Esse é meu 1028 Dia das Mães

Há quem acredite que eu tive o meu primeiro Dia das Mães no ano passado, quando Davi estava com 11 meses, e que terei o meu segundo Dia das Mães neste segundo domingo de maio. Mas isso não é verdade. O meu primeiro Dias das Mães vivi em Miranda do Norte, interior do Maranhão, no dia 14 de julho de 2008, quando entrei à noite em um casebre de barro, sujo, quase sem iluminação, com baratas e cheirando a pobreza e vi, em uma cama improvisada de casal, com um mosquiteiro por cima, meu filho recém-nascido. Subnutrido, nu, envolto por uma nuvem de pernilongos, não emitia qualquer som, dormia.

A cena está indelével na minha memória. É como se tudo tivesse ocorrido ontem. Cheguei no povoado um pouco depois das 22 horas, depois de uma viagem de três dias (isso mesmo, 72 horas) em um ônibus, com paradas em lugares inimagináveis, chamados por eles de postos de conveniência, a cada seis horas.

Estava exausta, sem comer direito, sem dormir e sem tomar banho (impraticável e impensável nos lugares em que parei durante a viagem). Quando penso no meu estado físico e emocional naquele dia, acredito, por que me foi provado, que uma força espiritual que desconheço esteve permanentemente comigo e uma força que já havia ouvido falar também. Essa segunda força é chamada de amor materno.

Já o sentia antes mesmo de pousar os olhos no meu filho. Já era totalmente movida por ele quando saí de Campinas naqueles dias. Por esse amor, uma mãe é capaz de erguer um veículo para salvar um filho. Por esse amor, uma mãe é capaz de se jogar nas águas, sem saber nadar, e mesmo assim, salvar seu filho. Por essa força inexplicável, eu corri riscos pessoais, como ser acusada de sequestro ou tráfico de crianças, ou mesmo ser acusada de tentativa de homicídio, caso acontecesse qualquer coisa ao recém-nascido, com apenas 27 dias, que levei nos braços em uma viagem de 12 horas, passando por dois aeroportos e e duas aeronaves.

No dia seguinte à minha chegada em Miranda, ainda sem ter pego meu bebê nos braços, saí às 6 horas da manhã em direção a São Luis, que ficava a duas horas de onde estava, para achar uma maneira de levar Davi comigo para Campinas.

Passei o dia, junto com a mãe biológica de Davi, correndo atrás de um cartório que fizesse o registro de nascimento dele no mesmo dia. Depois fui ao aeroporto atrás do juizado, para emitir uma autorização de viagem e comprar a passagem de avião. Tudo o que tinha no estômago neste dia era um ovo frito, uma banana, arroz e farinha de mandioca.

Botei os pés em Miranda, naquele dia, perto das 19 horas. Em minha direção veio a mulher que cuidou de Davi durante dez dias antes que eu pudesse buscá-lo. Ela me entregou aquele recém-nascido miudinho e me disse que agora era por minha conta. Minha viagem estava marcada para as 4h30 e eu estava a duas horas e meia de distância do aeroporto.

Sem nunca ter cuidado de um recém-nascido na vida, arrumei a malinha dele com o que tinha, fiz três mamadeiras e peguei o ônibus para São Luis as 22 horas da noite. Fiquei das 1h30 até as 4h30 com este pequenino ser em meus braços no saguão do aeroporto, ninando-o, trocando-o e dando mamadeira.

Estava branca como um papel. Angustiada, ansiosa por voltar para casa, para perto dos meus amigos e da minha família. Sabia que todos acompanhavam de longe a minha saga e esperavam notícias.
Não teve comissária de bordo ou passageiro, nos dois aviões que andei com Davi no colo, que não se sensibilizou com a minha situação. Eu parecia que tinha saído de uma guerra: sem dormir, com olheiras, mas absolutamente atenta àquele tesouro que carregava nos braços. Deixei até de ir ao banheiro por excesso de zelo com meu filho. Cochilava na poltrona sentada, com ele nos meus braços.

E mesmo com uma pessoa que ele não conhecia, e mesmo em um ambiente estranho e mesmo diante de tudo o que aconteceu, esse menino não emitiu sequer um pio. Talvez se o tivesse feito, eu, sinceramente, teria desmoronado e perdido a sanidade. Durante todo o tempo estava no meu limite.

Talvez por saber disso, por intuir que nossa relação já era fato, por saber que nosso encontro estava marcado e representava um laço além de nosso entendimento humano, ele ficou em meus braços completamente entregue, seguro.

Quando me lembro de tudo, não consigo evitar que as lágrimas rolem, mesmo agora, enquanto escrevo esse texto. Muitas coisas que aconteceram naqueles dias não posso e nem quero explicar, apenas agradeço diariamente a felicidade e benção de ser mãe e fazer todos os meus dias Dia das Mães.

Foi pensando em tudo o que vivi que fui para casa no início desta semana chorando. Cheguei, liberei a babá e fiquei na sala pensando nesse processo intenso que passei e passo. Davi dormia no quarto e quando espirrou corri para ver se estava bem. Abri a porta bem devagarinho e ele, ainda dormindo, me chamou: “mamae?”(assim mesmo, sem acento). E eu respondi: “Tudo bem filho, mamãe está aqui, volte a dormir que está tudo bem”. E ele então, dormiu em paz.

Tags:

12 Respostas to “Esse é meu 1028 Dia das Mães”

  1. andrea Says:

    todo dia é dia de indio

    todo dia é dia das maes

    a saga de davi/ ana carolina

  2. Bernardo Says:

    Felicidades a você e ao Davi em mais esse dia das mães. Carol a letra da música não tem a ver com atua história com o Davi, mas gosto dela, se tiver oportunidade escute esse pagode do Arlindo Cruz…

    Nasce um ser
    E numa simples palmadinha, chora
    Como se fosse um brado de guerra, chora
    Anunciando a sua jornada
    Pelo mundo afora, chora
    Mais um soldado
    Pra guerra do cotidiano, chora
    Onde a lei é nascer, lutar e morrer, chora
    Procura afastar nas batalhas
    Seus desenganos, chora
    Muito terá que chorar pra vencer

    E vai ter sempre à sua frente
    Como um rival permanente
    Como um eterno oponente
    O dia de amanhã
    Alegria, surpresa, tristeza, decepção
    Palavras sempre vivas nesse mundo cão
    Buscando sim, achando o não
    E mesmo assim não pode deixar de lutar
    E sempre tentando encontrar a luz
    Cada vida um destino
    Cada destino uma cruz.

    • Carol Says:

      Bernardo,

      Não conhecia essa letra, mas é muito bonita sim. Fui pesquisar um pouco da obra de Arlindo Cruz e gostei bastante de suas composições e apresentações. Valeu!
      Carol.

  3. Maria Nilva Says:

    Parabéns Carol, pela mãe mais guerreira, amorosa, carinhosa e corajosa que conheço. Acredito que se todas as mães (se não todas, pelo menos a maioria) amam, matam e morrem pelos seus filhos, mas você, minha amiga, é capaz de muito mais….
    Parabéns pelo dia das mães e oxalá Deus continue te ilumine para todo o sempre, para cuidar de pequeno ser maravilhoso e dos próximos que virão.
    Um beijo carinhoso para os dois
    Nilva

    • Carol Says:

      Nilva querida,
      Conhecer pessoas como você, durante a minha trajetória, tão amorosa e generosa, me ajudaram a abrir meu coração para esta nova missão na minha vida. Agradeço a você, que muitas vezes foi minha mãe, irmã, filha e amiga. Te amo muito.
      Beijos,
      Carol.

  4. Zé Carlos Says:

    A concepção dessa criança que trouxe mais luz à sua existência , ultrapassa muito o tempo cronológico, posto ter sido a materialização de sútil trama tecida no plano espiritual, quando sequer a “cogitatio” despertara em seu consciente e o primeiro contato físico resultou de sofrida mas necessária peregrinação e foi o momento numinoso do parto dolorido mas exitoso, como se deixou lavrar em poesia : “…ter sido essa saga mais um reencontro de almas, que algures se conheciam e saudosos abriram-se aos deuses, para que nos brindassem com nova oportunidade de recomeçar a maravilhosa experiência de caminhar juntos e por fim cumprir-se o ciclo mágico da impermanência…” Esse evento ensejou desvelamento de seres que talvez estivessem ocultos em seu destino e mobilizados passaram a ser coadjuvantes da fantástica experiência, agora narrada em comovente e emocionada reportagem. Seres esses felizes por assistirem-na a entregar-se por inteiro nesse sagrado mister da maternidade e verem o desabrochar de uma flor acenando para glorioso porvir, cumprindo o postulado de Rilke : “…de que o amor não é outra coisa senão o apelo urgente e venturoso ao outro para que seja belo, grande, abundante, intenso e inesquecível . Nada mais do que o transbordante compromisso de tornar o outro alguma coisa…” Portanto, você é merecedora de todas as louvações e reverências neste domingo especial, pois assumiu com dignidade a nobre e desafiadora arte de ser mãe. Beijo-a com afeto e ao Davi por tê-la encontrado em sua senda.

    • Carol Says:

      Realmente, Zé, só posso muitas vezes achar “respostas” no mundo espiritual. Coisas que escapam a minha compreensão humana, mas que aecito com grande felicidade. Ser mãe é minha maior fonte hoje de satisfação, sentido de vida e felicidade. Me sinto privilegiada e abençoada por poder trilhar esse caminho…
      Beijos,
      Carol.

  5. Rita de Cassia Says:

    É, Carol, ser mãe é realmente inimaginável para quem não é mãe, porque só as mães são capazes de entender esse sentimento. Parabéns pelo dia das mães. Muitas felicidades para você e o Davi, pois sei que ele é uma pessoa especial na sua vida. Que Deus os abençoe. Rita

  6. Jade Says:

    é tia, eu chorei lendo o seu post … pq mesmo longe , todos nós , eu , minha mãe , a vó , as minhas tias , torcemos muito por você, e pelo nosso presentinho de Deus.
    E ver a sua felicidade e a dele principalmente, nos faz perceber o quanto os problemas desse mundo sã pequenos perto do amor que nós podemos dar e o amor que podemos receber de pessoas q estavam predestinadas em nossas vidas.
    O Davi é sim da familia, não de sangue … Mas sim de espirito, que é uma coisa muito maior e muito mais importante que sangue.
    EU AMO MUITO VOCÊS
    e ve-los felizes é o mais importante, mesmo longe estou torcendo tia Ana … Vc é guerreira e merece tudo de bom que acontece na sua vida,

    • Carol Says:

      Jade,

      Você , muitas vezes, me surpreende. O seu texto parece ter sido escrito por uma mulher já adulta, com maturidade emocional e capaz de olhar alguma coisa além do próprio umbigo (comportamento típico dos adolescentes). Acredito que a vida a está “ensinando” você de uma maneira mais dura, porém, pelas suas palavras, percebo que você está aprendendo e dando valor a coisas importantes, como o amor e a família. Eu também fiquei emocionada de ler o seu texto e sinto muito saudades daquele tempo em que fiquei na sua casa aqui em Campinas.
      Eu também torço demais por você Jade, porque sei do seu coração generoso e muitas vezes carente. Sou e serei sempre sua tia, não se esqueça disso… Minhas portas sempre estarão abertas para você. Te amo muito também e você merece também tudo de bom que acontece e que acontecerá em sua vida. Fique com Deus…

      Beijos,
      Tia Ana e Davi.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: