No bumbum da mamãe

Davi me chamou esta madrugada: “Mamaê!”. Fui até o quarto e ele estava em pé no berço: “cóio (tradução – colo)”. Peguei ele pelos braços e forcei delicadamente que se deitasse de novo. “Filho, Davi dorme no bercinho e mamãe na cama. Durma meu filho”. Ele levantou de novo e disse: “Mamaê, cóio!”. Foi aí que peguei ele no colo e vi que estava encharcado de xixi, tadinho, com as pernas frias. Levei ele para a minha cama, troquei a fralda, a roupa e dei mamadeira. Logo ele estava dormindo novamente. Poderia tê-lo levado de volta ao berço, mas não quis. Eram 4h30 e logo estaríamos acordados (ele levanta supercedo). Deitei na escuridão total e percebi sua mãozinha procurando a minha…
Fui remetida imediatamente à minha infância. Quando menina me sentia muito insegura afetivamente e tinha períodos longos de terror noturno. Ficava horas com insônia, com medo de dormir e ao mesmo tempo com medo de ficar acordada e ouvir alguma coisa inexplicável. Saía de fininho do quarto e entrava pé ante pé no quarto dos meus pais, carregando apenas um travesseiro. Deitava embaixo da cama deles. Ficava ali, quietinha, ouvindo o meu pai roncar. O som, que poderia incomodar a princípio, me deixava calma e com senso de realidade naquela escuridão. Aí, eu dormia.
Logo cedo, antes que meu pai levantasse, saia de mansinho debaixo da cama e voltava para o meu quarto.
Outro lugar disputado por mim e pelas minhas irmãs para uma soneca era o bumbum da minha mãe. A coitada acordava cedo e não parava um minuto na cozinha, arrumando as coisas e fazendo as tarefas domésticas, enquanto nós brincávamos e também brigávamos, desfazendo toda a arrumação. Depois da cozinha do almoço arrumada, ela avisava: “Agora eu vou assistir televisão e dar um cochilo. Não quero um pio…”, ameaçava. Pegava o chinelinho na mão, tipo “pronta para dar umas palmadas”, e deitava no sofá, que era comprido.
Ah! a primeira que chegava encostava a cabeça no bumbum da mamãe, e as outras, encostavam as cabecinhas no bumbum umas das outras. Ficávamos todas encaixadas ressonando por pelo menos uns 40 minutos, quando então minha mãe levantava e retomava a batalha do dia a dia. Essa é uma das melhores lembranças que tenho da minha infância.
Todas queriam ter o privilégio de dormir encostadinho na mamãe. Era uma sensação de segurança e aconchego plena naquele bumbum macio, quentinho e com cheiro de coisa conhecida, parecendo uma extensão do corpo da gente.
Nós disputávamos a tapa o lugar. Acho que é aquele tal desejo existencial relatado pelos especialistas da volta ao útero materno. A vontade de se unir ao corpo da mãe novamente e sentir a sensação de plenitude e bem-estar da gravidez.
Quando vi a mãozinha de Davi me procurando no escuro ontem, mesmo ele estando sonolento, me lembrei com clareza e nitidez desta experiência com minha mãe. Percebi claramente que Davi relaxou quando me “achou” e se entregou ao sono, em segurança.
Geralmente, meu filho dorme em seu quarto, mas gosto de pensar que estas exceções, que nos aproximam afetivamente e instintivamente, vão perdurar como delicadas lembranças de bem-estar, aconchego, amor. Como momentos especiais, em que a ligação universal é reatada, refeita, mesmo que ele não tenha saído de fato do meu útero…

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12 Respostas to “No bumbum da mamãe”

  1. andrea Says:

    pois eu acho q ele saiu sim do seu utero.

    eu sei bem o q é isso q vc escreveu sobre se sentir segura perto da mae .

    quando a minha morreu eu tinha 9 anos e achava q ela voltaria a qq momento .

    ela nao voltou e eu me revoltei pq o ladrao deveria morrer no lugar dela.

    a morte dela me mandou direto sem escalas p hades.

    qq pessoa q passase a mao na minha cabeça me levava , so q ninguem passou.

    era um buraco imenso de saudade , de solidao e tristeza.

    q bom q crescemos e aprendemos e podemos ver isso nos nossos filhos.

    • Carol Says:

      Andrea,
      A convivência com sua mãe até os seus nove anos faz parte de você e está impresso na sua célula. Realmente, que bom que crescemos e podemos “re-fazer a renda”, como diria Gilberto Gil.

  2. Paulo Corrêa Neto Says:

    Eu não me lembro de ter momentos de proximidade do corpo de minha mãe, muito menos do corpo do meu pai, em casa não se tinha permissão para isto. Mas posso afirmar: que isto fez muita falta, muita falta.
    É maravilhoso voce poder estar oferecendo este aféto e segurança ao Davi.
    Abraços
    Paulo

    • Carol Says:

      Aprendemos muito sobre toque na Bio, não é meu querido? Ele alimenta, nutre… Me sinto privilegiada por acreditar nisso.
      Beijos,
      Carol.

  3. CLAUDIA DOMINGOS Says:

    Querida, eu tenho testemunhado sua maternidade e sei que o Davi é um garoto com muita sorte, mais muita sorte mesmo por ter uma mãe tão amorosa e sensível como voce; seu relato tb me remeteu à infancia e tive sim contatos com meus pais…que sinto saudades.

    • Carol Says:

      De verdade Cláudia, eu é que me sinto com muita sorte por ter sido escolhida por Davi. Agradeço sua presença neste espaço virtual, que é tão importante pra mim.
      Beijos,
      Carol.

  4. Roberta Says:

    querida lindo texto, obrigada, beijo enorme, saudades, Roberta

  5. Carol Says:

    Paulo querido,
    Sempre presente neste espaço com depoimentos e palavras de força e importância.
    Obrigada,
    Carol.

  6. Paulo Barretto Says:

    Pode não ter nascido de seu útero mas com certeza nasceu de sua alma.

  7. Paulo Barretto Says:

    Meus pais sempre se amaram muito e continuam se amando, felizmente tenho este ótimo exemplo dentro de casa. Minha mãe compôs músicas ao meu pai e meu pai por sua vez escreve poesias à ela.
    Vez ou outra pego meus pais chorando de amor um pelo outro. Este é um sonho que eu quero para mim mesmo, conquistar um grande amor. Coisa que fica cada dia mais difícil.
    Quando criança lembro que ouvia um lobo uivando logo ali e quando cresci descobri que era a expressão da paixão que corria solto no quarto de meus pais asssim como entendo o porque a cama deles vivia quebrando. Hahaha…
    Quando criança, adolescente (aborrecente) mesmo assim minha mãe sempre deixava eu e meus irmãos dormirem com eles na mesma cama vez ou outra.
    Meu pai logo começou a reclamar quando a gente foi crescendo e não cabia mais na cama e embora minha mãe quase sempre cede as reclamações de meu pai algumas vezes ela ainda faz meu pai sair da cama para dar esse carinho para nós.
    Minha mãe é enfermeira e muitas noites passa trabalhando deixando meu pai sozinho, meu pai não gosta nem um pouco de ficar sem minha mãe e tem pesadelos quando ela não está na cama com ele, então muitas vezes ela pedia para a gente ficar ligado e caso ouvisse meu pai ter pesadelo para ir ficar na cama com ele. hahahaha é muito engraçado. O triste é que hoje ela trabalha 24 hrs por dia como enfermeira de uma senhora e só vem no final de semana pra casa, como meu pai deve sofrer tadinho.
    Vivi muitos anos nos EUA e quando contei isso a uma de minhas namoradas ela achou isso um absurdo, lá isso nunca acontece. Ela era mãe solteira e eu me apeguei muito ao filho dela, Kennan, na época com 2 anos. Eu embora amasse muito a mãe dele também aprendi a amá-lo muito, tanto que quando terminamos sofri como se tivesse perdido também um filho, e hoje quando sinto saudade dela sinto também saudade dele.
    Pude mostrar à ela que o amor pelas crianças deve ser demonstrado não apenas por palavras como os americanos fazem mas por exemplo, por toque, abraço, beijo, apertão.
    Hoje vivo muito longe de meus pais, e sinto tanta, tanta falta deles e desse nosso contato físico que dói na alma. Ontem foi aniversário de minha mãe; liguei para dizer o quanto eu a amo e ela me disse de volta: o seu amor não é nada comparado ao amor que sinto por você…..desliguei aos prantos.
    É muito bom saber que a gente tem uma mãe que ama a gente dessa forma.
    Que você possa continuar dando todo este teu imenso amor ao Davi e que ele possa sentir na alma este amor para sempre.

    Beijo,

    Paulo

    • Carol Says:

      Paulo, sua história de vida é muito linda e cheia de delicadezas. Só posso agradecer por dividir pensamentos e sentimentos tão preciosos comigo. Essa lembranças familiares são nossos veradeiros tesouros. Feliz aquele que carrega tanto dentro de si… Você é um abençoado. Não lamente nada do que tenha passado, pois você sabe onde está o ouro…
      Beijos

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