Vivência familiar: berço da afetividade

Começo o ano muito bem: acabo de ler o livro “Diálogos sobre a afetividade”, do psicoterapeuta Ivan Capelatto. O considero um dos profissionais da área mais corajosos da atualidade. Defende suas posições sem medo de ser feliz e enfrentar contrapontos tão radicais quantos os seus. A leitura deveria ser obrigatória para todos, educadores e formadores de seres humanos (ou seja, todos nós…).

Gosto da definição de Capelatto sobre a família: “Família é nosso lugar. Lugar de afetividade, de cuidado, de limite e de PRINCIPALMENTE  (comentário meu) conflito. Lugar de amar, brigar, gritar, reparar, pedir desculpas, beijar, abraçar. Lugar para criar raízes e asas.”

Coisa mais maravilhosa de se dizer. Família não é perfeita e nem pode viver em harmonia permanentemente. É no caos, é nos embates, é nos confrontos que crescemos e aprendemos. É mostrando a nossa sombra, o nosso pior lado, para as pessoas que nos amam que conseguimos nos ver refletidos em suas posturas.

São os nossos familiares que nos conhecem com maior profundidade. Sabem onde está e como acertar nossa mais terríveis feridas. Aquelas que acreditamos, ingenuamente, que escondemos tão bem…

Outra idéia que aposto e acredito é a de que na relação de irmão, ninguém mete a colher. Muito menos os pais. A competição exacerbada nasce desta interferência. Ele diz no livro “Peço aos pais que se escondam no banheiro até acabar a briga. Depois, chamem o pronto-socorro. Na segunda vez, não vai acontecer.” É preciso muita coragem para se colocar desta maneira contundente.

Ele continua: “Lembremos que não é só o grandão que bate no pequeno. Se prestarmos bem a atenção, vamos ver que o pequeno provoca, porque sabe que alguém vai interferir. Então, os pais podem chamar os filhos e dizer que, dali em diante, não vão mais interferir nas brigas e eles que se virem. O pequeno também vai perceber que vai ter de se controlar em relação ao irmão mais velho.”

Gosto mais ainda quando Ivan diz que NÃO de pai e mãe não exige explicação. Até porque, quando uma criança ou adolescente querem alguma coisa, você pode dar a explicação que quiser que não vai convencê-los. Então, é por isso que somos chamados de ADULTOS e eles, de CRIANÇA ou ADOLESCENTE. Palavras sábias: “A palavra dita tem que ser realizada. Isso cria segurança e cria limite, e o limite cria a personalidade sadia.”

É visível a incapacidade de muitos pais de “suportarem”, depois de um longo dia de trabalho, a frustração de seus filhos com os limites impostos. Escutei de uma amiga: “Quando chego em casa, estou tão exausta, que para não ter que ouvir criança berrar e chorar, acabo permitindo tudo”.

Olha, quem sou eu para julgar a situação, mas a questão é: nossa principal missão e prioridade não é trabalhar e ganhar dinheiro. É formar e educar um ser humano para a vida. Então, sinto, choro e lamento, mas respire 50 vezes, diga não e aguente o choro, o se jogar no chão, os “odeio você!” e se mantenha firme. Acredite, a situação melhora na terceira ou quarta vez e não chega à décima.

Venho de uma família grande, seis filhos, e com uma mãe extremamente passiva e um pai autoritário e violento. Sua autoridade era exercida sob o medo. Não é o ideal, mas é inegável que ele conseguiu nos passar alguns valores importantes, mesmo que sob botas militares.

Posso e decido não agir dessa maneira com meu filho. É difícil. Tem hora que dá vontade de chacoalhar ele e jogar na parede.

Sabe o que me breca nesses momentos? A lembrança de uma big surra que levei da minha avó, uma pessoa que amava muito. Tinha na época 9 anos e me peguei a tapas com uma das minhas irmãs. Depois de apanhar, muito, com chinelo, fiquei ali, debaixo do chuveiro quente, toda vermelha das palmadas e tremendo. O que mais me doía nessa hora não eram os ferimentos, mas a traição. Como minha avó podia ter traído meu amor? Nada justificava aquela raiva. Fiquei estarrecida com a sua reação… Demorei muitos anos para perdoá-la e, de verdade, me pergunto se realmente consegui.

Quando meu pai me batia, isso já era esperado. Ele bebia e era agressivo, portanto, eu esperava essa reação. Mas ela? Nunca… Para os que se questionam onde minha mãe estava essa hora, respondo: internada, aqui em Campinas, no antigo Bierrenbach, com depressão profunda.

Peço a Deus que me ajude para que jamais veja no olhar do meu filho uma reação igual a minha. Ele sequer sabe distinguir que é uma pessoa diferente de mim. Tem 1,5 ano e acredita ser uma extensão da mãe, um pedaço que anda (pensando bem, ele é mesmo um pedaço de mim que anda por aí). Está totalmente entregue a mim e confiante no meu amor. Termino citando Capelatto: “Cuidar é uma forma de tornar o outro importante. Todos nós precisamos de cuidado. Os pais precisam sempre se lembrar de que os filhos não pedem para nascer. Eles são desejados pelos pais e, quando um pai deseja um filho, tem que assumi-lo pelo resto da vida. Pai não tem sossego, pai não tem férias, mas pai tem felicidade. Talvez não tenha muito prazer, mas tem felicidade. Qual é a felicidade de um pai? Imaginar que construiu um bom ser humano.”

Muito obrigada Ivan…

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9 Respostas to “Vivência familiar: berço da afetividade”

  1. Norberto Carlos Weinlich Says:

    Olá Carol, quem lhe escre é Norberto, seu parceiro do livro “O Despertar da Consciência Ética”. Parabéns pela sua iniciativa rm suas reflexões para todos nós. Eu e a Drica precisáriamos conversar contigo pessoalmente.

  2. ROSANA Says:

    Oi, Carol!
    Adorei esta tema, pois acredito que o melhor do relacionamento não é aquele que une pessoas perfeitas, mas aquele onde cada um aprende a conviver com os defeitos do outro, e admirar suas qualidades.

    bjs.

  3. andrea Says:

    ate que enfim!

    aproveitei e tb li esse livro do ivan + “comer , rezar , amar ”

    vc tem razao , esse livro deveria ser leitura obrigatoria e seu eu tivesse lido ele em 1994 teria feito muita diferença.

  4. Nilva Says:

    Carol querida, ainda não li o livro, mas se você diz que é ótimo eu nem questiono…..vou ler.
    Parabéns por mais uma excelente mensagem.

  5. julia virginina de moura Says:

    Excelente pesquisador do comportamento humano. Parabéns !

    • Carol Says:

      Júlia,
      Seja bem-vinda a este espaço virtual. Gosto muito de assuntos ligados à pedagogia, educação. Sempre que sentir vontade, escreva e enriqueça esse espaço com seu conhecimento.Obrigada pela visita,
      Abraço,
      CArol.

  6. julia virginina de moura Says:

    Carol, Ivan Capelatto deve ser um leitura necessária e obrigatoria não só aos pais como aos educadores, para que seja efetivada nas escolas a pedahttp://impactodapedagogiamoderna.blogspot.com/gogia do afeto.

  7. julia virginina de moura Says:

    Carol, Ivan Capelatto deve ser um leitura necessária e obrigatoria não só aos pais como aos educadores, para que seja efetivada nas escolas a pedagogia do afeto.

    excelente suas reflexões

    pedahttp://impactodapedagogiamoderna.blogspot.com/

    • Carol Says:

      Concordo plenamente. “Um sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só. Mas um sonho que se sonha junto é realidade…”.
      Abraço,
      Carol.

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