O Contador de histórias

Esta semana fiquei bastante mobilizada com o filme nacional “O contador de histórias”. Ele narra a história de Roberto Carlos Ramos, um dos protagonistas da campanha publicitária que foi veiculada na televisão em 2004, “O melhor do Brasil é o brasileiro”.

Resumidamente, na propaganda, ele conta como fugiu da Febem mais de cem vezes e foi “salvo” por uma pedagoga que o segurou no colo mesmo depois dele ter inundado seu apartamento com água.

O diretor cinematográfico Luiz Villaça descobriu a história de Roberto Carlos Ramos ao ler para o filho um livro infantil escrito por ele. Impressionado com as coisas pelas quais Roberto Carlos passou, resolveu transformar a história em um filme, que produziu juntamente com Denise Fraga e estreou em agosto de 2009 no Brasil

Vi o filme em DVD, emprestado por uma jornalista amiga minha aqui do Correio. É um filme que deixa mesmo a gente sem dormir, e, quando dorme, cochila sonhando com cenas da história. Impressionante é um adjetivo leve…

Roberto é o mais novo de uma família de 10 irmãos. Viveu com na favela com eles até os seis anos de idade, quando a mãe, ao assistir uma propaganda do governo sobre a Febem, que mais tarde tornou-se a Fundação Casa, resolveu “salvar” o caçula de uma vida miserável e entregou seu rebento ao Estado.

Imagine que a propaganda, na década de 70, afirmava que a Febem oferecia um teto, refeições e educação. “Seu filho poderá ser um advogado, um médico, um engenheiro…” prometia o reclame. Chega a dar ânsia assistir a cena em que a mãe vai embora da instituição e deixa seu pequeno de seis anos, chorando e a chamando, sem entender o que estava acontecendo.

Daí pra frente não é preciso filme para saber o que aconteceu. Sabemos, todos os dias, dos abusos de toda sorte e da violência pelos quais passam esses seres humanos. Roberto tentou 132 fugas da instituição (voltando sempre, pego em pequenos furtos e por estar morando na rua), não se alfabetizou, envolveu-se com drogas e em atos infracionais nas ruas de Belo Horizonte. Foi classificado pela instituição de “irrecuperável”. Assim estava selado o seu destino, como de tantos outros.

Nessa época, com 13 anos, retornava de mais uma fuga, quando nos corredores da Febem seu destino se cruzou com o da pedagoga francesa Margherit Duvas, que estava visitando a instituição para sua tese de doutorado. Ele descreve de forma forte e emocionante, que ela foi a primeira pessoa, em treze anos, que lhe fez uma pergunta de maneira delicada: “Por favor, posso falar com você?”. Quem era aquela mulher que lhe pedia licença para falar?

É interessante observar que a relação entre os dois toma como base o respeito e a dignidade, muito mais do que expressões de afeto físico. Não é da cultura européia o contato físico em profusão, como o é aqui no Brasil. Porém, o tom de voz dela, sua expressão facial e corporal, tudo demonstra docilidade, ingenuidade, encantamento juvenil e esperança na vida. Saber que existem pessoas assim no mundo, me enche de orgulho. Uma lição de vida.

Ela adota Roberto em 1979. Três anos depois, já alfabetizado foi levado por ela para a França, onde concluiu os estudos em Marselha. Ao completar dezenove anos descobriu a arte de contar histórias. De volta ao Brasil, se formou em pedagogia e acabou se tornando o que ele mesmo define como o Embaixador do País das Maravilhas. Ao concluir o curso, retornou ao Brasil e à Febem como estagiário.

Adotou lá o primeiro dos 13 filhos que assumiu ao longo de sua vida.
O reencontro dele com a mãe, no filme, é de matar. Um acerto de vidas, não de contas.

Duas coisas me chamaram a atenção. A primeira é o fato de que, por ele ter vivido até os seis anos com a família (mesmo com miserabilidade da favela, suas lembranças são de um tempo extremamente feliz), essa primeira infância, relativamente estruturada em um núcleo familiar, o salvou de uma patologia mais grave.

A segunda é que, embora tenha sofrido episódios de violência (melhor nem comentar…), suas feridas profundas puderam ser cicatrizadas pelo mais potente medicamento que existe: o afeto, o amor. Uma vida restituída e reconstruída. E mesmo que esta francesa não tenha feito mais nada de útil na sua vida, sinto por ela, mesmo sem conhecê-la, uma grande admiração e um forte sentimento de agradecimento. Entre outras coisas, por jogar luzes de esperança e fé na escuridão que muitas vezes insiste em tomar conta da realidade em que vivemos. Obrigada Margherit.

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4 Respostas to “O Contador de histórias”

  1. andrea Says:

    eu vi esse filme , realmente muito bom

  2. Aline Says:

    Filme lindo, lindo, lindo… pena que poucos tenham a mesma chance… mas é uma história maravilhosa, de esperança, que como cuidadora eu busco me inspirar…

  3. Sara Says:

    Ainda não assisti ao filme, nem sabia que havia sido gravado.
    Mas assisti sua palestra e me impressionei bastan

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