições, angústias e dúvidas. Fico, verdadeiramente, maravilhada quando abro o blog e leio o que as pessoas me escrevem, como você, por exemplo. Sua fidelidade e carinho a esse espaço virtual me motivam a continuar nesse compartilhar… muito obrigada…
      Beijos,

  3. Rui Motta Says:

    O milagre de viver, superar as perdas, aceitar a vida, faz a gente mais forte, mas de coração endurecido. Vida e morte estão conectadas, em relação de causa e consequência. Um dia, Deus tirou uma vida de mim; agora está me dando outra, com meu neto. E eu também passarei e deixarei para trás a minha própria história, e chegará aquele momento em que ninguém poderá fazer mais nada a não ser estar ao meu lado. Hoje, você me fez chorar. Aproveite a sua vida e a do Davi.

    • Carol Says:

      Rui, você faz parte de uma categoria de ser humano muito especial. Disse uma vez e repito: tenho profunda admiração pela sua força de superação e de vida. De fato, estar vivo é se confrontar constantemente com a nossa própria morte e finitude…Mas o nascimento de um filho, um neto, nos faz renascer, rejuvenescer e nos dá energia para tentarmos, mesmo que isso seja uma doce ilusão, garantir a segurança e felicidade dessa nova vida. Esses somos nós…
      Acabo de assistir ao noticiário sobre a morte, por atropelamento, do filho mais novo da atriz Cissa Guimarães…Meu Deus, misericórdia…
      Há alguns bons anos atrás, em uma novela da Rede Globo, a personagem da atriz Glória Pires perdeu a mãe e o pai em um acidente de lancha. Me lembro que foi uma comoção nacional o capítulo em que ela demonstra sua dor e luto. Na cena final do capítulo, ela ficava de frente a uma imensa janela, acabada de tanto chorar, quando começava o nascer do dia. Revoltada e cheia de dor ela gritava como ele ousava nascer diante do que ela sentia. Para ela, o dia não podia surgir, uma vez que a noite em seu coração seria eterna. Nunca me esquecerei desta cena. Fiquei arrepiada com a profundidade disso… em perceber que por pior que seja a nossa dor, a vida segue inexorável…
      Rui, obrigada, por tudo…

  4. Paulo Corrêa Neto Says:

    Carol

    A gente não quer aceitar, mas o sofrimento faz parte da vida . Perguntamos : Por que o sofrimento vem nas crianças ? Seres que não fizeram nenhum mal . E não temos respostas que satisfaz. A vida tem este mistério. No atual momento histórico que vivemos, vamos passar por este planeta fazendo perguntas que não tem resposta . Pelo menos resposta que satisfaz.
    Boas férias com o Davi.
    Beijos e Abraços
    Paulo

    • Carol Says:

      Paulo querido,
      Você sempre traz reflexões importantes. Verdadeiramente passaremos a existência com perguntas que não poderão ser respondidas. Apenas podemos aceitar o que a vida apresenta e viver intensamente o que ela proporciona, seja felicidade ou sofrimento.
      beijos no coração querido amigo biodanceiro.

  5. Bibiana Sant'Ana Says:

    Carol,
    curta muito essa fase. A minha, agora, é a do desprendimnto. Difícil pra dedéu. São as “dores e as delícias” dessa nossa profissão de mãe.
    bj grand
    biba

    • Carol Says:

      É Biba, ser mãe é um eterno aprender… Como me disse uma vez um amigo, ter filhos é como jogar videogame, cada fase tem as suas particularidades e a cada etapa, as coisas ficam mais complexas…
      Beijos,
      Carol

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