O lar de cada um

 

É possível ler, com uma certa facilidade, uma pessoa, somente entrando e observando sua casa, o seu lar. Símbolo do que protege e acolhe, a construção externa nada mais é do que um reflexo de nossa própria construção interna. Mesmo que ela seja alugada, mesmo que ela tenha um projeto de decoração profissional, mesmo que, aparentemente, não tenhamos escolhido nada sobre ela, imprimimos nos detalhes, objetos, móveis e símbolos toda a nossa trajetória de vida e dicas sobre o nosso caráter, desejos, sonhos, frustrações, pequenas mensagens sobre a nossa alma. Não é sem motivo que as casas aparecem com frequência em nossos sonhos, nos revelando muitas vezes rachaduras, goteiras, falta de teto, outras, de chão. Algumas sem uma janela sequer, outras sem porta… Sotãos, esconderijos, passagens secretas, armários sombrios…O tema se repete nas noites, com milhares de detalhes que nos mandam notícias sobre o que está acontecendo com a nossa “casa”.

Muitos já estudaram o assunto. O portão e as portas, por exemplo, são nossas estruturas de passagem (entrada de saída), de contatto com o mundo externo. Cabe perguntar: como fazemos a seleção do que entra e do que sai? Conheço uma residência, que embora tenha cadeado e correntes nas portas e portão, eles vivem abertos. Isso é um convite à invasão. Todo mundo entra nessa casa, abre a geladeira, senta na cadeira, liga a TV, sem pedir licença. Pra quê pedir licença? Está tudo escancarado… disponível…E assim também é com a dona da casa: todo mundo entra na sua vida, se mete, dá palpite, resolve coisas, e ela lá, incapaz de “trancar” o portão e as portas. Incapaz de selecionar, permitir ou proibir entradas e saídas. Incapaz de dizer não…

Assim como em uma casa sem proteção, a moradora é muitas vezes “roubada” ou “furtada” e não percebe o que lhe é tirado. Na sua visão, confunde extroversão e generosidade com falta de limites e bandalheira.

Outro ambiente social e de seleção é a sala de estarl. É ela quem recepciona nossos visitantes. Como está a nossa sala? Comos estão os nossos contatos sociais? Como estamos cuidando e lidando com eles? O ambiente é acolhedor ou é frio e formal demais? Imprime nossas características de apresentação? É iluminada? É arejada? (deixamos que o ar circule sobre nossos sentidos?) É limpa? É entulhada? Imagine só… mil detalhes que muitas vezes nos escapam… mas que estão lá e dizem tudo.

O banheiro, ambiente que exprime como cuidamos da nossa intimidade corporal e sexual, é um dos mais reveladores. Nele também se aplicam várias perguntas sobre ordem, coerência, limpeza, entre outras. Já vi pessoas lavarem de um tudo na pia onde escovam os dentes e lavam o rosto! Outros, como bem diz o Dr. Bactéria (da TV), gostam de dizer “adeus” ao cocô e deixam a tampa da privada aberta enquanto apertam a descarga. Gente, na boa, contamina tudo!!!!

Também já vi coisas do arco da velha guardadas nos armários do banheiro, revelando a falta de coerência do morador e a dificuldade em saber “onde” guardar as suas coisas. Podem ser pessoas que “excretam”, “vomitam” ou se “expõem” em locais totalmente inadequados, que carecem de intimidade e privacidade para se expressarem com alguma segurança e acolhimento.

A cozinha é o laboratório da alquimia e da transformação dos alimentos. Como está a nossa cozinha? Será que temos usados seus recursos ilimitados e mágicos de transmutação de sentimentos, emoções, ou ela está às moscas, sem atividade? Geralmente, a cozinha é o coração de uma casa e também da alma. As pessoas adoram se reunir nela, em busca de aconchego e afetividade. Afeto que se destila na preparação das refeições e que se recebe no alimento transmutado, como no filme mexicano “Como Água para Chocolate”. Um laboratório para experiências doces, amargas, salgadas, azedas… Um espaço encantado que transforma o duro em mole, o poroso em crocante, o cru em cozido, o pão em amor…

Por último e não menos importante, nosso quarto. Neste templo sagrado guardamos nossos amores, saudades, recordações, vivências. Nele nos entregamos ao sono, nos abandonamos ao inconsciente. Ali estamos vulneráveis e nus. Algumas vezes, até regredidos.

O nosso lado materno (todos temos, inclusive os homens) estão impressos pela casa toda, na maneira como organizamos as coisas (objetos, móveis), na limpeza, no cuidado. A maternagem é o nosso potencial de cuidar do bem-estar do outro.

Bem esse texto já está enorme. Volto ao tema em outra ocasião.

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6 Respostas to “O lar de cada um”

  1. andrea Says:

    verdade.

  2. Fernanda Martins Says:

    Parabéns, tudo verdadeiro…

  3. Renan Says:

    Legal Carol. O tema é bem interessante. Vale outro post sobre o assunto.

  4. Nilva Says:

    Que orgulho dessa amiga. Parabéns Carol.

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