Comprometimento e Fé

 

Fé e comprometimento

 

Há alguns anos, depois de assistir a uma palestra do empresário Ricardo Semler, me convenci de que precisamos refletir, questionar e discutir com intensidade a atuação dos gerenciadores nas corporações, cujas mentalidades, muitas vezes, nos remetem aos períodos feudal e escravagista da história..

Opiniões à parte, Ricardo Semler tem, sem dúvida, o seu mérito. Atualmente, o ex-executivo está envolvido com a preservação e defesa da Amazônia, mas quando atuava na presidência da Semco, foi alçado ao posto de “guru” após o lançamento do seu livro Virando a Próprio Mesa, acredite você, lançado no final da década de 80. Suas idéias eram tão arrojadas e liberais, que ele, até hoje, continua a ser chamado para expô-las em eventos corporativos, e ainda é chamado de “utópico”, como ouvi em comentários posteriores à sua apresentação.

Iniciativas como a de deixar que seus próprios funcionários definissem seus salários (por meio da meritocracia), ou escolhessem qual a cor que gostariam de pintar as paredes do ambiente de trabalho o fizeram famoso no mundo dos negócios. Com a idéia da democracia na cabeça, foi além e fundou, em São Paulo, a escola Lumiar. “É preciso desprogramar as pessoas que vêm trabalhar nas empresas. Que passaram a vida toda aprendendo a ficar quietas, a sentar, a levantar e a ir ao banheiro com permissão. São condicionadas a seguir instruções em vez de pensar livremente”, justificou na palestra.

A Lumiar, adepta da pedagogia libertária, tem um sistema de ensino inspirado nos princípios de liberdade e democracia do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau. Em 2002, Semler valeu-se de um casarão da década de 30, nos arredores da Avenida Paulista, em São Paulo, para montar a instituição. As escolas libertárias têm em comum a participação dos estudantes na gestão, a ausência de hierarquia, de provas e de boletins e o livre aprendizado. Nelas, cabe ao professor apenas guiar as crianças na descoberta dos próprios interesses.

Existem mais de 200 escolas no mundo seguindo essa linha. A mais famosa é a Summerhill, fundada na Inglaterra, em 1921, pelo escocês Alexander Neill. “Para nós, era fundamental que libertássemos as crianças da estupidez do sistema escolar convencional, mas não da magia do conhecimento.”

Só por essa iniciativa Semler já tem o meu mais profundo respeito e gratidão. Mudanças precisam acontecer mais cedo e na origem, de preferência, no ambiente familiar, passando pela educação formal e se estendendo a todas as esferas da vida. Na Lumiar, o poder de decisão é dado aos alunos, que escolhem de uniformes à grade curricular. Bárbaro!

Ao fim da explanação, o empresário disse duas palavras resumiam sua postura de vida e portanto, sua forma de gerir os negócios: comprometimento e fé. Seu tema foi a gestão do futuro, e a palavra gestão me lembra gerir, gestação, geração.

Semler me passou uma atitude de comprometimento não apenas profissional, mas sobretudo social, familiar e humano. A palavra comprometimento vem do latim compromittere e significa obrigar por compromisso; dar como garantia; empenhar; tomar compromisso; obrigar-se; assumir responsabilidades. É fácil perceber nas iniciativas de trabalho do empresário e de vida esse comprometimento.

Muitos profissionais vivem o seu dia-a-dia como se estivessem no mundo a passeio. Isso é um engodo. Estamos aqui para muito mais do que simplesmente buscar conforto e qualidade de vida. Assim como nas empresas e companhias, também temos nossa missão, pessoal e única no mundo, e a grande questão é descobrir qual é e buscar cumpri-la dentro do possível. Não basta ser pai, tem que participar, já dizia o famoso slogan de um comercial, cuja filosofia se aplica bem ao que quero dizer: não basta produzirmos é preciso fazer a diferença na vida das pessoas com as quais nos relacionamos. É preciso realmente participar!

O outro sentimento que transpassa pela personalidade e atitude de Semler é a Fé no que há de melhor no ser humano. Exemplo? Apesar de todas as opiniões contrárias, o empresário, quando na presidência da Semco, suspendeu as revistas que eram realizadas nos funcionários que trabalhavam na fábrica, sob a alegação de que não é possível afirmar ao operário que ele é “visto pela empresa como um colaborador da casa, um membro da família que ali trabalha” e tratá-lo, na saída do expediente como se fosse um ladrão.

Quando questionado se achava que agora não aconteciam mais roubos, ele respondeu que possivelmente alguns, mas que no saldo geral, as vantagens em se apostar na honestidade e dignidade das pessoas haviam se mostrado bem mais lucrativas, importantes e comprometidas.

Ele está correto. Se sairmos pela premissa negativa do caráter humano, pela sombra de cada um de nós, certamente colheremos os frutos que comprovarão a idéia inicial. Se por outro lado apostarmos no lado luminoso e criativo das pessoas e dermos a elas a possbilidade da escolha, teremos, com certeza, agradáveis surpresas. Claro que uma iniciativa como essa pressupõe riscos, mas viver já é o maior risco e nós o assumimos quando nascemos.

As duas palavras-chave da gestão do futuro são fáceis de teorizar. O problema é a aplicação delas. Conheço a história de um ser iluminado que fez do comprometimento e da fé missões de vida e por isso morreu crucificado. Não é preciso ir tão longe como ele, apenas tentar levantar todos os dias comprometido a ter fé na natureza humana e construir um tempo presente melhor.

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2 Respostas to “Comprometimento e Fé”

  1. Bocatto Says:

    Estava eu começando a carreira de consultor, no exato instante que Ricardo lançava seu livro (1988). Esse livro mudou muito os pensares dos capitães de indústrias daquele tempo.
    Pena que, acostumados que estavam em ganhar mais na ciranda financeira, se comparado ao ganhar com o COMPROMETIMENTO ao trabalho, muitos acharam o livro algo “teórico” e pouco aplicável, não houve a FÉ naquele tipo de exemplo.
    Foi uma pena!
    Com a queda do muro das facilidades financeiras, hoje, o livro é atualíssimo.
    Espero que muitos jovens empresários tenham acesso a ambos (livro e Ricardo)
    Belo artigo cara amiga.

  2. Selma Albuquerque Says:

    Vou ler o livro. Fiquei curiosa. Depois de ler, farei meu comentário.
    Selma Albuquerque
    TE-PI

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