Efeito borboleta

O abismo de ‘inteligência’ que nos separa dos animais irracionais não foi suficiente para evitar as tragédias das tsunamis (onda do porto, em japonês) que atingiram a Ásia e mataram milhares de pessoas em 2005 e voltaram a matar esse ano. Ele apenas ressaltou a nossa real ignorância e nos mostrou o quanto estamos afastados dos nossos instintos primários e naturais de sobrevivência, esses sim inteligentes. Em meio a mais alta tecnologia disponível, a simples observação da natureza e do comportamento dos animais poderia ter poupado milhares de vidas.

Para os que duvidam, não foram poucos os testemunhos sobre o comportamento atípico dos animais, como os elefantes domesticados, que romperam, em 2005, suas correntes e buscaram um lugar mais alto, minutos antes das tsunamis atingirem o continente asiático pela primeira vez.

Formigas, aranhas e cobras em louco compasso de fuga, e pássaros com trinados estridentes anunciavam a tragédia. Tribos primitivas, como as que habitam as ilhas de Andaman e Nicobar, cuja origem datam do alto paleolítico e do mesolítico, com antiguidade entre 20 mil e 60 mil, ouviram a voz da Mãe Natureza e adentraram nas florestas, no interior das ilhas, atrás dos animais, apenas pela intuição do perigo. Eles se salvaram.

Às vezes tenho a desoladora e triste impressão de que somos como uma doença virulenta para o nosso planeta, que é um ‘organismo vivo’. Dominamos (ou contaminamos?) os territórios acima dos mares, e mais recentemente, nas profundezas dos oceanos com o lixo atômico (e olhe que não estou contando com o lixo espacial…), e sempre que passamos de um determinado ponto de equilíbrio para um mínimo de equilíbrio, a natureza prontamente nos responde. Reage organicamente e nos elimina.

Na biologia, aprendemos que a homeostase (homeo = igual; stasis = ficar parado) é uma condição na qual o meio interno do corpo humano permanece dentro de certos limites fisiológicos. Como meio interno me refiro ao fluido entre as células, chamado de líquido intersticial (intercelular).

Um organismo é dito em homeostase quando seu meio interno contém a concentração apropriada de substâncias químicas, mantém a temperatura e a pressão adequadas. Quando a homeostase é perturbada, pode resultar em doença. Se os fluidos corporais não forem trazidos de volta à homeostase, pode ocorrer a morte. Então, trata-se de um processo que privilegia a vida do organismo como um todo. Talvez as tsunamis tenham sido parte do processo de homeostase da Mãe Terra. A pachamama, como dizem os peruanos.

Também me intriga entender por que tragédias dessa magnitude, com um número de mortos gigantesco acontecem em datas como Natal, Ano Novo (que é uma confraternização universal) e Páscoa. A passagem do ano, por exemplo, é das mais significativas, carregada de esperança e renovação. Muitas coisas morrem para que outras possam nascer. É o ciclo da vida-morte-vida. Talvez a concentração em excesso da energia e intenções humanas para o mesmo evento tenha proporções iguais às de dezenas de bombas atômicas juntas. Vai saber…?!

Em 1979, Edward Lorenz, publicou, no jornal dos meteorologistas, um artigo com o seguinte título: “Predictability: Does a flap of a butterfly’s wings in Brazil set off a tornado in Texas“. O título pegou e ficou conhecido por Efeito Borboleta, ou Butterfly Effect. Ele disse no seu artigo que algo tão insignificante como o bater de asas duma borboleta no Brasil poderia provocar um tornado no Texas. Sem saber, esse metereologista discursou sobre a teoria do caos e provou que até mesmo o caos tem sua própria lógica e ordem.

Me lembro da cena de um filme norte-americano, o qual no lembro o título, em que o protagonista morre e é levado a rever sua vida. Em uma das cenas, aparece, muito mau humorado e irritado, entrando em uma padaria. A atendente, alegre, pergunta o que deseja e ele responde grosseiramente, sem motivo algum e vai embora. O então agora espírito continua na cena após a “sua saída”. A atendente, contaminada pelo seu mau humor e irritação, imediatamente grita com o namorado que havia acabado de chegar de moto. Ele fica surpreso e também se contamina. Saí aos gritos e pega a moto. O resultado é previsível: sofre um acidente e morre.

A idéia do filme é mostrar como somos como uma pedra que cai em um lago e cria ondas de energia e intenções ao nosso redor, uma espécie de “efeito borboleta” porque, de fato, não sabemos no que exatamente vai resultar os nossos atos. Somos todos responsáveis…

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3 Respostas to “Efeito borboleta”

  1. andrea Says:

    efeito domino em tudo. estamos conectados sem ter a minima ciencia disso.

  2. Rui Motta Says:

    A nossa relação com a Terra é muito intensa. Permita lembrar um poema qe fiz há tempos: Terra

    Uma bola imensa, enorme
    Como uma mulher excitada
    Que se mexe toda e devagar,
    Buscando o prazer em cada célula
    Que somos nós

    Nós nos mexemos, agitamos
    Para que o sangue dela ferva
    e exploda num orgasmo infinito
    como o Sol

  3. Carol Says:

    Lindo poema Rui… muito inspirado…

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