Autoestima: o verdadeiro tesouro do anão

Quando era pequena, eu e meus irmãos ouvíamos constantemente de meus pais: “Somos pobres e não vamos deixar nenhum patrimônio para vocês. A única herança que vamos poder oferecer é educação particular! Aproveitem”. Isso era repetido e repetido. Pura ilusão… Começamos a educação formal em colégio particular, mas logo tivemos que ir para a rede pública. Minha mãe chorou uma semana por conta desta mudança.

Mais para frente, as coisas ficaram mais difícieis ainda financeiramente. Comecei a trabalhar com 14 anos, como auxiliar de dentista. Ainda estudávamos em colégio da rede estadual e assim que me formei no segundo grau, decidi fazer faculdade. Não fiz cursinho por falta de condições e acabei entrando em uma instituição particular, em São Paulo, com 17 anos, para a grande decepção de meu pai, que cursou engenharia no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), no Paraná. Ele queria que eu tivesse entrado em uma universidade pública como a USP.

Em que pese a ajuda dele no valor da matrícula, os dois anos que cursei, enquanto ele estava vivo, paguei trabalhando duro durante o dia e estudando à noite. Ele nunca me perguntou coisa alguma sobre o assunto. E olha que eu fui a única filha a cursar o Ensino Superior!

Meu pai tinha uma maneira muito peculiar de educar os filhos: achava que nada poderia ser fácil. Assim, com base nessa premissa, passava quase na porta da minha faculdade na época, mas não parava o carro para que eu descesse. Ele me deixava no ponto de ônibus do nosso bairro, quase do outro lado da cidade, para que eu voltasse o percurso no busão. Tipo “se quiser alguma coisa, não espere ajuda e nem facilidades”. Enfim, coisas de papai…

Depois, coitado, faleceu de ataque cardíaco fulminante, deixando minha mãe com seis filhos e sem casa própria. Sobrevivemos, estudamos, trabalhamos, casamos, tivemos filhos, tudo sem contar com o tal “patrimônio” que eles tanto gostavam de lembrar e valorizar.

Acho, de verdade, que não quero deixar a educação formal como patrimônio para Davi. Essa educação ele vai conquistar passo a passo, de acordo com os desejos que brotarem de sua alma e com a sede de conhecimento que tiver.
Para Davi, penso em deixar uma coisa mais valiosa pra mim: a sua autoestima o menos ferida possível. Não que ela dependa unicamente de mim, mas nós pais a prejudicamos bastante quando sentimos raiva de nossos filhos e queremos atingí-los. As palavras vindas dos pais têm poder de decreto interno e poderão ser ouvidas ainda muitos anos depois que eles se forem para o outro lado. Falo isso por experiência própria. Até hoje escuto frases que meu pai dizia como “não fez mais do que a sua obrigação”, “não podia esperar mesmo nada diferente”, “não chore, senão apanha mais ainda. Engole o choro!”. Coisas terríveis para se dizer não é mesmo? Mas é fato que muitas vezes o fazemos sem pensar.

Comentários do tipo “Você nunca faz as coisas certas!” ou “Como você pode ser tão burrinho?” levam nossos filhos a duvidar de suas capacidades. As críticas devem estar dirigidas ao fato ou ao comportamento impróprio, não ao ser humano que ela é. Por isso, o melhor é dizer “Seu quarto está uma bagunça, precisa ser arrumado”, e não “Você é um bagunceiro de marca maior e joga tudo por todo lado”.

Quem tem uma autoestima relativamente equilibrada (nem alta e nem baixa) costuma confiar em suas percepções e em seus julgamentos, acredita que suas iniciativas vão dar certo e lida com os outros com mais compaixão e generosidade.

Quem recebe incentivos explora situações novas com mais confiança. Um alto grau de afetividade fisica com beijos, abraços e brincadeiras que envolvam o toque também faz a criança sentir-se amada e bem-aceita pelo que ela é e pelo que é capaz de realizar.

Como escrevi à minha amiga Cecília, sermos feridos por nossos pais faz parte da vida e do processo natural de autodesenvolvimento. Vivemos uma boa parte de nossa trajetória sem consciência destas feridas e vivendo sob a sua égide. Apenas na meia idade, quando chegamos à maturidade (alguns nem essa sorte tem!), revisitamos nossas dores e podemos refazer o caminho, abrindo a possibilidade de escrever sob um novo padrão, mais saudável quem sabe… Desejo fortemente ferir menos possível a auto-estima do Davi, ou o menos profundo.

“A confiança é um ato de fé, e esta dispensa raciocínio.” (Carlos Drummond de Andrade)

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5 Respostas to “Autoestima: o verdadeiro tesouro do anão”

  1. andrea Says:

    vc anda inspirada e aproveito.

    eu so descobri q tudo isso existia depois da terapia com a tia lilian e quando leio sinto nitidamente como é.

  2. Selma Albertini Says:

    As belas e refletidas palavras veio em bom momento. Bem oportunas para qq. mãe que na atualidade faz “tudo” sozinha, sem companheiros para discutir, relatar, ou desabafar e dialogar. Mas, penso ainda que a figura paterna ainda assim, faça falta, ainda que sob condutas rígidas e menos companheira. Talvez, eu seja tradicional demais ou mesmo “quadrada”. Enfim, serviu para que eu, na qualidade de mãe e pai, reflita ainda mais antes de dizer algo à Elizabeth de forma mais agressiva. Posso mudar as palavras sem agredir, mas apenas educando, mostrando, apontando e informando. Penso que posso sempre melhorar e aprender… Obrigada pela sábia dica…

    • Carol Says:

      Selma querida,
      Se dei a impressão, em algum momento, de que a figura paterna não tem importância ou é prejudicial, me perdoe, pois não é nada disso. Meu pai, com todos os seus defeitos e qualidades, foi figura fundamental para me constituir como mulher e cidadã. Ele, mesmo com sua maneira rígida, me deixou bens de valores incalculáveis. Ele era de uma ética, de uma lógica, de uma honestidade e de uma justiça surpreendentes. Por exemplo, fazia todos colocarem cinto de segurança, em um tempo em que o cinto era apenas um enfeite nos carro. Era incapaz de jogar o que quer que fosse na rua e não admitia falta de respeito com idosos. Ele tinha arraigados valores sociais e de convivência e foi ele quem nos passou essa herança. Considero a figura paterna essencial e fundamental para a saúde mental de qualquer ser humano. Obrigada por suas palavras. Fico feliz por termos um espaço para refletir.
      Sei o quanto é difícil ser Pãe. Beijos,

  3. J.CARLOS VIEIRA Says:

    Seus textos são resgates da realidade vivida, evocando alegrias, frustrações, angustias e percalços, lastreando o presente e futuro de sua vida e do ser acolhido para segui-la em nova fase de sua jornada. O conhecimento de aspectos de sua vida, assemelha-se às “Vivências Verbais” da Biodanza, revelando situações comuns experenciadas por diversas pessoas . As asperezas de seu processo de formação, no sentido mais lato, moldou-a como mulher forte e independente, assumindo o destino em suas mãos. Os embates com os pais influenciam e por vezes marcam definitivamente uma vida lançando-a nos desvãos existenciais mas existem fatores metapsíquicos que surpreendentemete a direcionam para realização plena e saudável. Seus relatos de convivência paterna fazem-me lembrar da “Carta ao meu pai” de Kafka e caso não o tenha lido, recomendo-o pois para seu autor foi uma catarse e não é raro nos identificarmos com sua experiência. Essas reflexões confirmam sermos construtores de nosso caminhar, malgrado todas as influências positivas ou negativas de nossos genitores e da sociedade onde estamos inseridos, dando assertividade ao poema de Antonio Machado : “caminante, son tus huellas el camino, y nada más; caminante,no hay camino, se hace camino al andar. Al andar se hace camino, y al volver de la vista atrás, se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar. Caminante, no hay camino sino estelas en la mar.” A auto-estima anda em baixa nos dias que correm e tem sido apontada como responsável por crises depressivas, cada vez mais ampliada e diagnostico como produto imperceptivel, para muitos, de influência da sociedade de consumo midiatizada exarcebadamente, a “venderem” padrões de excelência em todos os sentidos e a grande maioria das pessoas, que não obtem as benesses anunciadas, se sentem inferiorizadas. Vejo-a, vivendo a experiência materna com muita consciência de sua missão . Conhecendo-a como impetuosa guerreira mais a reverencio. Beijos

    ncia dessa sociedade consumista

  4. Carol Says:

    Zé,
    Esse poema é muito lindo!! Como diz você: avante!

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