E viva as famílias “coloridas”!

Logo cedo peguei Davi e fomos até a pracinha próxima à minha casa. Criança dentro de casa, em dia ensolarado, é “espeto”, como diria o memorável Nélson Rodrigues. A área verde perto de casa está bastante detonada. Um dos motivos é que, por muito tempo, a Toca de Assis funcionou ao lado dela, recebendo e tratando dos alcoólatras e indigentes. Nada contra. Apenas que eles fazem xixi e cocô no chão e jogam todo tipo de lixo em qualquer lugar, de comida a colchões. Enfim, é o que tem e eu busco aproveitar o que é possível.
Estava com Davi na balança quando chegou uma outra mãe com seu pequeno. Tratei logo de travar conhecimento e aproximar os meninos, quase da mesma idade. Descobri que estavam na mesma escolinha e se conheciam. Enquanto eles brincavam, começamos a conversar.
Papo vai, papo vem, e ela me perguntou se Davi era filho único. Respondi que até o momento sim, mas que tinha pretensões. Ele comentou que ele parecia ter um gênio forte e eu lhe disse que Davi veio do Norte, de Maranhão, que tem o “saco roxo”. Que chegou a Campinas nos meus braços com 27 dias. Que havia decidido pela adoção mesmo solteira e sem companheiro fixo.
Para minha surpresa ela deu um longo suspiro de alívio e me disse: “Que bom encontrar uma família ‘diferente’ como a minha!”.
Então fiquei sabendo que ela era casada com uma outra mulher. As duas decidiram que ter um filho seria importante para as suas vidas. Não sei os detalhes do “arranjo”, mas ficou claro que escolheram um parceiro, e que este, depois, saiu totalmente da parada. Ela me confessou que foi um processo bastante penoso.
Enfim, seu filho estava ali, brincando com o meu. Eu fiquei encantada comigo mesma, depois que voltei para casa, ao perceber com que naturalidade escutei essa história.
Ela (preservo o nome por respeito à sua intimidade) me disse que uma das questões que havia levantado com a diretora da escolinha, na qual também estuda Davi, era a forma de trabalhar o conceito de família. Buscar mostrar aos pequenos que hoje existem vários tipos de convivência familiar, além da nuclear tradicional formada por papai – mamãe – filho. Existem crianças sendo criadas pelos avós. Existem filhos que vivem com os filhos de seu padrasto ou da madrasta. Existem filhos criados por mães solteiras. Existem filhos do “coração”. Existem filhos de laboratórios. Existem filhos de casais homossexuais. Ou seja a diversidade da diversidade. E nisso não cabe qualquer tipo de julgamento. São os novos formatos de famílias “coloridas” que são uma realidade.
Já disse uma vez e repito: a palavra do milênio é tolerância. É preciso ensinar os pequeninos a aceitarem com naturalidade as diferenças, a diversidade, o único. Esse aprendizado, de aceitar o outro como é, começa de bebê. As escolas devem e precisam se atualizar com a vida que acontece aqui e agora e não se manter presas a padrões e conceitos herméticos e ultrapassados.
Não tenho ilusões de que Davi não sofrerá por suas perdas e rejeição no âmbito familiar original. Mas acredito que será um processo de aprendizado para ele, e, principalmente para mim. Um caminho que será erguido tijolo a tijolo, de acordo com as emoções, sentimentos e acontecimentos. Peço ao meu inconsciente, diariamente, que deixe meu coração ser o guia nesse percurso.
E viva as famílias “coloridas”!

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9 Respostas to “E viva as famílias “coloridas”!”

  1. andrea Says:

    tolerancia a diversidade

    qual sera a nomenclatura da minha celula familiar?

  2. Paulo Corrêa Neto Says:

    Carol
    Conversa com a Rosarinho que ela vai lhe indicar um ou mais livros infantis que aborda a questào: diferentes tipos de familia.
    Sei disto porque quando trabalhavamos juntos ela tratou desta questão numa classe que tinha ciranças de 2 anos e meio a 6 anos. Ná época foi um sucesso.
    Abraços
    Paulo

  3. Cecília Pupo Says:

    Querida, mesmo as famílias tidas como “tradicionais”: mãe, pai e filhos, foram invadidas, revolvidas pelo tsuname das mudanças de valores do pós-modenismo. O esforço de harmonização do grupo, a compreensão do desempenho dos novos papéis exige de cada um muito desapego, amadurecimento e desejo verdadeiro de ultrapassar as velhas práticas para preservação da “família”. São tantos os formatos que pode-se afirmar, sem risco de erros, que somos todos “coloridos”, hoje em dia.
    Beijo, Cecília

  4. J.CARLOS VIEIRA Says:

    Não obstante estarmos na pós-modernidade aludida por Cecília,carecemos de efetiva implementação da pedagogia propugnada por Jacques Dellors, acolhida pela Unesco, centrada na consciência da inteireza : educar para conhecer, educar para fazer, educar para conviver e educar para Ser.As duas primeiras são as praticadas nas maiorias de nossas escolas, enquanto as duas outras o são excepcionalmente em estabelecimentos que podem verdadeiramente nominar-se “educacionais” como : as escolas Waldorf; a escola do Sol (Unipaz-Brasília); Escola de Sai Baba e algumas mais. O tema abordado está vinculado a isso, de vez que a multiversidade da sociedade contemporânea (onde o meio é a mensagem para lembrar Mach Luan), sofre alterações extremamente significativas nos costumes, ainda com resquícios de moral judaico-cristã, alimentadora de preconceitos responsáveis pelas exclusões dos “violadores” do status quo (homossexuais ou etnias qualificadas como inferiores ). Por isso é atualíssima e necessária a reflexão sobre essas questões a exigir das pessoas que não se querem “normóticas” posturas “fiscalizadoras” e firmes na defesa da “convivialidade” para o nascimento do “ser”, com suas várias conotações. Nas escolas de nossos filhos, por exemplo, através de “Comissões” ou “Associação de pais…” questionarem desvios de professores, coordenadores, pais e mesmo crianças que segregam colegas cujos “pais” sejam homossexuais ou de outra etnia. Cumprimento-a pela pertinência do tema que induz, embora em âmbito estreito, a importante reflexão, contribuindo para avançarmos como humanidade dentro da perspectiva da inteireza. Beijos.

    • Carol Says:

      Zé,

      Suas palavras são sempre certeiras e pertinentes. Ética é, principalmente, se envolver nas questões junto com o outro.
      Grande beijo,
      Carol

  5. Rui Motta Says:

    Carol. Lindo seu texto e perfeita a sua percepção. Acrescento que, mais do que o formato da família, o importante é o objetivo de se estar junto. Se a função é viver em amor, nada nem ninguém farão falta.
    Saudades.

    • Carol Says:

      Rui, obrigada pelo comentário. Também estamos com saudades de você aqui na redação. Nos falta “aquela” opinião que só você sabe dar diante de algumas situações do dia a dia.
      Abraço,
      Carol

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