Com a porta fechada…

A cantora Ana Carolina é autora da letra da música Trancado. Nela, alguns trechos me chamam a atenção:

Eu tranco a porta
Pra todas as mentiras
E a verdade também está lá fora…

Eu tranco a porta pra todos os gritos
E o silêncio também está lá fora…

Será que eu tô trancado aqui dentro?
Será que você tá trancado lá fora?
Será que eu ainda te desoriento?
Será que as perguntas são certas?…

Então eu me tranco em você
E deixo as portas abertas

Muitas vezes somos esta pessoa que, em uma hora de dor, para se proteger de novos ferimentos, trancamos a porta e nos isolamos. Eu sou craque no assunto e posso falar de cátedra.
Só que nos esquecemos que esta porta fechada, que nos protege das coisas ruins que vem de fora, que nos machucam, também é a mesma que não deixa as coisas boas, que alimentam a nossa alma, entrarem.
Vivi as maiores e mais profundas dores sozinha, dentro da caverna, lambendo as feridas e esperando que o processo de cura começasse.
Mais tarde, conheci uma pessoa muito especial que defende com unhas e dentes que a comunhão, mesmo das mais lancinantes dores, pode agilizar a cura e que é preciso deixar as “portas abertas” para as pessoas que nos amam, mesmo com o risco de que por ela (a porta) entrem pessoas indesejáveis e novos ataques. São os riscos inerentes de quem deseja vivenciar tudo, todas as cores, todos os matizes, todos os tons. São os riscos de quem prefere andar na montanha-russa da vida ao invés da confortável roda-gigante.
E de fato, em algumas ocasiões em que me forcei a dividir minhas agruras, me surpreendi com a solidariedade, afeto e compreensão que recebi. Dividir me tornou mais leve, estancou o sangue e facilitou a transposição para o patamar da cicatrização das feridas. É claro que, dependendo da dor, não é possível sequer respirar, o que dirá comungar, porém, acredito que o processo fica mais fácil e rápido quando conseguimos receber apoio e percebemos que nossas dores são universais.
Pois é, hoje, uma pessoa que amo muito está na caverna, sangrando. E, na contramão do que acabei de defender, a porta está fechada. Durante duas madrugadas perdi o sono pensando em uma maneira de “bater na porta”. Não achei. Não sei quando a porta será aberta…
Percebo agora que quando nos isolamos, nos negamos também a receber o outro e sua verdade. Me sinto impotente e frustrada. Gostaria de poder oferecer algo, um abraço, um beijo, um olhar, uma palavra… mas a porta está fechada. Somente me resta, neste momento, rezar para que as feridas parem de sangrar …

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10 Respostas to “Com a porta fechada…”

  1. Paulo Corrêa Neto Says:

    Carol

    A gente nunca pode fechar nossa porta para Deus. Pois a porta dele nunca está fechada para a gente.
    As frases biblica que diz: Pedis e receberás. Bateis e a porta se abrirá .
    São frases que devem ser vivenciadas.
    Beijos
    Paulo

  2. andrea Says:

    quer o endereço da minha caverna ?

    eu ja lambi tantas as feridas q elas cicatrizaram ou o cuspe acabou.

    quando estou mal tb me afasto e me isolo.

    e quando me exponho ou divido ou interajo sinto vergonha no inicio e depois uma leveza.

  3. Rosana Says:

    A tartaruga quando sente-se “ameaçada” recolhe sua cabeça, enfim como os animais, é nossa reação de defesa….
    Mas tudo tem seu tempo (cada um tem seu tempo) e este é necessário para que tudo se processe dentro de nós….
    Colocar-se no lugar do outro para poder “entender”um pouco, e paciência….

    Lenine é intérprete da música: Paciência.
    Vale a pena ouví-la.

    bjs no coração.

    • Carol Says:

      Com certeza é a nossa “pressa” de querer ajudar o outro a se curar…
      Mas, sim, paciência… É hora de exercitar…
      Beijos,

  4. Paulo Barretto Says:

    Somos como um móvel de madeira, com o tempo rasuras aparecem aqui e ali, essas feridas ficam marcadas n’alma, no rosto, nas mãos, no corpo elas fazem parte de nossa história de nossa vida.

    Por mais que nos machuquem ou mesmo quando aceitamos que isso aconteça, mesmo que involuntariamente, nosso EU que está aqui visível à todos pode até tentar esconder, entrar nesta caverna e chorar sozinho, como já fiz e ainda farei muitas vezes, alguns de nós pode até mesmo soltar pra fora um grito de dor. Como também já soltei e não tenho mêdo de fazê-lo novamente.

    Escrever pelo que passamos acredito possa ser um remédio valioso para o futuro, pois através disso podemos visualizar onde erramos e o que fazer numa próxima vez para suavizar o processo e que possamos servir de exemplos para aquele que se apresentar a nossa frente com uma situação semelhante que possamos ser solidários pois com certeza eu serei o próximo.

    Desta história de dor se pode fazer uma música, uma poesia, um filme, mas com certeza estas marcas ficarão gravadas nesta madeira que se chama VIDA e as lágrimas que secaram voltaram a aparecer, não temos como evitá-las, mas que possamos tirar um ensinamento de cada uma delas e que em breve as próximas lágrimas sejam de alegria pois graças á Deus Ele nôs dá também muitas alegrias para contra-balancer nossas perdas.

    Quando aquela especifica dor se vai possamos raciocinar melhor e compreender que outras virão e se consegui passar por uma, duas, passarei também por uma terceira.

    Mas é sempre bom saber que podemos contar com um ombro amigo aceitando que este amor venha de um amigo, um parente ou até mesmo um desconhecido pois dele vem a força para gente continuar.

    Que seu amigo, amiga consiga passar por mais esta ferida e que você mesmo a distância possa ajudar com seu sincero amor.

    Beijo,

    Paulo

  5. Zé Carlos Says:

    Inicio minha reflexão sobre o texto devaneando poéticamente sobre a vida , tomando-a como :
    ” Vereda estreita em imutável limiar
    Ampliada ante contínuo caminhar
    Contemplando com pasmo, espasmos, arrepios
    A sublime arte de transmutar,
    Emerge a vida com esplendor e sublimidade
    Entremostrada em cipoal contendo flores, espinhos e claridade
    Com a indissociável dualidade : luz e sombra
    Intercambiáveis signos de seres ainda reféns na idade
    Das trevas a serem vencidas
    Para ao final colherem o bálsamo redentor,
    Assistindo descerrar portais de véus entretecidos
    Pelos anjos dissimuladamente espreitantes
    Sinalizando tortuoso mas seguro caminhar enaltecido
    Por reconhecer o mistério da travessia
    Agora sem dor e com festejada ALEGRIA… ”

    Nesse poeminha procurei sintetizar a narrativa, acrescentando ser necessário , por vezes, adiar o processo do nascimento da borboleta que emergirá da crisálida fortalecida pelo esforço da transmutação. Numa ótica racionalista e dogmática, somos tentados (é certo que por inspiração solidária ) a facilitar ou ao menos amenizar o sofrimento de seres até mesmo alheios a nós. Pomo-nos a “bater em portas” (sem atentar que o amor não pode forçar uma porta que não quer se abrir, pois então deixaria de ser amor) para levar nosso apôio e cuidar das chagas que acometeram alguém mas há situações em que a solidão faz parte do processo terapêutico e disso emana a força vivificante a impulsionar o ser ao encontro de nova alvorada que o conduzirá a vencer as intempéries e chegar altaneiro ao fim da travessia.

  6. Carol Says:

    Pois é Zé, eu concordo com tudo isso, mas não consegui deixar de expressar a minha senação de impotência nesse momento…
    Beijos,
    Carol.

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