A ética do ser

  

 etica

A ética é um processo de construção do humano, altamente dinâmico, que exige flexibilidade, consciência, maturidade e, principalmente, humildade”

As questões que envolvem a palavra ética e o que ela significa e contém me perseguiram durante toda a vida. Usado largamente como um “baluarte” de tudo o que é definido socialmente como boa moralidade, o termo foi, durante muito tempo, uma verdadeira pedra no meu sapato.

Meu primeiro contato com o assunto surgiu quando cursava a universidade e veio apresentado diretamente relacionado à profissão que escolhi: a de jornalista. Que me perdoem meus companheiros de categoria, mas jamais tive paciência para ler o chamado Código de Ética do Jornalismo. Algo me diz que aquilo não passa de regras rígidas e sem consistência efetiva para a prática diária.

O assunto voltou à baila anos depois, quando resolvi buscar na psicoterapia e no processo de autoconhecimento algumas respostas para meus conflitos. Numa sessão, minha analista me questionou sobre quando eu iria seguir a minha própria ética. Foi um choque. E eu lá sabia que tinha alguma ética definida por mim mesma? Pensei que “isso” fosse uma espécie de “convenção social” pré-definida e que deveria apenas obedecê-la, independentemente do que isso significasse.

Depois do susto, busquei entrar mais fundo no assunto. Investiguei os conceitos sobre moralidade, honra, dignidade, valores e principalmente a questão do maniqueísmo na sociedade e nas relações, o que incluo aí, a esfera profissional.

Embora seja um assunto dos mais complexos, alguns pensadores me apontaram algumas possibilidades interessantes. Enfim, alguma luz na escuridão total.

De acordo com C. Cohen & M. Segre, em seu livro sobre Bioética, a ética está representada em nossa sociedade por um conjunto de normas que regulamentam o comportamento de um grupo particular de pessoas, como, por exemplo, advogados, médicos, psicólogos, psicanalistas, jornalistas etc., cada grupo criando seu próprio código de ética, normatizando suas ações específicas.

Para esses dois pensadores, esta interpretação de ética não se diferencia do conceito de moral, moralidade, que pressupõe três características: 1) seus valores não são questionados; 2) são impostos e 3) a desobediência às regras acarreta um castigo. Portanto, para eles, o conceito atual de ética é moralista, pois se confunde com a própria moral.

P.Weil, outro pensador moderno, aponta pelo menos três fatores que fazem com que a ética se manifeste de forma moralista: 1) a projeção, que consiste em descarregar no outro nossas próprias negatividades (por exemplo, acreditar que apenas o outro é fofoqueiro – eu não, eu ‘nunca gostei de fofoca’ só ele, o outro é que gosta); 2) imitar as classificações maniqueístas e rígidas de conduta (por exemplo, acreditar que mentir é uma conduta má, independente da situação) e ainda 3) a busca incessante por um bode expiatório nas situações. Qualquer semelhança com o nosso comportamento não é mera coincidência.

Weil apresenta uma alternativa para a ética moralista: a ética espontânea, que está fundamentada na sabedoria, liberdade de escolha e responsabilidade, relativismo entre o certo e o errado, apresentada como um sistema aberto (ainda e sempre em construção) e baseada em valores universais que transcendem o indivíduo, a família, a nação e até mesmo o gênero humano, seguindo a consciência universal e com características libertadoras. É lindo e ao mesmo tempo contém algo de utópico.

Cohen & Sagre, por sua vez, consideram que a eticidade (qualidade de ser ético) está na percepção dos conflitos da vida psíquica (emoção x razão) e na condição de nos posicionarmos, de forma coerente, face a esses conflitos. Para eles, a pessoa não nasce ética. A estruturação vai ocorrendo com o desenvolvimento, com a humanização. O ser ético deve ter percepção do conflito entre o que o coração diz e o que a cabeça pensa e ter autonomia e coerência para tomar uma decisão que considere adequada.

Os pensadores ainda complementam que enquanto a moral é imposta, a ética é percebida, sendo apreendida pelo indivíduo e vinda de seu interior. Para uma pessoa ser considerada ética deve possuir uma personalidade bem integrada, ter maturidade emocional que lhe permita lidar com as emoções conflitantes, deve ter força de caráter, um equilíbrio de vida interior e um bom grau de adaptação à realidade do mundo. Ufa, será que conheço alguém realmente ético? !

Em um início de milênio marcado por tanto desrespeito à sacralidade da vida e avanços tecnológicos descontrolados, é essencial à nossa sobrevivência a busca por essa postura tão sonhada e desejada. Parafraseando o professor Edson Garcia Soares: “O resgate da dignidade humana só poderá ser conseguido com a busca dos valores humanos essenciais através de uma atitude ética”.

Quando se fala em dignidade, a palavra honra se levanta. E pensando nela, a música de Gonzaguinha, Guerreiro Menino, retrata tão magnificamente a angústia e a tragédia de quem perde a honra: “Um homem se humilha se castram seu sonho/ Seu sonho é sua vida e a vida é o trabalho/ E sem o seu trabalho o homem não tem honra, / e sem a sua honra se morre, se mata/ Não dá pra ser feliz, não dá pra ser feliz”.

 

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2 Respostas to “A ética do ser”

  1. andrea Says:

    q bom ter uma amiga inteligente q pega as coisas soltas no ar e depois as coloca bem escrito aqui para q eu possa entender um pouco da vida.

    ler seu blog e ver o mapa da mina , os caminhos ate ele , as montanhas , os rios , o deserto , as flores e os animais.
    é a uniao do q fica solto nas palavras bem colocadas.

  2. Carol Says:

    Andrea,
    Obrigada pelas suas palavras de incentivo. Tento, de verdade, escrever de forma simples e direta, para ser compreendida.
    Beijão para você,

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