Olha o troco aí!

 

pedinte

Há vários meses tento escrever sobre um assunto que a cada enfrentamento, e eles acontecem diariamente, me deixa absolutamente paralisada, confusa e impotente: os pedintes nos semáforos. Eu disse pedintes. Não estou me referindo àqueles que comercializam algum tipo de produto.

A cada cruzamento acontece o mesmo ritual: eles se aproximam da janela, pedem com frases decoradas e olhares vazios e, você nem bem responde, seja com um aceno de cabeça, seja por um ‘hoje estou sem trocado’ e eles já saem para repetir, dezenas de vezes por dia, faça sol ou chuva, a mesma pergunta: “ Dá pra me ajudar com um troco, tia?”.

Bem, eu também quero ajuda. Quero que alguém me diga qual seria a ação mais compassiva e eficaz nessa situação. De que forma posso estabelecer um contato e uma identificação com uma criatura tão destituída de dignidade, afetividade e diria, sem pestanejar, de vida!

Qualquer um, por favor, me explique como ficar impassível e distanciada de uma realidade tão cruel, bruta e cotidiana como essa. Sequer consigo entrar neste universo e imaginar os sentimentos, pensamentos e sensações dessas pessoas.

Como conseguem, dia após dia, repetir incansavelmente o mesmo gesto automatizado? Debaixo de um sol escaldante se manter totalmente anestesiados da qualquer sentido? Com certeza, uma questão de sobrevivência.

Quando me aproximo de um cruzamento e vejo que alguém vai me pedir dinheiro, sou invadida por uma série de sentimentos conflitantes e pensamentos contraditórios. Sinto medo deles, da sua revolta silenciosa, de sua violência represada. Sinto compaixão por eles, pela profunda dor que carregam na alma. Sinto raiva, pelo conformismo e paralisia tanto deles, como de todos nós.

Penso: devo dar o dinheiro? Devo negar? Devo me expor e dizer o que sinto? Devo assistir em silêncio? A cada dia respondo de alguma forma: uma fruta, um sorriso, um ar irritado, outro cansado, e assim parece que sigo, porém sempre incomodada com a situação.

Trabalho 12 horas por dia, pago uma ‘fortuna’ em impostos e um outro tanto para manter um certo nível de qualidade de vida (nada de mais, acredite!), tento, com a maior humildade e esperança, ser uma pessoa ética e amorosa com os outros, me empenho em amadurecer e contribuir pelo sonho com ‘um mundo melhor’ e tudo que consigo sentir diante destas pessoas é uma profunda e dolorosa impotência. Procuro votar conscientemente a cada eleição e cobrar meus direitos para que outros também o tenham, mas tudo parece tão inútil…

É angustiante. Mal dou conta das minhas obrigações para conseguir me manter alguns milímetros acima da água, que já me bate pelo queixo, e ainda acompanho, com o olhar, os corpos inertes que transitam sob o mesmo líquido.

A ‘profissão’ de pedinte parece estar totalmente institucionalizada e aceita socialmente como algo natural e inevitável. Hordas de excluídos que vivem de trocos. Zumbis que integram o dia-a-dia e já fazem parte da paisagem urbana. Até quando? Por favor, alguém me ajude…

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2 Respostas to “Olha o troco aí!”

  1. andrea Says:

    eu nao dou esmola. eu dou comida quando posso.

    o duro é quando vem uma criança e vc percebe q é de verdade aquela fome de comida e afeto ( vc falou de alimento e afeto no seu texto anterior).

  2. Rui Motta Says:

    É preferível ajudar entidades organizadas, mas elas são muito pouco diante da realidade. Eu sempre dou esmolas porque não há uma política de assistência social para resgatar a vida dessas pessoas; elas morrem nas ruas diante da nossa omissão e hipocrisia. Lembro que, antes de aprender a pescar, essas pessoas necessitam comer e se manter vivos até chegar ao rio.

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