Uma questão de ouvido… “podre”

Em um passado recente, uma pessoa que eu amo muito me disse que eu tinha o ouvido “podre”. Ela não usou exatamente essa expresso, mas foi assim mesmo que ficou pra mim. “Como assim?”, questionei surpresa. Então, ela me disse que muitas vezes falava coisas pra mim, em um determinado tom e volume de voz, de maneira sutil e delicada, e eu reagia como se tivesse sido “criticada” e “agredida verbalmente”, o que, obviamente, não era o caso.

De verdade, passei a notar que ela tinha toda a razão. Muita coisa nos “entra” enviesada, sofre fortes alterações de acordo com a nossa fragilidade e estado emocional do momento.

Comparo a situação aos e-mails. Mesmo muito bem pontuado e escrito, um texto pode ser lido de uma maneira completamente diferente daquela que o autor imprimiu. Não são poucos os casos de interpretações errôneas que resultam em conflitos bobos.

Expressões que são entendidas ou “ouvidas” carregadas de arrogância, muitas vezes estão imbuídas de vozes interiorizadas, carregadas com a qualidade de arrogância, gerada em algum momento do passado, quando nos sentimos criticados e injustiçados por nossos pais, professores e até amigos.

Passei a ficar esperta, não apenas como o meu ouvido “podre”, mas também com o ouvido “podre” de outras pessoas.
Só para exemplificar, uma vez fui a um evento pelo jornal, almoçar, junto com uma colega. Resolvemos, as duas, beber uma “caipirinha”, mesmo sabendo que iríamos trabalhar depois. Sem problemas, na sequência voltamos para a redação e o expediente se cumpriu de maneira normal. No dia seguinte, peguei um texto dessa minha amiga e vi que havia uma incoerência que poderia trazer problemas mais tarde e brinquei: “Ih! Será efeito retardado da caipirinha?”. Isso que não tinha ninguém por perto que pudesse achar qualquer coisa sobre o assunto, e eu falei baixo e normalmente, sem qualquer tom de crítica, até porque, eu também havia bebido uma caipirinha.

Pra quê… Parece até que eu era a mãe dela e estava chamado a sua atenção como se faz com uma menininha. Ela me respondeu agressivamente que ela não admitia ninguém chamar a sua atenção (eu???) e que ela podia fazer o que bem entendesse na hora do almoço (é claro!) e que ninguém tinha nada a ver com isso. Na hora me veio: Ih! , ouvido “podre”. Poderia ter explicado sobre essa tese a ela, mas nem respondi. Me voltei para o que estava fazendo como se não tivesse escutado nada e continuei trabalhando normalmente.
Bem, depois de algum tempo em silêncio, ela foi embora e deixou uma bala em cima do meu computador. Não sei se ela percebeu com clareza que a sua reação foi totalmente desproporcional ao meu comentário, porém, aceite o seu “pedido de conciliação” e nunca mais toquei no assunto.

Assim são os ouvidos “podres”. Os meus e os dos outros.
Fico pensando como será que aquele homem, em Porto Alegre, escutou o outro, que lhe chamou a atenção por ter estacionado em vaga para deficientes, capaz de fazê-lo dar com uma barra de metal na cabeça dele. O homem, pai de uma cadeirante, está com um coágulo no cérebro, internado.

Sou da opinião de que não “basta ser pai, tem que participar…”, no sentido que que não basta sermos ético, é preciso exigir ética dos outros também. O duro é que não conseguimos avaliar e saber quando encontraremos um ouvido “podre” por aí, louco para explodir em agressividade e violência, mesmo que nada disso faça sentido na situação. É sempre um risco…, mas ainda acho que vale a pena nos envolvermos…

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4 Respostas to “Uma questão de ouvido… “podre””

  1. Zé Carlos Says:

    Tenho como truísmo ser a dificuldade dos seres , principalmente os urbanos ,de “ouvir” ou “enxergar”, matriz de conflitos que não com rara frequência transbordam em variadas formas de violência a merecerem análises, pesquisas e teorias de estudiosos da “comunicação” , tendo Marshall Rosemberg como dos mais conceituados especialistas nessa área e a Universidade Internacional da Paz (UNIPAZ), embasada nesse autor mantém Grupo de Estudos sobre “comunicação não violenta” , como instrumento de perseguir a “cultura de paz” , seu escopo maior.A situação reportada da “caipirinha” , é ilustrativa dos equívocos e interpretações resultantes de diálogos verbais ou escritos, muitas vezes vistos isoladamente do contexto que os gerou. Ademais, como o texto admite, a oitiva ou interpretação faz-se contaminada por elementos subjetivos, quer emocionais, psíquicos, ideológicos, quer ainda por preconceitos. Considero muito aplicável aos dias atuais a sabedoria de um velho líder indigena americano ao qual indagou-se o que fazia, respondendo que ensinava seu povo a : escutar; que tudo está ligado com tudo; que tudo está em transformação; que a terra não é do homem, este é que é da terra .Carecemos dessa escuta por estarmos surdos ou termos ouvido “podre” , vivermos egocentradamente e assim perdemos a sensibilidade e conexão com a vida e seus valores maiores; sente-se ainda carência de visão ampliada, de vez que enxergamos limitadamente e somos cegos de olhar para nosso interior, metáfora magnifica de Saramago : “só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são” .Essas distorções levam-nos à desconsideração de pessoas que alongam seus braços para ofertar o seu amor incondicionalmente e querem dar-nos alegria e felicidade, embora nós a tenhamos ou julgamos tê-la o suficiente para o consumo, sem necessidade de estoque para a temporada invernal, quando as recordações e memórias de eventos onde o amor quis ser consagrado, possam animar os momentos antecedentes à travessia da última ponte. Louvo-a por vez mais trazer à reflexão tema relevante . Beijos

    • Carol Says:

      Zé,
      Mais uma vez palavras sábias e brilhantes. Vivemos em uma época em que as “contaminações” nos chegam de todos os lados. O amor, incondicional ou não, é uma doação generosa. Somente é capaz de oferecer aquele que tem em abundância. Quem teve muito pouco, às vezes, tem dificuldade de doar, porque não sabe que essa doação resulta em mais e mais amor brotando. Às vezes somos esses seres incapazes de receber e de gerar. Algumas vezes são apenas momentos e etapas da vida, outras vezes, maneiras de enxergar e sentir essa vida. Por isso estamos todos no processo, para aprender a amar mais e melhor. O amor, ao contrário do que muito acreditam, não é um talento ou uma capacidade que já nasce pronta. Temos a capacidade, mas é preciso desenvolver esse protencial. Dar seus contornos e limites, aprender, vivenciar, sempre aprender… Beijos,

  2. Blanco Says:

    Ola Carol,

    Qdo tenho tempo leio teus artigos que uma amiga minha me manda sempre, esse esta demais…. Me dei conta que tenho ouvido podre o tempo todo e q certas pessoas ao meu redor nem se fale entao, virou circulo vicioso… Vou aplicar a techniqca e tentar nao replicar, dependendo do resultado te escreverei novamente. Continue pois é muito interessante.
    A très bientôt
    Miriam Blanco – Paris

    • Carol Says:

      Miriam,
      É um prazer receber seu comentário. Espero que o meu texto ajude você a refletir sobre essa questão do nosso dia a dia. Às vezes o melhor mesmo é dar uma de “doida” e fingir que não entendeu. Em outras, responder e não engolir o “sapo” também pode ser salutar. A vida se desdobra na nossa frente, exatamente como em um caleidoscópio, o desenho nunca se repete. Seja bem-vinda ao blog sempre que quiser e tiver vontade de comentar.
      Abraço,
      Carol.

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