Ritual de morte-vida-morte

  a morte 2

Não quero deixar passar o Dia de Finados sem registrar a minha impressão de como lidamos mal, muito mal, com a morte e com os rituais que a envolvem. (Escrevi o texto ontem, dia 2, mas só hoje consegui postar…)

Antes de passar por um processo de sensibilização e humanização, achava velório e enterro um saco!! Não ia nem que me pagasse e nem se fosse alguma pessoa significativa. Usava um desculpa do tipo: “Prefiro me lembrar de fulano como quando estava vivo”. Também julgava e criticava as pessoas que não se controlavam e “davam escândalos”, como eu definia a situação, quando sabiam da morte de uma pessoa amada.

Mas hoje, graças a Deus, tudo mudou. Acho que quando de perde alguém amado, ficar horas e horas uivando como um animal ferido, à base de fortes calmantes e sendo amparado por pessoas com vínculos significativos é o mínimo que espero e desejo pra mim e para quem passa por essa experiência.

Talvez, exatamente porque valorizo hoje os rituais que envolvem a morte e o direito genuíno da catarse, seja ela individual ou familiar, que tenho o desejo tão grande de assistir ao filme japonês “A Partida”. Pelo que pude vislumbrar pelo trailer que assisti no You Tube, a película resgata justamente a beleza estética, emocional e real de todos os ritos que envolvem a morte de um ser humano.

O roteiro, basicamente, fala sobre um músico de orquestra que perde o emprego e é obrigado a voltar a sua terra natal. Lá, aceita uma vaga, imaginando que se trata de uma agência de turismo, pois entende que irá trabalhar com “partidas”. Descobre então que se trata de uma casa funerária e que irá conduzir rituais japoneses milenares para os mortos e suas famílias. O que era uma situação insustentável passa a ter um valor r significados tão grandes para esse músico que ele irá enfrentar preconceitos sociais para defender o valor de sua função. O filme é belíssimo, e segundo quem já assistiu, muito emocionante. Principalmente porque os orientais lidam de maneira diferente com a morte.

Quando penso em velório, enterro, acolhimento, penso em uma canção que fala sobre o “tempo da delicadeza”. Esse é o tempo da delicadeza.

Quando recebemos a notícia sobre a morte de alguém, íntimo ou mais ou menos íntimo, querido, significativo, saímos de uma dimensão e passamos para outra. Ficamos o dia inteiro com aquela sensação de que tudo não passa de uma mentira. Aquilo não é realidade. Ficamos anestesiados. Tentando de todas a maneiras nos defendermos da idéia de que somos finitos e também iremos morrer, assim como aquela pessoa.

Ficamos totalmente paralisados de medo quando nos aproximamos da dor da perda e esquecemos que morremos todos os dias. Quando dormimos, quando acordamos, quando decidimos as coisas na vida. Quando mudamos. Quando crescemos e a amadurecemos. Passamos a vida nascendo e morrendo sem nos darmos conta do ciclo vida-morte-vida que rege a natureza. Sem qualquer ritual mínimo. Algumas pessoas sequer celebram, de qualquer maneira, seu próprio aniversário, quando nascemos, mas também morremos a cada ciclo de um ano. Que pena! Mesmo a mais simples vela, ou mesmo um brinde, seriam suficientes para ritualizar a passagem de tempo.

Quero terminar esse texto, me lembrando do velório do meu pai, que morreu aos 51 anos, de enfarto fulminante, deixando seis filhos e mulher. Quando volto à sala da casa da minha avó, onde foi velado o corpo durante um dia e uma noite como antigamente de fazia, me lembro da minha recusa em participar do ritual e mergulhar na dor que sentia. Minha avó, por outro lado, gritou, chorou, clamou aos deuses, maldisse a vida e declarou que jamais seria feliz novamente.

Eu, uma menina de 19 anos, achei tudo démodé demais, com cores fortes e exageradas. Hoje, percebo como fui cruel comigo mesma ao não me permitir viver a catarse da dor da perda do meu pai. Anos depois, em analise, pude reviver um pouco daquela dor tão profunda, numa experiência com sabor de atraso.

É uma penas que meu esteja enterrado em Curitiba, tão longe. Se estivesse aqui, hoje, com certeza iria limpar e levar flores em seu túmulo. Iria com Davi e diria: “Filho, aqui jaz o seu vovô. Ele foi uma pessoa incrível e eu o amei muito”.

Por ora, me contento em acender uma vela para paz da sua alma e da minha também.

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2 Respostas to “Ritual de morte-vida-morte”

  1. andrea Says:

    talvez fosse uma maneira de se defender da dor , do sofrimento q no fundo vc sentia , mas , nao sabia .

    a recusa de sentir vem do medo do desconhecido com todas as letras.

    toda vez q me recusei a passar pela dor sofri 10 x mais .

    falta-nos ritualizar nossas mortes diarias ( vc tem razao).

    bj

  2. Rui Motta Says:

    Certas dores só sabem aqueles que passaram por esses momentos. Hoje, vou a todos os velórios que me dizem respeito. As pessoas não imaginam o bem que fazem aos demais, só de estar lá, marcando presença, mesmo que calada e discreta. Os rituais da morte são belos, ainda que marcados pela dor. Precisam ser vividos para que possamos realizar a perda.

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