Um coração grávido

 

Um dia acordei com uma sensação muito esquisita. Tudo parecia igual, mas alguma coisa estava fora da normalidade. As ações cotidianas se mantiveram, porém, as “cores” tinham matizes diferentes. Demorei para entender o que estava acontecendo. No fundo, lá, onde os instintos e intuições ainda se encontram intactos, a resposta já se encontrava clara: meu coração estava grávido!!!!!

Sem compreender com exatidão e lógica o processo interno psíquico, uma concepção havia ocorrido. Quando e de quê maneira tento até hoje responder. O fato é que a idéia/sentimento se casou e copulou com o ímpeto/ação. Desta insólita relação erótica, nasceu uma criança: a certeza de que o exercício da maternidade havia chegado para mim.

Passei então a ter enjôos e tonturas. As coisas práticas do dia a dia perderam o foco. O esquecimento e a distração se tornaram parte da rotina. Fiquei muito mais emotiva e os afazeres profissionais perderam o brilho. Passei a fazer desenhos de concepções, órgãos femininos, uniões, encontros, mandalas…A esculpir mulheres grávidas em argila.

No meio da tarde, resolvia tomar um picolé e saia da redação sem falar para ninguém. Dava uma volta, olhando o movimento na rua e depois retomava meu posto.

Comecei a me interessar por coisas bobas e importantes, como o percurso de uma formiga, ou o balançar das folhas da árvore. A fazer perguntas sem respostas coerentes. A apenas acreditar. A apenas ter fé na vida e nos acontecimentos.

À noite, não dormia. Tinha crises de ansiedade, ouvindo ao longe uma vozinha que me chamava: “mãe, mãe…já existo, venha me buscar…”. Dias de angústia, dias de dúvidas, dias de medo, mas também dias de catarses, de sonhos e de desejos.

Pintei uma pequena tela. Foi o primeiro objeto para o quarto do meu filho. Nele, um ramo de cerejeira e uma prece, pedindo proteção para ele e força e coragem para mim. Fui ouvida.

Hoje eu compreendo perfeitamente porque os filhos adotivos são chamados de filhos do coração. Porque de fato, nascem de um coração, de um coração grávido de amor.

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8 Respostas to “Um coração grávido”

  1. Rui Tomás Says:

    Boa noite minha linda e querida Carol !
    É um exercicio prazeroso ler seus textos.
    Parabéns amiga !!!

  2. Paulo Corrêa Neto Says:

    Carol
    Isto que voce escreveu eu posso chamar de milagre. Todo milagre é proveniente de um ato de amor. Tudo o que voce descreveu é um ato de Amor.
    Beijos e Abraços
    Paulo

  3. andrea Says:

    acredito q quando queremos uma criança em nossas vidas , mesmo nao sabendo exatamente o q isso significa , existe uma conspiraçao do universo para q tudo seja feito para espera-lo.

  4. José Carlos Vieira Says:

    Carol : muito belo, poético, tocante o mote e texto que lhe deu forma, na linha da neurociência ao descobrir ser o coração a fonte geradora da neurodinâmica da emoção associada ao hipotálamo. Aprendemos ser o coração o mais confiável de nossos músculos e permanece ligado à vida até seu último instante,quando todo o sistema faliu.A tecnociência de nova geração fez essa descoberta mas, no entanto,como assinalara Platão : “o novo é tudo aquilo que foi esquecido” por isso não seria absurdo afirmar que Salomão a conhecia ao postular acima de qualquer coisa “um coração que ouvisse” . Por isso leio “coração grávido” não como mera metáfora mas contendo presságio de evento numinoso destinado à eternidade. Beijos

  5. Antonio Carlos Says:

    oi minha querida Carol.
    é tão verdadeiro que se torna realidade e realiza as pessoas de fé.
    bjs. do amigo.

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