Cronos: ancião devorador

Quando nos damos conta, o dia passou, a semana se foi, o mês acabou e o ano terminou. De todas as divindades que permeiam, de uma maneira ou outra, o nosso cotidiano, reverencio, respeito e me arco humildemente ao devorador: Cronos. Sempre à espreita, espera apenas um vacilo e quando dou conta estou sendo “estuprada”, “comida”, “devorada” por ele sem piedade, sem misericórdia, sem compaixão.
É na origem mitológica que percebo a seriedade desse devoramento. Cronos era a divindade suprema da segunda geração de deuses da mitologia grega e titã do tempo, correspondente ao deus romano Saturno. Assim como o tempo, Cronos devora aos seus.
Filho de Urano, o céu estrelado, e Gaia, a Terra, era o mais jovem dos titãs e a pedido de sua mãe se tornou senhor do céu, castrando o pai com um golpe de foice.
Cronos casou com a sua irmã Réia, que lhe deu seis filhos (os crónidas): três mulheres (Héstia, Deméter e Hera) e três rapazes (Hades, Poseidon e Zeus).
Como tinha medo de ser destronado (e deixar o controle de tudo), Cronos engolia os filhos ao nascerem. Comeu todos exceto Zeus, que Réia conseguiu salvar enganando o titã, enrolando uma pedra em um pano, a qual ele engoliu sem perceber a troca.
Quando Zeus cresceu, resolveu vingar-se de seu pai, com o apoio de Métis – a Prudência – filha do titã Oceano. Esta ofereceu a Cronos uma poção mágica, que o fez vomitar os filhos que tinha devorado.
Então Zeus (símbolo do patriarcado) tornou senhor do céu e divindade suprema da terceira geração de deuses da Mitologia Grega ao banir os tios titãs para o Tártaro e ao afastar o pai do trono, e segundo as palavras de Homero, prendê-lo com correntes no mundo subterrâneo.
Mas eis que a revanche de Cronos se faz incessantemente presente e violenta. É na precisão de suas mãos que depositamos nossas horas, minutos, segundos, dias, meses e anos. É ele quem marca no compasso e assim define nosso nascimento, vida e morte, ainda que preso no mundo subterrâneo.
A cada período, como o que acabei de passar, sou devorada sem qualquer pudor, me afogando em afazeres no mundo exterior, e sem “tempo” para o que é importante para a alma. Caio em mim quando a vida me chama a atenção… Davi fica doente e me detém. Assustada, esqueço o mundo fora e meu filho me força a retomar o mundo de dentro. Reassumo com força o meu próprio “tempo”, minhas próprias exigências, o meu ritmo.
Respiro… e respiro de novo…. Reverencio com respeito o devorador, mas peço espaço para ser e vivenciar o presente intensamente. Clamo para que o estuprador me deixe em paz e percebo, apreensiva que me pus de vítima consensualmente.
Decido: crio o meu relógio de areia particular. É hora de parar…

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7 Respostas to “Cronos: ancião devorador”

  1. andrea Says:

    muito bom p variar

    quando vc viaja?

    bj

    • Carol Says:

      Pois é querida Andrea. Davi está com nova virose. Depois de uma semana com estomatite, agora está com a garganta ruim, vomitando, com febre e diarréia. Estou cuidando dele diligentemente. Espero que ele já esteja totalmente recuperado no meio da semana que vem. Viajo no domingo, dia 11 de julho.
      Beijos,
      Carol.

  2. Vera Graça Says:

    Carol, adorei.
    O tempo nos devora e sentimos que algumas vezes deixamos com que ele faça isso sem que tentemos detê-lo.
    Beijos

    • Carol Says:

      Pois é querida Vera. A gente que o diga… quantas vezes tentamos nos encontrar para um bate papo e não conseguimos? A culpa é dele que nos leva sem dó.
      Muitos beijos,
      Carol.

  3. Zé Carlos Says:

    O ser humano consciente ou inconscientemente “procura” pela experiência de estar vivo e isso ressoa no interior de cada um. A evocação de Cronos e sua genealogia, como ensinou Campbell, está a revelar presença desse mito como significativa pista para desenvolver potencialidades espirituais . Seu discurso transmite perplexidade ante os inesperados acontecimentos cotidianos que a surpreendem e (arrisco sugerir com possível lastro lacaniano) fazem-na “estuprada” pelo “ancião” . Entre as múltiplas reflexões sobre o ritmo impiedoso imposto por Cronos na vida dos mortais, atento mais à constatação da importância de vivermos intensamente os bons momentos que se apresentam, pois como é da essência do Tao : treva e luz interagem e isso é necessário para o processo evolutivo. Portanto, postulo que , quando valorizamos a luz, atravessamos mais rapidamente as trevas. Minhas observações ao longo da vida tem mostrado que a maioria das pessoas, passam a perceber a fugacidade da vida aos quenta anos

  4. Zé Carlos Says:

    O ser humano consciente ou inconscientemente “procura” pela experiência de estar vivo e isso ressoa no interior de cada um. A evocação de Cronos e sua genealogia, consoante Campbell, está a revelar presença desse mito como significativa pista para desenvolver potencialidades espirituais . Seu discurso transmite perplexidade ante os inesperados acontecimentos cotidianos que a surpreendem e (arrisco sugerir com possível lastro lacaniano) fazem-na “estuprada” pelo “ancião” . Entre as múltiplas reflexões sobre o ritmo impiedoso imposto por Cronos na vida dos mortais, atento mais à constatação da importância de vivermos intensamente os bons momentos que se apresentam, pois como é da essência do Tao : treva e luz interagem e isso é necessário para o processo evolutivo. Portanto, postulo que , quando valorizamos a luz, atravessamos mais rapidamente as trevas. Minhas observações ao longo da vida tem mostrado que a maioria das pessoas, passam a perceber a fugacidade da vida após os cinquenta anos e nostalgicamente evocam o passado lastimando-se dos momentos de felicidade, alegria e prazer que deixaram se esvair. Esses sentimentos ensejam belos textos, músicas e poemas como conhecemos em Borges, Mario Quintana , Oswaldo Montenegro e tantos outros. Quando se tem o privilégio de interpretar os mitos (escondidos em nosso inconsciente) podemos usufruir daqueles belos momentos e sepultarmos os negativos. Beijos

    • Carol Says:

      É Zé, usufruir do presente deve ser a nossa meta sempre. Estar no aqui e agora, como bem postulava nosso mestre Rolando Toro. Olhar e alimentar o “bom”, o “saudável”…
      Beijos,
      Carol.

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