Vínculo fraterno: amor eterno


Sempre tive uma relação de forte oposição e competição com a minha irmã mais velha, Simone, que mora na Grécia há mais de 17 anos. Não sabia, mas depois pude entender que disputávamos o amor e reconhecimento paterno, porém, de maneira diametralmente oposta. Um interessante Complexo de Édipo, formado por uma mãe extremamente passiva e vitimizada e um pai autoritário e muitas vezes, violento. Apesar disto, tanto eu como ela, somos FilhaS do Pai, ou seja, negamos uma aproximação maior com a mãe, por rejeição ao modelo passivo-vitimizado, e buscamos o reconhecimento do pai, do patriarcado, do justo, do correto, do ativo, mesmo que tirano.

Minha irmã tentava chamar a atenção pela rebeldia. Cabelos coloridos, roupas esquisitas, muitos namorados, sem horários para nada, um comportamento que beirava o jocoso, do tipo “Não tô nem aí pra você!”, mas a verdade é que estava, e muito.

Me lembro de um dos embates entre ela e meu pai (houveram muitos), no qual uma bolsa artesanal foi o pivô da queda-de-braço. Imagine que naquela época, meados da década de 80, a criatura escreveu em uma bolsa, feita de saco de batatas, a singela frase: “Solte o orgasmo pelo sorriso!”.

Imagina a cara do meu pai quando ele a viu saindo toda faceira, com seus 17 aninhos, com a tal bolsinha… Bem, uma tesoura resolveu o problema: ele picou a peça em pedacinhos. Aí ela foi e fez outra bolsa, e ele, picou de novo… Coisas de papai e Simoneide (como costumávamos chamá-la apenas para irritar).

Eu já fazia o tipo radicalmente oposto: a certinha, a ajuizada. Notas: só 9,5 e 10. Roupas: comportadas e discretas. Amigos: somente os aprovados pelos meus pais. Caseira, obediente, “madura” (o quanto se é possível quando se é jovem). Já trabalhava aos 14 anos como auxiliar de dentista e fazia o estilo “intelectual”. Ou seja, uma chata!
Vivíamos às turras. Brigávamos quase todos os dias, por tudo, por roupas, por namorados, por amigos, não nos suportávamos. Uma mexendo com a sombra da outra.

Um dia, meu pai morreu, de ataque fulminante, com 51 anos. Eu estava com 19 anos, ela, 21. Aí a Simone foi embora para a Grécia e criou uma nova vida lá. Eu fiquei no que achava que seria minha obrigação: cuidar de toda a família, no lugar do meu pai.
Bem, os anos se passaram e mesmo quando ela vinha ao Brasil, acabávamos em fortes discussões e muitas mágoas.

Depois que passei pelo processo psicoterápico e revi cada etapa de vida, e entendi com clareza a minha história, a minha relação interna com ela e toda a minha família mudou completamente. Mas isso não bastava pra mim. Tinha que ir lá e refazer o nosso vínculo. Planejei, economizei, fiz as malas e fui para a Grécia, no mesmo ano em que ocorreram os atentados do 11 de Setembro. Fui em novembro.

Não é possível, em espaço nenhum, expressar a enormidade e profundidade do nosso encontro em Tessalônica (cidade onde mora), durante os 20 dias que estive lá. Só eu sei o que eu vivi. Desfizemos os enganos e desenganos e nos amamos por todos os anos que se passaram e não conseguimos nos ver e ouvir. Dormimos juntas no colchão de casal, no chão, todos os dias, como fazíamos muitas vezes quando crianças. Foi lindo. Algo que carrego na minhas células.

Na véspera da minha volta ao Brasil, acordei de madrugada e percebi que ela estava chorando. Perguntei o que estava acontecendo, e ela me respondeu: “Não é justo, agora que nos encontramos, você vai embora!”. Eu então, a abracei e respondi: “Bobinha…. Agora que nos reencontramos, nunca mais estaremos longe ou sozinha”. E foi assim que eu voltei para o Brasil, mas deixei um pedaço de mim na Grécia. Foi assim que eu trouxe, neste lugar, um pedaço da minha irmã, ou seja, uma parte de mim mesma… “ergue a mão e encontra a hera e vê que ele mesmo era a princesa que dormia…”

Si, te amo muito!!!!!!

17 Respostas to “Vínculo fraterno: amor eterno”

  1. andrea Says:

    nossa q lindoooooooooooooooooooo!
    to chorando.

  2. Maria Fernanda Says:

    Lindo texto, Carol. Emocionante!

  3. Rui Motta Says:

    Vou marcar uma viagem para Curitiba nas próximas semanas… Acho que tenho qlgumas coisas a acertar na vida.

    • Carol Says:

      Sempre temos que coisas oara acertar, sempre temos que nos rever, sempre é tempo de nos recolocármos… Te desejo muita sorte e afeto nessa viagem…
      Carol.

  4. Antonio Carlos Says:

    Oi minha querida Carol.
    Como somos geminianos, sabemos o que é cuidar.
    Eu também passei por uma situação pararecida, a uns 10 anos viajei pelo Brasil e fui até os Estados Unidos pedir perdão a minha mãe, irmã, irmãos e meus grandes amigos.
    Eles não entenderam o porque do pedido de perdão, ai eu expliquei que era por todas as vezes que eu deixei de ser filho, irmão ou amigo e achei que tinha o direito de entrar na vida deles para dar palpites como se eu fosse o dententor das soluções para o problema de cada um.
    Não é fácil parar de dar palpites ou resolver os problemas dos outros, mas o que é mais difícil na nossa vida é começar a cuidas e resolver os proprios problemas sem achar que tem solução para a vida dos outros. Carol, um dia você enfrentou o Golias e hoje repousa ao lado do seu DAVI. Agradeço a Deus por você ser quem É!!! Bjs. Do amigo. AC.
    20.5.2010

    • Carol Says:

      É amigo, afinidades que nos puseram frente a frente e geraram essa grande amizade entre nós… Enfrentamos muitas vezes o Golias juntos na formação de bio… tenho muitas saudades….
      Eu também agradeço a Deus por você ser quem é e estar presente na minha vida… Beijos enormes. Carol.

  5. Paulo Corrêa Neto Says:

    Carol

    Existe uma frase que diz: Raiva é o coração querendo amar.
    Muitas vezes brigamos com nossos irmãos(as), mas no fundo amamos muito uns aos outros.
    Foi muito lindo a descrição do Amor vivenciado com sua irmã.
    Amo voce.
    Beijos e Abraços
    Paulo

  6. Vera Marta Says:

    Oportunidade maravilhosa….E a nossa maior ao poder compartilhar, se emocionar e passar adiante. C/ certeza muitos nós se desatam ao vermos que se as pessoas são capazes de atos tão bélico e transformadores…tbém posso! e isso é a gd sacada da mensagem. Bj moça sensivel.

    • Carol Says:

      Vera, muito obrigada pela palavras delicadas e incentivadoras. Somos todos inspiradores uns dos outros, apenas que às vezes esquecemos de comungar nossos sentimentos e vivências.
      Grande abraço, e seja bem-vinda a este espaço…

  7. Maria Ignês Says:

    Carol querida
    Li, reli, treli. Pensei várias vezes em falar sobre o tema, mas acho que não consigo. Palavras não ditas, gestos negados, nada mais importa e o tempo e a vida não voltam. Mas ficou uma doce saudade. Fico faliz. Pelo menos isso. Sei que você me entende. beijos te amo

    • Carol Says:

      Claro que entendo você minha amada… Há momentos em que as palavras são absolutamente desnecessárias… A gente apenas é tocado… Beijos, também te amo…

  8. simone martins Says:

    te amo….

  9. Claudia Says:

    Carol, to indo pra lá domingo….
    Quer algo?
    Beijos

    • Carol Says:

      Obrigada querida Cláudia, mas estou tranquila…
      Desejo que sua viagem seja maravilhosa… Vá em paz e… divirta-se muito!!!!!
      Beijos,
      CArol.

  10. Maria Ignês Says:

    Ja digitei

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: