Mulher gosta de apanhar…

Tive um namorado há alguns anos que chegou em casa um dia cuspindo marimbondo e logo foi soltado aquela: “Mulher que gosta de apanhar, tem mais é que levar mesmo.” Fiquei indignada e logo questionei o motivo de tanta irritação. Ele então contou que na madrugada anterior, quando voltava para casa de uma balada com um amigo, passou por uma avenida e viu um homem espancando uma mulher. Os dois resolveram então parar o carro e oferecer alguma intimidação para ver se a violência cessava. Desceram do carro e chamaram o homem: “Ei, você aí, pare de fazer isso, se não vamos aí”. Para a total surpresa dois dois, vira a mulher, ainda com a mão do homem apertando o seu pescoço e responde: “Não se mete não. Ele é meu marido e ele tem direito!!!”.
Chocados, entraram no carro e foram embora.
Isso que acabo de contar não é anedota e nem invenção.
Frases como essa, tipo “mulher gosta de apanhar”, são muito mais comuns de se ouvir do que eu gostaria de reconhecer. As questões que envolvem as relações “afetivas” ou “amorosas” violentas são complexas e passíveis apenas de compreensão, ajuda e compaixão, nunca de julgamento.
Usei as aspas nas palavras afetivas e amorosas porque elas, na verdade, pretendem significar o contrário de violência, mas acabam contaminadas por ela.
Falo por experiência própria. Somente tive consciência de que vivi a maior parte da minha vida em um ambiente familiar patológico e violento depois do meus 30 anos.
Estava fazendo um trabalho de autoconhecimento, denominado constelação familiar, quando em meio à minha vivência, a psicoterapeuta que coordenava os trabalhos se virou pra mim e disse: “Meu Deus Carol, o que aconteceu na sua família?” Eu estava completamente banhada em lágrimas e sem voz. Foi preciso dois dias de introspecção total para começar a “digerir” as informações e o que senti naquela sessão.
Concluí que aquele nível de agressividade e violência doméstica em que estava mergulhada nas relações familiares era, para mim, “uma normalidade”. Achava que todas as famílias tinham tratamentos assim… Não conhecia outras formas de me relacionar com meus pais e meus irmãos.
Por isso sei que quem vive relações afetivas com pessoas agressivas e violentas, acaba fazendo um link entre o desejo de amor e proteção com atos violentos de várias naturezas. Acaba acreditando que bater, gritar, abusar e controlar também são manifestações de “quem ama o outro”.
Não é que a mulher goste de apanhar, ela está inserida em uma realidade própria e característica de sua história pessoal e não vê, de verdade, qualquer saída deste círculo vicioso. Às vezes, mal se reconhece como vítima de alguma coisa.
O diretor brasileiro dos filmes premiados “Janela da Alma” e “Lixo Extraordinário”, o documentarista João Jardim, finaliza uma película chama “Amor?” (com esse ponto de interrogação mesmo), que deve estrear em novembro deste ano. A produção traça uma “malha” sobre as relações amorosas que envolvem violência, por meio de depoimentos de pessoas reais que experimentaram a violência física ou moral com seus parceiros, tanto as vítimas como os agressores ou, às vezes, as duas coisas. O diretor do filme defende que este tipo de violência acontece mais do que imaginamos, muitas vezes com pessoas bem próximas. Algo que não se conta nem para o melhor amigo. E que, para muita gente, não é dissociado do amor em si.

Como a grande maioria dos depoentes se recusava a mostrar o rosto, o diretor reuniu atores para interpretar seus depoimentos. Entre eles, Julia Lemmertz, Lília Cabral, Mariana Lima, Claudio Jaborandy e Angelo Antonio, entre outros.

Só para dar uma idéia sobre a complexidade desse tema, leia alguns trechos dos depoimentos que já foram filmados:

“…E o louco é que até a própria relação sexual foi ficando violenta, da gente começar a curtir se bater durante a transa, arranhar as costas, queimar as costas com cera de vela… mas isso era prazer, era bom. Quando a gente se batia, o sentimento não era de raiva, era de incompreensão. Tipo, ‘pelo amor de deus, eu quero me entender com você, mas você não tá entendendo o que eu tô falando.’ Era como se a gente fizesse isso pra se reaproximar.”

“Uma vez eu rasguei a roupa dela, não as roupas do armário, as roupas nela. Era como se toda essa porradaria ficasse pequena perto do amor que a gente sentia, e de como as coisas eram gostosas quando a gente tava bem.”

“Não que eu achasse a violência atraente, o fato é que o meu pai me batia… Então, até que ponto eu poderia interpretar um tapa, um aperto forte no braço, um beliscão, um puxão de cabelo como um ‘não gostar’? ‘Oi, amor…’, eu falei legal com ele, mas ele me olhou com muito ódio e me deu um caldo, me afundou e manteve a mão embaixo, e eu nem tava com os pés na areia nem nada, eu tentava subir e não conseguia, tentava e não conseguia.”

“O medo era tanto que eu não conseguia rebater mais nada o que ele falava. Eu fazia tudo o que ele mandava com medo da reação dele.”

Quem se interessar pelo teor do filme pode ainda acessar o link abaixo e ler uma pequena entrevista feita com o documentarista.

http://www.feminismo.org.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=1408:filme-vai-falar-da-violencia-nos-relacionamentos&catid=48:violencia-contra-a-mulher&Itemid=107

O tema é espinhoso e instiga. Voltarei ainda nele. Por ora…

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6 Respostas to “Mulher gosta de apanhar…”

  1. andrea Says:

    eu tive um pai agressivo verbal e fisicamente.

    apanhei 3 x : aos 4 , aos 15 e aos 19. por ter desenhando na parede , por falar ao telefone q tinha cadeado ( so recebia chamada) e pq abriu minha correspondencia enquanto eu trabalhava ( cheguei e fiz um escandalo).
    ele queria ser ver livre de mim e eu dele .

    parei de contar as inumeras vezes q me mandou calar a boca ou bateu nela.

    qq pessoa q ia a minha casa ou ele encontrava na rua e principalmente familiares , o assunto principal era falar mal de mim em todos os sentidos . eu nao tinha nada de bom . era feia , burra , incapaz . so servia para lavar , passar , arrumar e cozinhar . isso era obrigaçao.

    vc nao tem noçao de quanto tempo eu precisei e preciso ainda para transformar esse pai interior.

    e as escolhas q fiz baseado nisso? alias eu so conhecia isso . nao havia referencial masculino positivo e construtivo do feminino.

    hj eu li seu texto e chorei profundamente. nao sou feito a agua q contorna os obstaculos. na verdade fico empacada na frente deles por anos sem saber como fazer.

    fui uma mae brava com renan ( pequeno) e me tornei mais tranquila no crescimento dele. bati , xinguei , ja disse coisas p acabar com auto estima ….. mas depois me revejo e peço perdao , busco o meio.

    quanto a sexualidade parece q esse departamento ficou intacto apesar de tudo. acredito no amor , sou romantica e sexo pra mim tem q estar ligado com algo maior senao nao acontece.

    grata

    • Carol Says:

      Sua franqueza e transparência muitas vezes chocam e comovem a gente.
      Andrea querida, essas nossas experiências com nossos pais são eternas dores. Podemos sim transformar nossas figuras parentais interiores, mas o processo é lento e exige persistência. Levamos uma vida inteira para isso. Admiro muito você pela clareza e coragem. Eu é que preciso agradecer você por dividir suas dores e histórias comigo, Obrigada amiga.
      Beijos,

  2. Jose Carlos Vieira Says:

    ” Todos levamos dentro de nós um grão de loucura, sem o qual é imprudente viver” poéticamente disse Garcia Lorca. Tivemos contemporâneamente muitas figuras no mundo das artes classificadas como “loucas” e isso leva-nos à percepção de várias formas de “loucura” , porque, parafraseando Lorca, é preciso ser louco para , paradoxalmente, ter sanidade e viver numa sociedade como a nossa. Machado de Asssis tem um conto antológico ” O Alienista” que ainda é atualíssimo e brilhante e humoradamente concebeu uma cidade acometida pela loucura. Esse preâmbulo para opinar sobre a questão posta em discussão : “o gosto da mulher pela agressão de seu homem ” . A psicologia demonstra tendência incontida de “reprodução de padrões” e isso está proclamado no blog. Embora redundante todos sabemos que as crianças seguem o modelo apreendido com seus pais biológicos ou quem os substitui no mister de “formatá-los” (com escusa pela expressão de conotação coisificante mas incorreto seria usar o verbo educar, pela sua deformação atual) e nada normal para quem foi criado vendo a mãe ou sucedânea ser violentada pelo homem, reproduzir esse comportamento quando adulto. Assim como não deve causar espécie à mulher considerar-se merecedora da violência. Além disso os escritos de Marques de Sade, que mereceram as mais profundas análises de filósofos, psicólogos, eucadores e tantos outros, revelam o componente mórbido de seres humanos de ambos os sexos, que se comprazem em sofrer flagelos ou ministrá-los, até mesmo como forma de exacerbação de prazer sexual. Luis Buñuel , talvez tenha sido o cineasta que abordou com maior fidelidade o “sado-masoquismo” em “La belle de jour” . O direito, dinâmico como deve ser adequa-se ao tempo e tipifica figuras penais para coibir as práticas violentas, embora esteja impregnada na cultura popular não apenas nos extratos mais simples da sociedade mas também nos mais elevados, que a agressão é necessária e admitida. Isso fomentou a necessidade de editar leis mais rigorosas e anos atrás foi promulgada a nominada “Lei Maria da Penha” que vem sendo aplicada para conduzir os agressores aos tribunais. Mas, reforçando a afirmação da “cultura machista” , recentemente um Juiz de “Direito” em Minas Gerais, não só absolveu um agressor como fez digressões na sentença sobre a impropriedade daquela lei, considerando-o descabida. Essa figura sequer conhecia sua função judicante pois confundiu-se com o legislador . Está sendo correicionado e essa decisão foi ter ao Conselho Superior de Justiça. Abrir esse tema à discussão contribui para superar essa mazela de nossa sociedade e projetar relação de convivialidade amorosa entre homens e mulheres, irmanando-os para um porvir mais fraterno e justo. Abraços.

  3. Bernardo Says:

    Carol,
    Há muito não faço comentários, me contento em ler teus textos.
    Ouvindo um cd da Alcione me lembrei deste, e resolvi enviar a letra para você.

    Um beijo,

    Nem Morta
    Alcione
    Composição: Michael Sullivan / Paulo Massadas
    Eu só fico em teus braços
    Porque não tenho forças
    Prá tentar ir a luta
    Eu só sigo os teus passos
    Pois não sei te deixar
    E esse idéia me assusta…
    Eu só faço o que mandas
    Pelo amor que é cego
    Que me castra e domina
    Eu só digo o que dizes
    Foi assim que aprendi
    A ser tua menina…
    Prá você falo tudo
    No fim de cada noite
    Te exponho o meu dia
    Mas que tola ironia
    Pois você fica mudo
    Nesse mundo só teu
    Cheio de fantasias…
    Eu só deito contigo
    Porque quando me abraças
    Nada disso me importa
    Coração abre a porta
    Sempre que eu me pergunto
    Quando vou te deixar
    Me respondo:
    Nem Morta!
    Eu só faço o que mandas
    Pelo amor que é cego
    Que me castra e domina
    Eu só digo o que dizes
    Foi assim que aprendi
    A ser tua menina…
    Prá você falo tudo
    No fim de cada noite
    Te exponho o meu dia
    Mas que tola ironia
    Pois você fica mudo
    Nesse mundo só teu
    Cheio de fantasias…
    Eu só deito contigo
    Porque quando me abraças
    Nada disso me importa
    Coração abre a porta
    Sempre que eu me pergunto
    Quando vou te deixar
    Me respondo:
    Nem Morta!…(2x)

    Estranha Loucura
    Alcione
    Composição: Michael Sullivan / Paulo Massadas

    Minha estranha loucura
    é tentar te entender e não ser entendida
    É ficar com você
    Procurando fazer parte da tua vida
    Minha estranha loucura
    É tentar desculpar o que não tem desculpa
    É fazer dos teus erros
    Num motivo qualquer a razão da minha culpa
    Minha estranha loucura
    É correr pros teus braços quando acaba uma briga
    Te dar sempre razão
    E assumir o papel de culpado bandido
    Ver você me humilhar
    E eu num canto qualquer dependente total do teu jeito de ser
    Minha estranha loucura
    É tentar descobrir que o melhor é você

    Eu acho que paguei o preço por te amar demais
    Enquanto pra você foi tanto fez ou tanto faz
    Magoando pouco a pouco me perdendo sem saber
    E quando eu for embora o que será que vai fazer?

    Vai sentir falta de mim
    Sentir falta de mim
    Vai tentar se esconder coração vai doer
    Sentir falta de mim

    Minha estranha loucura
    É correr pros teus braços quando acaba uma briga
    Te dar sempre razão
    E assumir o papel de culpado bandido
    Ver você me humilhar
    E eu num canto qualquer dependente total do teu jeito de ser
    Minha estranha loucura
    É tentar descobrir que o melhor é você

    Eu acho que paguei o preço por te amar demais
    Enquanto pra você foi tanto fez ou tanto faz
    Magoando pouco a pouco me perdendo sem saber
    E quando eu for embora o que será que vai fazer?

    Vai sentir falta de mim
    Sentir falta de mim
    Vai tentar se esconder coração vai doer
    Sentir falta de mim…

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