Somos todos ídolos com os pés de barro

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Depois de uma experiência muito pouco feliz, mas absolutamente necessária, me vi obrigada a refletir sobre a expressão popular “ídolo com os pés de barro”. Penso que é fácil reconhecermos um erro, uma falha, um engano, um pecado, quando nos colocamos no papel de vítima de uma situação, quando somos o alvo de uma ação destruidora, quando saímos feridos de forma exposta para todos verem. É, de alguma forma, mais confortável porque recebemos a solidariedade e a atenção de outros. Eles nos compreendem, balançam a cabeça e nos dizem: “Sei exatamente como você se sente…”. Agora pergunto, depois de passar isso na pele a muito pouco tempo, o que sentimos quando somos nós os algozes da situação? Os vilões, os destruidores, os protagonistas de uma ação sórdida contra quem amamos? Porque, acredite, são os que mais amamos que se tornam alvos fáceis e perfeitos para que deixemos sair o nosso lado menos brilhante e mais obscuro da nossa personalidade. É com quem está próximo, com quem nos sentimos mais à vontade que a possibilidade de agredir, mesmo que inconscientemente, parece ser maior. Nessa hora brutal, quando olhamos para baixo e percebemos que nossos pés são mesmo de barro é que a dor é maior. Não só porque nos cai a ficha de que somos absolutamente imperfeitos e humanos e que somos capazes de ferir cruelmente alguém, mas também porque não contamos com a solidariedade e a compreensão de ninguém, nem mesmo a nossa. Com muita sorte, quem sabe, talvez da própria vítima de nossa inconsciência, se ela tiver generosidade suficiente para não nos deixar sozinhos em nosso lado maniqueísta e solitário do time. A sedução de uma sociedade patriarcal egóica, embasada na mais pura vaidade da imagem ideal, não pode ser subestimada em nenhum momento. Os apelos do “seja o melhor a qualquer preço” e da “irrepreensível perfeição” são devastadores. Em troca de aceitação e de aprovação de um modelo social somos capazes de absolutamente tudo: até mesmo matar. O que se cria entre a alma e o ego é um abismo intransponível. Pude perceber claramente esta sensação de vazio quando me pediram para responder um questionário sobre autoestima nesse período de reflexão sobre o meu lado negro e sombrio. A primeira pergunta era: você se considera uma pessoa legal? As respostas variavam entre sempre, freqüentemente, raramente e nunca. Comecei a chorar, consciente da minha incapacidade de responder a esta questão. Percebo claramente o abismo entre o que gostaria de ser (ideal) e o que realmente sou (humanamente possível). Se gostaria de ser legal sempre? Mas é claro!!! Quem não gostaria, mesmo correndo o risco de ser previsivelmente chato? Mas a verdade é que mesmo buscando sintomaticamente ser legal o tempo todo, não sou nem um pouco legal muitas vezes. Aliás, com muito mais freqüência do que realmente gostaria de reconhecer. Recentemente feri uma pessoa que amo profundamente. Foi inconsciente, mas isso não me eximiu de responsabilidade (não culpa e sim responsabilidade). Sei que algo na relação de confiança foi abalado e sei que não poderia ser diferente. É preciso tempo, paciência e muito amor para se construírem vínculos fortes e às vezes, ações egóicas podem ser fatais para a relação. Mas acredito no amor. Acredito que podemos ir além. Que podemos amar apesar da nossa fragilidade e dos nosso eternos pés de barro. Fiz a única que pude: reconhecer a situação e a minha responsabilidade; demonstrar a minha tristeza e dor e continuar a amá-la, apesar da minha inconsciência, da minha sombra, apesar dos meus pés de barro. Ainda me lembro com bastante nitidez da experiência. Não é algo que se passe e se esqueça de um dia para o outro. Mas me sinto confortada por ter tido coragem de enfrentar a situação. Acho que o mais difícil não é errar. O mais difícil é admitir o erro e assumir a parte que lhe cabe no latifúndio, esperando que a relação tenha um vínculo e amor suficientes para esperar que as feridas se fechem e a dor seja substituída pela compaixão, aceitação, afeto e humildade. No dia do meu aniversário, essa pessoa que magoei me deu um objeto onde está gravada a seguinte frase: “Me ame quando eu menos merecer, pois é quando eu mais preciso”. Ele está no meu altar, em casa, e olho todos os dias para não me esquecer que sou digna desse amor. Todos cometemos erros, mas não podemos sequer aprender com eles se não aceitamos e reconhecemos que fomos nós que os cometemos. Se errei, reconheço, me desculpo, me corrijo, aprendo e sigo em frente. Assim é a vida…

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3 Respostas to “Somos todos ídolos com os pés de barro”

  1. andrea Says:

    de onde vem essa coragem e determinaçao , de trazer a luz assuntos , fatos , situaçoes e coloca-los tao bem na mesa?
    vc escreve com uma desenvoltura e clareza.

    grata por mais esse aprendizado

  2. Paulo Martinelli Says:

    Carolina, nada como a maturidade. Só ela nos dá os braços largos que precisamos para nadar no mar revolto da vida.

    Sucesso

  3. Rui Motta Says:

    Raciocínio irrepreensível. Mas nunca se esqueça de que, nas coisas do verdadeiro amor, existem atalhos que fazem relevar as mais estúpidas atitudes. No fim, o amor sempre vence, não esqueça.

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