A loucura explode, mas continuamos impassíveis

O nome Isabela deriva de Isabel, nome teutônico ou hebraico. Izebel, quer dizer a casta. Do francês Isabelle e do espanhol Isabel. Entre as variações, Isabéu e Isabela. Significa cumprir com as promessas. É próprio das pessoas que se regem pelo clássico lema “promessa é dívida”. Respeitam escrupulosamente as decisões dos outros.
Isabela também é o nome das filhas de duas mulheres maravilhosas que conheço. E ainda, é o nome da inocente vítima de um dos casos de homicídio de maior repercussão no Brasil.
Não é possível entender de onde surge uma catarse coletiva igual a que está ocorrendo com o julgamento dos Nardoni. A impressão que tenho é que as pessoas assistem a uma telenovela, capítulo a capítulo, se identificando com os personagens da trama e tirando suas próprias conclusões. É possível escrever uma tese antropológica e de comunicação social sobre o “circo midiático” armado em torno deste processo. Eu, particularmente, tenho evitado ao máximo acompanhar essa “doença”.
Os brasileiros desconhecem a realidade da violência doméstica contra a criança no País e no mundo. Ainda mais e principalmente suas causas e graves consequências.
Esse estado “estranhamente” emocional e visceral, como se a vida de cada brasileiro dependesse do desfecho deste julgamento, não é privilégio do Terceiro Mundo. Quando estive nos Estados Unidos, em Atlanta, um ano depois do 11 de Setembro, pude visitar a a sede da CNN – maior canal de notícias norte-americano. Lá, eles mantém uma linha do tempo na parede, na qual registram os picos de audiência da emissora em todo o país, desde a sua criação.
Você vai acompanhando as maiores audiências por datas e eventos ocorridos. Pois pasmem: um dos picos, que ultrapassavam o espaço delimitado para isso e subiam em direção ao teto, era do dia do anúncio do resultado do julgamento do jogador de futebol americano O.J. Simpson, em 1995. Duas vezes maior a audiência neste dia do que no dia dos ataques terroristas do 11 de Setembro, o evento com o maior número de registros e imagens da história do mundo.
O caso de O.J. foi o seguinte: em 12 de junho de 1994, a ex-mulher de Simpson (considerado um ídolo esportivo e herói americano), Nicole Brown, e um amigo dela, Ron Goldman, foram mortos a facadas em Los Angeles. O principal suspeito e acusado pelos assassinatos foi o marido. Após um ano de midiático julgamento, (eu disse um ano!), Simpson foi absolvido das acusações penais.
Fique tão abismada que chamei o guia que nos acompanhava na visita e perguntei como é que podia ter um pico daqueles. Ele me contou que a comoção social foi tanta que no dia da divulgação da decisão dos jurados, escolas ficaram fechadas e muitas empresas não tiveram expediente. Mais de 90% da população do país estava em frente a um televisor acompanhando passo a passo a conclusão do processo.
Eu não tenho conhecimentos suficientes para tentar explicar esse tipo de fenômeno social. Apenas tenho a lamentar profundamente a banalização da violência e da vida humana. Me esforço para entender que tipo de sociedade é essa que cria esses psicopatas, os acolhe e convive tão bem com eles, até que a tragédia ocorra.
É a loucura explodindo. Ao invés de focarmos nossa atenção ao desfechos das tragédias anunciadas, deveríamos nos perguntar que sistema social é esse que criamos e alimentamos. Que vida é essa que vivemos e não vemos passar. Onde estão as coisas realmente importantes e quanto do nosso tempo nos dedicamos a elas. Todas as relações exigem cuidado, tempo e dedicação.
Rezo nesse momento por luz e sanidade para todos nós…

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5 Respostas to “A loucura explode, mas continuamos impassíveis”

  1. andrea Says:

    pra mim é um misterio esse seu questionamento.

    quer mais do q aquela bosta de bbb10? e parece q o Brasil inteiro assiste menos eu ? tudo aquilo me parece uma armaçao tao grande .
    o pior é q as pessoas vivem outras vidas q nao as suas .
    é mais facil ver as merdas dos outros e dar pitaco do q ver as proprias. mas , pq isso anestesia?
    de verdade , eu ja arrumei a vida de tanta gente pela minha visao e tudo estava resolvido, é logico q a minha estava um caos e eu nao via.

    seu nome deveria ser despertador.

    • Carol Says:

      Me sinto aliviada que o caso tenha sido “encerrado”. Parece que, agora, podemos voltar à vida normal e retomar assuntos importantes como a campanha contra a dengue, contra a gripe H1N1 e a campanha de limpeza na cidade.

  2. Rui Tomás Says:

    Carol, boa noite !!!
    Obrigado por você existir e fazer parte do meu seleto grupo de amigos. Adoro ler suas cronicas. Você é maravilhosa! Linda em todos os sentidos.
    Beijo carinhoso e amigo
    Rui Tomás

  3. J.CARLOS VIEIRA Says:

    Muitas pessoas, certo é que minoria, ficaram acometidas da mesma perplexidade e indignação por mais um “circo…” como foi classificado esse triste episódio, reflexo da “normose” em que está imersa a sociedade globalizada. Consciente do efeito deletério da mídia, principalmente televisiva, poupo-me dos horrores do noticiário fomentador da patologia que assistimos ampliar-se. Sabidamente um dos fatores a impulsioná-la é o consumo, pois os patrocinadores midiáticos valem-se de todos os artificios para vender seus produtos e os melhores vetores são as tragédias e violências que mereceriam estar em plano secundário , relativamente a acontecimentos verdadeiramente pedagógicos indicadores de valorização de dois pilares indispensáveis para nossa formação : “convivialidade” e “ser” , posto seguirmos apenas dois outros não menos importantes : “conhecer” e “fazer” . Recentemente no Iraque uma família foi destroçada por bombas, sobrevivendo apenas uma menininha com cerca de dois anos, não obstante tenha recebido um projétil na cabeça, sendo resgatada por militar e somente em seu colo se aquietava e este insone a mantinha dormindo sobre seu peito. Isso foi minimamente exibido pela mídia. Existe muita coisa saudável a ser mostrada como exemplo de solidariedade, amor ,dignidade. Compreende-se a necessidade da informação mas não do sensacionalismo imposto pelos meios de comunicação submissos ao interesse econômico. Afinal o comportamento da massa resulta da ausência de educação, de formação para a cidadania e isso nos entristece embora prenunciemos estarmos vivendo a transição para novo paradigma . Vez mais louvo-a por lançar suas inquietações ensejadoras de reflexões que contribuem para o avanço . Beijos

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