Fazendo as pazes com Deus

A religião sempre foi uma pedra no meu sapato. Batizada, comungada e crismada na Igreja Católica, passei por várias vertentes durante uma vida. Fui educada até os sete anos em colégio de freiras, com muita missa, confissões semanais (imagine, o que eu poderia ter de “pecado” para contar ao padre???…) e rezas diárias e decoradas.

Um dia, uma das freiras foi à minha casa e disse à minha mãe que, com certeza, eu tinha vocação para a carreira religiosa. Ela olhou bem para a irmã católica e me perguntou se eu concordava com ela. Eu, empolgadíssima, disse que sim. “Bem, então” disse ela, “pode levar.” E foi assim que acabei internada em um colégio de freiras, em vias de me tornar uma “santinha”.

Olhando friamente a situação você pode pensar que minha mãe estava louca né! Imagine mandar uma criança de sete anos para ser doutrinada e seguir carreira eclesiástica! Mas, era minha mãe, e me conhecia. Três dias depois a freira voltou comigo, me entregou e disse: “Me enganei, ela não tem vocação não…”. Eu, sinceramente, até hoje não entendi…

O que sei é que depois disso não entrava mais em igreja nenhuma. Tinha ojeriza de missas, batismos, casamentos e missas de sétimo dia. Achava tudo um saco! Não tinha paciência para as mesmas falas decoradas e os mesmos gestos repetidos domingo após domingo. Depois, fiz muitas outras experiências loucas. Quis ser mórmom, e cheguei a participar do curso dos iniciantes. Desisti da idéia assim que soube que no domingo, ninguém podia fazer outra coisa a não ser rezar o dia todo. Tô fora!

Minha avó paterna era espírita e também contei com participações em mesas brancas, cerimônias de desobsessão e li muitos livros de Zíbia Gasparetto (todos com histórias parecidas…) e o Evangelho segundo Allan Kardec. Resumindo, fui a terreiro de umbanda, cultos evangélicos, pus os pés no esoterismo e cheguei a me anunciar publicamente atéia.

Foram anos patinando no vazio. Nada parecia fazer sentido. Um dia decidi criar a minha própria religião. Me dei conta de que podia abrir o meu próprio canal de comunicação e falar diretamente com Deus. Percebi que a espiritualidade transcende a condição humana e que também somos divinos. Afinal, a palavra religião vem do latim “re-ligare” que significa “ligar com”, “ligar novamente”, restabelecer o elo perdido com o mundo que nos cerca ou com o nosso interior.

Me descobri em ligação direta espiritualmente com o universo. Passei a rezar, orar, nas condições mais improváveis e agora sei que não é preciso templos externos, regras específicas, rituais determinados e nem ambiente apropriado para estar em sintonia com o divino. Me sinto plena e livre. Livre para gostar e curtir tudo o que me toca a alma. Me emociono com algumas canções de Padre Marcelo e Padre Fábio Melo (Sirleide, obirgada pelo CD!), admiro uma vida como a de Chico Xavier, me apego às forças primitivas de Iemanjá e recorro ao padrinho de Davi, São Miguel Arcanjo, em busca de proteção e justiça.

Posso ler “Caim” de José Saramago sem me sentir ofendida, usar o tarô como forma de acesso ao meu inconsciente, tomar um passe mediúnico para me sentir mais equilibrada e em paz, e ir à missa com meus tios e primos, me sentindo grata por tê-los ao meu lado. Hoje, sou totalmente adepta do sincretismo religioso.

Enfim, fiz as pazes com Deus…

Tags:

7 Respostas to “Fazendo as pazes com Deus”

  1. andrea Says:

    kkkk vc como freira!

    ola irmã carol , carola!

    vc nunca me contou esse babados
    precisamos tricotar. bj e sua bençao irmã

  2. Carol Says:

    É para logo amiga,
    Beijos,

  3. ROSANA Says:

    Realmente não conheço esta sua amiga que postou esta observação sobre: vc freira? Mas tô com ela. Nem por um instante imagino vc assim.
    Mas que bom que vê Deus desta maneira, assim pode estar com ele em todos os lugares e em todos os momentos.
    bjs.

  4. Norberto Carlos Weinlich Says:

    Olá Carol, tudo bem? Partilho da sua forma de religare com Deus! Deus criou as religiões como instrumento para chegar a Ele. As pessoas vão aonde se sentem bem e se identificam. Perdi amigos(as) devido à religião, pois ao invés de religar, afastam uns dos outros, cada qual querendo provar a sua verdade! Se um dia chegar a Conhecê-lo, minha pergunta será: Quando o Sr. surgiu?

    • Carol Says:

      Norberto,
      Concordo que algumas pessoas, que não entendem a profundidade e seriedade das relações afetivas, acabam por isolar quem não pensa como elas. Conviver com as diferenças é a grande prática religiosa da vida. A palavra sagrada do milênio é tolerância.
      Abraço,

  5. J.CARLOS VIEIRA Says:

    Conhecesse a piedosa freira astrologia, não teria induzido nossa querida bloguista (ou blogueira?), a ingressar numa clausura, pois é marcante característica desse signo a insubmissão ; a impaciência de participar de liturgias repetitivas, mesmo conhecendo a “recomendação” de S.Agostinho ao povo abatido, para praticar hinos,cânticos e assim não se definhar de tédio; ser inata perquiridora ansiando experenciar as mais diversas tradições religiosas, como propugna a transdisciplinariedade e intuitivamente sentir que o “religare” é vazio destituído da espiritualidade. A ela adequa-se o verso do “Wu-Wei” : “Ao chegar à borda da floresta,o riacho vem maior,quase um rio. Adulto,já não corre,salta e borbulha como fazia quando jovem.Agora, move-se com a tranquilidade de quem sabe para onde vai ” Caminhe na Luz

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: