Bençãos que acabam virando maldições

Nós pais, somos como as fadas convidadas para o batizado da princesa Aurora, do conto-de-fadas A Bela Adormecida. Cada fada deu a ela, como presente, um talento, um dom, uma benção. Também nós nos postamos ao lado do berço de nosso “pimpolho” e desejamos secretamente (e de verdade, acreditando que assim o é) que ele será o mais bonito, o mais inteligente, o mais educado, o mais obediente, o mais engraçado, o mais charmoso, o mais, o mais, o mais…

Porém, nossas bençãos e desejos podem, muitas vezes, se transformar em maldições. Nossos filhos já nascem sob a ingrata missão de serem melhores seres humanos do que nós conseguimos ser em nossa existência. Queremos deixar uma herança para a humanidade, alguém que faça diferença na vida das pessoas e seja reconhecido por suas qualidades. A continuidade de uma parte de nós melhorada. Digo ingrata, porque a projeção é puramente nossa, com base em nossa história, experiência e balizamento pessoal. Só que derrubamos, inconscientemente, essa “projeção-monstro”, mesmo antes do nascimento, em um ser que não sabe nada sobre tudo isso.

Bem, um parênteses. Jung define projeção da seguinte forma: “ a projeção é um processo inconsciente automático, através do qual um conteúdo inconsciente para o sujeito é transferido para um objeto, fazendo com que este conteúdo pareça pertencer ao objeto. A projeção cessa no momento em que se torna consciente, isto é, ao ser constatado que o conteúdo pertence ao sujeito.”

Depois, passamos a querer, oferecer e achar que eles podem “fazer e ser tudo aquilo que não pudemos”. A mãe, dona-de-casa e passiva, espera que a filha seja uma grande executiva, faça viagens fantásticas pelo mundo e fique solteira pelo maior período que puder, escondendo seu desconforto com o casamento. O pai provedor e austero, olha para o filho e deseja que ele viva grandes aventuras e seja livre para amar a muitas mulheres, num contraponto ao que vive. Pais rígidos podem desejar, intimamente, que seus filhos sejam rebeldes com ou sem causa. Ou então, que dêem continuidade a tudo o que acreditam ter valor.

Me lembro que em uma família de seis filhos, meus pais diziam pra mim o tempo todo, que eu iria “dar certo”. Hoje, não sei exatamente o que eles desejavam de verdade, mas acreditei naquela época que se referiam aos estudos, à faculdade, a ser uma mulher moderna e auto-suficiente. E então, cumpri o roteiro que acreditei ter sido escrito pra mim.

Se por um lado isso se mostrou uma benção, uma vez que apenas eu concluí um curso universitário, tenho uma carreira profissional bem-sucedida e sou independente financeiramente, por outro lado, também foi uma maldição. Me prendeu a um decreto: eu tinha que ser. Eu tinha que responder à altura daquela expectativa e em nome dela, vivi quase toda a minha vida. Deixei de desenvolver muitos potenciais por isso e perdi a chance de escolher algo diferente.

Minha mãe, até hoje, fala, mesmo na frente das minhas irmãs, que eu sou a única filha que “deu certo”. Bem, além da ciumeira que gera, gente, que carga para se carregar!!!! Uma verdadeira camisa-de-força!!!

Tenho medo e respeito a idéia de que, indiscutivelmente, farei e faço projeções sobre Davi. Não tenho ilusões de que não o farei, mas rezo para que sejam as menores possíveis. Peço lucidez e esclarecimento. Busco focar minha atenção no meu autoconhecimento como forma de minimizar os prejuízos das minhas expectativas sobre ele e de diminuir o número de decretos que acabarei assinando e pedindo que ele cumpra. Torço para que ele tenha instrumentos internos capazes de se defender de algumas expectativas e de fazer escolhas saudáveis e felizes.

Peço humildade e consciência para que possa ser muito mais fada do que bruxa…

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5 Respostas to “Bençãos que acabam virando maldições”

  1. andrea Says:

    misericordia!
    é verdade.

  2. Cecília Pupo Says:

    Carolzinha, é tudo muito verdadeiro.
    Passei tb muito tempo me lascando p/ atender a expectativas de outras pessoas, com quem convivia e inclusive amava. Até que, certa vez, elas passaram do limite: eu teria que me negar enquanto mulher, enquanto ser humano livre, para me adaptar à camisa de força que cada um trazia debaixo do braço e com a qual dizia querer me proteger…
    Identificar essas manobras foi um primeiro passo, mas encontrar e trilhar o meu próprio caminho foi e ainda é uma luta cotidiana – rio acima, contra a corrente… sempre alerta, inclusive p/ não cair no engodo da culpa…

    P.S.: Mas fico pensando se tb não será terrível a sensação de que nada esperam de nós…
    Beijo, Cecília

    • Carol Says:

      Cecília,
      Muitas saudades. Acho que é parte integrante do ser humano esperar e ter expectativas. As temos em relação às amizades, aos amores, ao trabalho, à próxima festa, ou seja, para tudo. Apenas acho que quanto menor essa expectativa, menor também será a frustração quando precebemos que é só uma expectativa. Faz parte do desenvolvimento humano sermos “feridos” por nossos pais e, depois, com mais da metade da vida percorrida (alguns nerm essa sorte tem), rever essa ferida, “matar” os nossos pais e, com sorte, deixar um “eu” mais verdadeiro se manifestar.
      Não temos como fugir desse roteiro, mas quanto mais conciência tivermos, melhor, não acha?
      Beijos,

  3. J.CARLOS VIEIRA Says:

    Esse tema permite várias vertentes mas a limitação do espaço impõe abordagem sintética das que se me afiguram mais relevantes: 1-Há tese do filósofo-pedagogo (Omraam Aivanhov) que prescreve rigorosa preparação dos pais antes de conceberem um filho, valendo-se até da “galvanoplastia espiritual”. Com essa ritualização gerariam filhos sem tantas das dificuldades constatadas na sociedade, principalmente ocidental, algumas delas relatadas no blogue.A despeito da utopia, é importante conhecê-la mas muito avançaríamos se os parceiros ao se encontrarem para realização do amor, o fizessem sacralizando-o e sentissem a presença do divino mas isso atualmente fica relegado aos poetas em seus delírios, pois estamos no domínio do instinto ou seja : do “transar” inconsequente. 2) A “projeção” tem a conotação yunguiana e outra subliminar resultante do modelo capitalista, embora decadente, ainda vigente na globalizaçao neo-liberal, que conduzem os pais, notadamente no segmento mais aburguesado, a “elaborarem” ante-projeto dos filhos, transformando-os em objeto de consumo como assinala o texto comentado, gerando as “maldições” que fazem as pessoas reféns de mandatos ou “decretos” . 3) Essas mazelas sociais subsistirão enquanto a civilização não superar a cultura da acumulação, da priorização do “ter” em detrimento do “ser” , em transformar a ecologia interior e adotar pedagogia que facilitem-na. Lembremo-nos dos ensinamentos de Adorno sobre a necessidade de educação na primeira infância, quando se forma a personalidade e o caráter, capaz de efetivamente anunciar um porvir mais alentador para a humanidade. Acolhamos o preconizado poéticamente por Thiago de Melo, como uma reflexão sobre nossa missão amorosa e transformadora : “Só nascerá o homem novo,não importa quando, um dia,quando aqueles que por ele sofrermos, formos capazes de ser a semente e a flor desse homem.” Podemos testemunhar que nossa bloguista vem palmilhando essa senda . Em marcha !!! Beijos

  4. Carol Says:

    Zé,

    Tenho usado esse espaço para fazer reflexões, revisitar o meu passado e falar sobre os meus desejos e expectativa. Tudo isso me tem feito muito bem. Principalmente quando posso contar com pessoas como você, que me dão importantes feedbacks. Obrigada por fazer parte, mesmo, da minha vida. Quando estará de volta?
    Beijo,

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